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domingo, 28 de agosto de 2011

Garrano, um Cavalo para os Deuses

Isso mesmo! Para os deuses e para o Ventor. Vamos elevar o cavalo garrano a Património Nacional.

O cavalo garrano, poderia ser, sem sombra de dúvidas, um cavalo para os deuses!

Um dos santuários dos cavalos garranos, situa-se nas minha Montanhas Lindas - Soajo e Gerês, mas eu não vos falo dos garranos do Gerês e de outros santuários como o da serra da Cabreira e dos galegos. Nestes últimos santuários, podemos ver os garranos movimentar-se com o mesmo brio dos da serra de Soajo mas, na serra de Soajo, o Ventor e os garranos fizeram-no em forma de partilha. Por isso, é destes que eu vou falar-vos, porque a serra era nossa.



Tu és garraninho, um príncipe dos deuses que querem manter belas as nossas Montanhas Lindas

Para mim, uma das maravilhas que dão beleza às minhas Montanhas Lindas, sempre foram os garranos e como descobri que os garranos iriam ser candidatos a Património Nacional, candidatura apresentada, em Setembro, resolvi partilhar com todos aqueles que não conhecem os garranos ou com todos aqueles que já ouviram falar deles, pedaços da minha vida junto desses belos animais que, dizem os sabidos, já por cá andam há milhares de anos e, possivelmente, os meus amigos da Gruta de Altamira e outras, também fizeram deles objecto das suas obras de Arte Rupestre, nos tectos das suas grutas.





Em redor das nossas Montanhas Lindas ou nos seus topos, vós, garranos, juntamente com as rainhas das montanhas (vós sois os reis), são as belezas do nosso mundo a perder-se


Certamente, também o Dom Fuas Roupinho, nas encruzilhadas das suas lutas, terá montado garranos nas suas cavalgadas sem fim, pelas planuras alentejanas, tal como, quando eu era criança, os homens "grandes" de Adrão e de outros lugares, o faziam quando, montados na beleza do seu garrano ou garrana, se chegavam ao Primeiro de Soajo, as célebres feiras do primeiro dia do mês.


Um garrano não será um mustang das pradarias americanas, nem um lusitano ou um dos belos símbolos reais de Alter. Um garrano é um garrano! E, por isso mesmo, uma beleza!





Mas eu sei que há quem não goste de vós e que, segundo as informações televisivas, dos últimos tempos, até a tiro vos têm morto. Talvez egoístas que apenas querem as estradas para eles

Ele caminha com primor pelas Montanhas Lindas do Ventor e, as visões das suas imagens, entre as rochas graníticas, as urzes e os fetos, as árvores de florestas frescas, como em Lamas de Mouro e outras, bem como as suas corridas nos horizontes dos cabeços da sua existência, tornam-se memoráveis para quem tem o privilégio de partilhar, junto deles, essas montanhas fabulosas.

Caminhar entre garranos, semiselvagens, selvagens ou mesmo domesticados, é um privilégio que nem todos têm e eu sinto-me orgulhoso de partilhar junto, com os garranos e as rainhas das montanhas, as belezas dos nossos horizontes.



A beleza de uma mãe a proteger o seu filhote e do seu filhote a proteger-se, junto da mãe

Por tudo isso, achei uma bela ideia, a candidatura do garrano a Património Nacional e aqui deixo o meu apoio como sei, tentando falar-vos das maravilhas dos garranos (como tenho feito nos meus posts), deixando os pormenores técnicos para os especialistas. Falar da Morfologia do garrano, da sua forte participação no turismo e desporto, no  factor económico, como animal de tiro etç., isso será feito, certamente, na apresentação da candidatura mas, o que me parece realmente interessante, é a possibilidade de essa candidatura melhor vir a ajudar na preservação dos garranos, animais em vias de extinção, pois segundo afirmam os especialistas, a sua existência actual, rondará entre 1.500-2.000 animais.

Também temos de levar em consideração que a defesa do garrano interage com a defesa do lobo. Não podemos defender o lobo sem defender os garranos porque as duas espécies vivem num ecossistema de montanha, reduzido, praticamente ao Minho e seus arredores da Galiza.

Desde 1994 que a raça garrana foi classificada ameaçada pelo Centre d'Etudes et de Recherches pour l'Économie et l'Órganization des Productions Animales (CEREOPA) sediado em Paris.



Eu vivo, hoje, convosco, as alegrias de outros tempos que ainda permanecem no meu cérebro. Tanto fizemos juntos por uma simples côdea de pão de milho. Por isso, nunca esquecerei a vossa beleza!

Calculo que, se o garrano não for devidamente protegido, dentro de pouco tempo, atravessar a Naia, subir ao Muranho e à Pedrada, rodar pelo Mesio, pelos montes da Gave e da Aveleira, por Lamas de Mouro e não ver garranos, deixará de fazer grande sentido pois esses montes perderão muito da sua beleza original.

Defendamos os garranos, como as cabras selvagens, os lobos e, todo o animal que torna o nosso mundo mais belo. Por isso, o garrano a Património Nacional, já!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ventor e as suas Belezas

Durante a semana de 06 a 11 de Julho, desloquei-me com a Dona do Quico e os avós do Tomás e da Maria até às minhas Montanhas Lindas mas, mais uma vez, apenas as olhei de baixo para cima.

Falarei, por aqui, das nossas caminhadas, rodando nos tapetes de alcatrão, mas para ficar um pouco mais animado, mandava a minha máquina à frente a desbravar trilhos terrestres e aéreos para rebocar as minhas montanhas até mim.

Assim, elas sempre imponentes desciam das alturas ou subiam lá de baixo e prostavam-se diante dos meus olhos como autênticas belezas deste Planeta Azul.

Caminhando pela meia encosta o mais próximo possível, eu prendia-as a um fio dourado emprestado pela Senhora da Peneda e, todo entusiasmado, transportava-as até junto de mim, e agora, até à minha janela virtual onde todos que o pretendam as possam observar.


Na manhã do dia 7 de Julho, levantei-me, saí do hotel e caminhei até à porta da "grande casa" da Senhora da Peneda que, de tão cedo que era, ainda estava fechada. Encontrei a camisa de uma cobra, quando iniciei a aproximação às quedas de água que descem da Meadinha e, olhando para o lado, procurando a cobra, encontrei a minha flor dos sonhos de criança - a flor azul do São João

Mas, todas estas flores azuis são de Adrão. A Senhora da Peneda lembrou-me da sua existência, perguntando-me: "olha para elas, Ventor! Ainda as conheces?


Eu olhei-as e esqueci-me da camisa e da cobra



Fotografei-as junto da Senhora da Peneda, das suas capelinhas e do Hotel da Peneda, mas avancei para Adrão na esperança de as encontrar

Em Adrão, lá estavam, nos mesmos socalcos, nos mesmos locais de sempre, quando há mais de 50 anos elas, espreitando-me,  faziam parte das minhas caminhadas, ... da minha Grande Caminhada!

 Elas saíam dos socalcos quase como a festejar a minha passagem. E eu, hoje, faço a festa com elas!

Mas, com a intervenção da Senhora da Peneda, junto do Senhor da Esfera, talvez volte a caminhar por lá no próximo mês de Agosto e, então, sim! Então eu beberei água nas minhas fontes, espreitarei pelas portas sombrias dos nossos iglos de pedra e para compensar estas belas caminhadas de Julho, voltarei a rever tudo de cima para baixo.

Caminharei no planalto da Naia e beberei água naquela bela nascente onde Diana, Vénus e outras amigas e amigos gostam de lavar os pés, chorando pela presença do Ventor.

Caminharei no Poulo do Muranho e por entre os seus iglos de pedra e, se o Senhor da Esfera me der forças, farei uma grande corrida até à sua nascente onde beberei da sua água e recordarei todos que um dia por lá caminharam comigo.

Voltarei a fotografar tudo que se vê desde o Alto da Derrilheira como se estivesse a fazer um voo de avioneta sobre Adrão e assim observarei as ruínas dos iglos da Naia e da Chãe do Boi que hoje apenas ocupam um espaço na nossa memória, fazendo-nos recordar os nossos antepassados que, caminhando ao frio das nossas montanhas, ali se abrigavam do frio e dos lobos, protegendo os seus animais.

Em Adrão, encontrei, além de flores, outras maravilhas como esta libelinha dourada ...

... e encontrei outras flores, maravilhas dos meus tempos de crianças, mas nem todas trouxe comigo 

Mas, a libelinha dos meus sonhos é esta! Ela continua dentro da minha cabeça há anos sem fim. Encontrei-a também no rio da Peneda e na Branda das Aveleiras, mas eu queria encontrá-las no meu rio e elas aqui estão

Caminharei pela Corga da Vagem até à fonte das Forcadas de onde romarei à esquerda e iniciarei a subida até ao Alto da Pedrada, onde estarei, certamente, bem mais pertinho do Céu.

Por estes trilhos espero voltar a ver as nossas "rainhas das montanhas", e os garranos, seus companheiros e senhores das grandes corridas contra os ventos, agora que estão mais verdes e aptas a receber todos, quase como nos velhos tempos.

... tal como esta e muitas outras que vagueiam pelo meu cérebro

Por agora contentei-me com as belas estradas das meias encostas, rodando pelo Planalto de Castro Laboreiro, pela Peneda, por Lamas de Mouro, por S. Bento do Cando, pela Branda das Aveleiras, pelos trilhos alcatroados da Gave, de S. António do Vale de Poldros, por Paradamonte, por Cavenca, por Rio de Mouro, Sistelo, Cabreiro, Mesio, Soajo, Cunhas, Paradela, Tibo, Rouças e, sem esquecer, pois claro, o meu ninho - Adrão. E também, não vou esquecer Ponte da Barca, Arcos da Valdevez, sempre integradas nos meus roteiros e uns saltinhos pelas belas terras da Galiza de onde observei, tal como um galego, as belezas das minhas Montanhas Lindas, vistas de outro lado.

Melgaço, S. Gregório, Monção, Valença, Vila Nova de Cerveira, Caminha, Paredes de Coura e algumas outras vilas e aldeias foram, também, parte do nosso roteiro.

Foram seis dias sobre rodas!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Não, à Escola!

Em 1954, andava o Ventor na 2ª Classe, pequenito, subiu de Adrão à Corga Grande com as suas vacas, de manhãzinha, como sempre fazia por essa altura, Primavera.



Este mês de Junho (2016), caminhei, apressadamente, sobre flores azuis, em Adrão

Como já estava atrasado (o relógio era o sol) desceu os montes numa correria para chegar à escola do Senhor da Paz, sem atrasos.

Chegou a casa, pegou na sacola com a lousa e algo mais e iniciou uma corrida na Quelha da Costa para não se atrasar. Mas a conclusão era uma: o atraso já era evidente e, quando chegasse, a professora do Beleiral, iria pegar na régua e aplica-la nas minhas mãos já fartas de trabalho.

Espreitei sobre a parede para as lavouras à minha esquerda, vi as flores por entre as ervas. Flores lindas, malmequeres e margaridas e muitas outras e, para meu encanto, nos socalcos das lavouras já nasciam as dedaleiras.



Tal como há muitos anos atrás, caminhei sobre o verde e as flores rosadas

Não levei muito tempo a pensar! Se fosse para a escola, levaria umas palmatorias injustas, pensava eu, caso não fosse, o mais grave que me poderia acontecer seria levar uma tareia da minha mãe. O meu amigo Apolo espreitava-me de cima, já bem levantado, sobre os montes lá em frente e parecia rir-se. Sentei-me no meio das ervas verdes e as múltiplas flores que, em meu redor, me observavam. Estava decidido! Esse dia seria para, por minha conta, dedicar à Primavera e às flores, suas belezas. Peguei na sacola, encostei-a à parede da lavoura e pulei, corri, dei cambalhotas, apanhei flores e mandei a escola às favas. Quando já estava cansado, sentei-me e comecei a apanhar flores. Parecia que elas me gritavam para não as matar e desisti. Desisti tanto que ainda hoje não gosto de apanhar flores. Nisso, a minha máquina é uma preciosa ajuda!



Também caminhei sobre as flores brancas

A máquina apanha-as sem as estragar e, depois, com calma, eu observo-as como se ainda lá estivesse a clicar. No dia seguinte, ou no outro, ou ainda noutro, as flores lá continuam para mim e para quem mais gostar de as observar. A malta da escola chegava para o almoço e eu continuei só, entre as flores. Quando eles regressaram à escola, fui eu comer o que tinha para o almoço.

Depois voltei para o mesmo sítio, as lavouras de Adrão à esquerda da Quelha da Costa, quem sobe. Caminhei a tarde toda e depois infiltrei-me no meio dos outros para o regresso a casa. “Faltas-te à escola”? Claro, se não apareci é porque faltei. Apressei-me para ir buscar as vacas e, quando cheguei já a minha mãe estava informada pela professora que eu tinha faltado à escola. Anda para casa que, nós os dois, vamos conversar”, diz-me a minha mãe. Pensei caladinho: «pois seja, já estou preparado para isso».



Nos socalcos de Adrão, em 2016, as flores observavam, como antigamente (em 1954), as minhas passadas

“Porque faltaste à escola, Luis”? Atrasei-me com as vacas, ia chegar tarde à escola e, como não queria apanhar da professora, passei o dia no meio das flores. “Então apanhas de mim, ou pensas que ficas aí a gozar. Se faltares chumbas e depois atrasas-te e isso é pior. Desta vez o teu pai vai ter de te chegar a roupa ao pêlo”!



A Rosa (Caneira) Franqueira, filha de um primo da minha mãe, minha prima, sabe que, regando as suas flores, me está a mostrar um Adrão mais moderno

Pensei logo:«o meu pai nunca me bateu, pode ser que me safe! Acho que ganhei o primeiro assalto».

A tia Teresa Bondeira que ouviu tudo, só lhe disse, tentando apasigua-la: "não batas no moço. Ele porta-se tão bem que lá terá tido as suas razões para faltar à escola. E, pelo que ouço eles dizerem, a professora também bate, aos miúdos, por tudo e por nada". Pois era assim, de facto. Por tudo e por nada!



 Também, em Julho (2016), caminhei junto dos garranos nas Fontes, onde as minhas montanhas estavam lindamente floridas

Nesse dia fartei-me de ver as flores. Dediquei-lhes um dia contra a sociedade. Foi um dos dias mais lindos que tive, como criança e ainda hoje dedico muito do meu tempo às flores. Em Marrupa, no norte de Moçambique, pegava numa arma e ia para o mato, para ver nascer as flores. Ainda não tinha chovido e já elas furavam do chão puxadas pelas cacimbadas das monções que já iam fazendo valer a sua influência. De Vila Cabral o meu amigo Pescadinha emprestou-me os slides de flores que eu passei grande parte das noites a observar. A tela era um lençol.



Também, em Junho (2016), caminhei sobre as carrascas floridas, observando-as e tentando não as pisar. São assim as montanhas de Adrão quando as deixam ser

Não apanhei uma tareia, nem da professora, nem da minha mãe, nem do meu pai. Mas aprendi como lição que não se deve faltar à escola.

Quando eu ouço esta canção, Where Have All The Flowers Gone 


eu digo baixinho a Pete Seeger: «as flores estão aqui comigo».

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Mais um Sonho ...

  ... na morte do Quico.

Sentimos tanto a tua falta Quiquinho!

As Montanhas de Adrão choram por ti e por nós!

Eu fiquei sem o meu melhor amigo, a Dona ficou sem o seu Príncipe.

O meu Quico morreu no dia 24 de Setembro de 2009 às 07:20 horas. Levei-o e enterrei-o, a 470 Kms, nas nossas Montanhas Lindas.

O Sonho!

O último sonho do Ventor a  que o meu Quico assistiu, mas que, infelizmente para mim,  já não vos vai contar.

Uma das muitas alegrias que o Quico nos proporcionou. Chateado, mas colaborante, quando a Dona disse que o ia vestir à homem

Há cerca de um mês, talvez mais, ele ficou doente. Sem apetite, mas lá ia lambuzando isto ou aquilo. De repente ficou com falta de ar e, como o Veterinário dele estava de férias, levámo-lo a uma outra clínica, onde fez vários exames: análises e chapas. As análises denunciavam problemas no fígado e as chapas manchas negras nos pulmões. Dei-lhe os medicamentos que foram prescritos e ele não melhorou nada. Quando veio o Veterináro dele, já um amigo, levei-o lá e foi, como a Vet anterior, peremptório a acreditar tratar-se de uma pneumonia ou pior.

Mais medicamentos, mas quem não sabe, não acredita como é difícil dar medicamentos a um gato. Tudo isto, sem entrar em pormenores, foi uma tortura, para nós e para ele, durante pouco mais de um mês.

Na noite de 23 para 24 de Setembro, deste 2009, senti que ele estaria muito mal, mais uma vez. Pareceu-me ouvi-lo miar a pedir a minha companhia. Levantei-me e fui para junto dele. Encontrei-o deitado de lado, há entrada da porta da sala com muitas dificuldades em respirar. Já há algumas noites que tinha momentos maus alternados com momentos um pouco melhores. Fui buscar uma das suas mantinhas preferidas, que meti por baixo dele e tapei-o por cima para não arrefecer. Puxei um tapete e outra mantinha para mim mais uma almofada e fiquei ali deitado ao lado dele. Cada vez que o olhava, os seus olhos baços, penetravam nos meus a pedir ajuda. Fazia-lhe festas na cabeça e ele fechava os olhinhos como que a agradecer. Por fim, observando o seu sossego, acabei por adormecer ali no chão.

Nesse pequeno sono, comecei com um pesadelo!

Caminhava nas minhas Montanhas Lindas à procura do meu Quico que tinha desaparecido. Encontrei muita gente que caminhava na minha direcção e à frente deles todas as minhas tias e outras pessoas. Pareceu-me que caminhavam para mim todos os de Adrão juntos do Senhor da Esfera. À frente de toda essa gente a minha tia Joaquina e a minha tia Maria. A seu lado, dois passos atrás, caminhava, olhando-me, de rabo levantado, aquele rabo bonito que ele tinha, todo teso, o meu Quico.


A guerra da caixinha da pomada. A Dona queria tirar-lhe a caixinha da pomada do ventor, mas ele não deixou. Foi uma guerra!

Quando eu  fixei os olhos no Quico, fiquei muito contente por o ver, tão contente que parecia ter redescoberto todas as belezas deste mundo. A minha tia Joaquina, tão real como ela sempre foi, levantou o braço e disse-me falando alto: "deixa o gato connosco Ventor! Vai-te embora Ventor, deixa o gato! O gato fica connosco"! Ora ela nunca conheceu o gato!

Nesse momento, o meu Quico já moribundo, levantou-se, foi contra a ombreira da porta, deu mais duas passadas, bateu na cómoda do Hall e caiu, ficando encostado à minha perna esquerda. Acordei com ele a olhar-me fixamente! Voltou a levantar-se e caíu duas vezes antes de chegar debaixo da cama da "avó" dos seus amigos e também dele. Fui lá fazer-lhe festas olhando-o e acariciando-o, chorei imenso porque a minha esperança era ali que terminava. Ele precisava de ajuda e eu não tinha como ajudá-lo. Estive ali algum tempo. Por fim, sossegou mais um pouco e eu aproveitei par ir tomar duche e ia pensando no meu sonho. Ao sair da casa de banho espreitei-o e os olhos dele pareciam duas lanterninhas vermelhas a olhar-me. Fui lá fazer-lhe mais umas carícias e lá ficou sossegado.

No quarto pensava vestir-me, ir fazer o pequeno almoço e levar a dona à fisioterapia quando ele deu dois mios muito grandes. Voltei a tentar acalmá-lo e ele levantou-se, caíu, tornou a levantar-se, voltou a cair e, ao tornar-se levantar atacou furiosamente o aspirador à dentada e largando-o caíu no chão que tentava morder, mas não agarrava nada. Voltei a passar-lhe a mão pela cabeça a pensar na hipótese de apanhar uma dentada, mas ele olhou-me pela última vez e caíu de bruços no chão, abrindo as patas da frente, uma para cada lado, encostando o peito ao chão, não se mexendo mais. Endireitei-o e escusado será dizer-vos que chorei imenso por aquele meu companheiro de 12 anos. Passaram por mim, por momentos, 12 anos de alegrias imensas e pouco mais de um mês de tristezas.

Depois, chegou a Paz. A sempre tão pretendida Paz, entre beligerantes, mesmo quando afirmam o contrário!

Com ele já morto, recordei o sonho. A minha tia tinha-me pedido, pouco tempo antes, para deixar o gato com eles e para me ir embora! 

Por isso, eu fiz 900 Kms para levar o meu gatinho para um dos sítios mais lindos do mundo, as nossas Montanhas Lindas, que ele conhecia do computador, onde apreciava as vacas, os cavalos, as cabras, as ovelhas e outros animais quase como uma pessoa. Ele calculava ao ver-me sempre tão entusiasmado a olhá-las que gostava de partilhar comigo as belezas daquele recanto do Paraíso Terrestre.

sábado, 6 de setembro de 2008

A Romaria da Senhora da Peneda

Todos os anos, de 1 a 8 de Setembro, lá vão os romeiros a caminho da Senhora da Peneda, rumo à serra com o mesmo nome. Mas, pensando em termos de passado, os romeiros nunca mais voltam!

Eles não voltarão a passar em Adrão, em Tibo e no Baleiral, alegrando as gentes com os seus cantares, com as músicas das suas concertinas, das suas pandeiretas, dos seus ferrinhos, das caixas e dos tambores.

Nos meus tempos de criança, eu corria para a janela para ver aquela gente alegre caminhar por baixo, na nossa "grande avenida", de Adrão, a cantar e a dançar rumo à Santa da sua devoção. Eu perguntava a mim mesmo porquê? O que levava aquela gente a correr por trilhos pedregosos, rumo aos granitos da Meadinha?

Nas rochas da Meadinha, onde foi parar a bengalinha que a Senhora da Peneda, disse às irmãs, que iria para onde a Sua bengala caísse. A Bengala caíu junto à Meadinha e as irmãs tentaram dissuadi-la de permanecer naquele local, mas Ela, tal como o Ventor, achou-o maravilhoso!

Os anos passaram e eu percebi porquê! Eu fui crescendo e comecei a subir, cada vez mais alto, as minhas montanhas lindas, a chegar ao alto da Portela e a espreitar, também, cá de longe, a Senhora da Peneda. Lá, naquela garganta rochosa, incrustada à esquerda de quem sobe o vale, rumo a Lamas de Mouro, lá está o campanário, a casa da mais bela Santa das mais belas montanhas deste Portugal.


Senhora da Peneda

Ela quis ficar ali, no seu berço de granito, para nos dizer que a rudeza se torna bela quando o homem quer. Hoje não estou na Peneda, nem estou em Adrão e, mesmo que estivesse, mesmo que me aproxima-se da minha janela, não veria um romeiro passar, não ouviria uma pandeireta, não tocaria uma única concertina, rumo à Peneda. Não veria os cabazes das merendas, sobre cabeças hérculeas, assentes sobre rodilhas coloridas, nem os lenços coloridos aos ombros das belas mulheres que se dirigiam à Romaria da Peneda. Os homens carregados de foguetes (contados às dúzias) para pagarem as promessas feitas por  devoção à sua (nossa) querida Santa, já náo podem fazer tais promessas!

Cá está a sua bela "casa", por baixo da rocha da Meadinha

O ribombar dos petardos não se ouvem porque é proibido deitar foguetes. Também não teria interesse, pois, em Adrão, já não há rapazes para irem apanhar as canas à Portela! Antigamente, rebentavam milhares de petardos, nas alturas, e nunca houve um incêndio, hoje não rebenta um petardo a glorificar a Senhora da Peneda mas arde tudo! Porque, antigamente, as minhas montanhas lindas eram limpas pela pouca riqueza que havia por lá. Os gados comiam, rapavam tudo! Hoje rapam-nos a nós! Já nem dá prazer olharmos, observarmos ou regozijarmo-nos com as belezas que outrora, havia pelas minhas montanhas lindas. Hoje, por lá, só podemos observar duas coisas: matagais sem fim, que nos escondem tudo ou áreas carbonizadas donde tudo desapareceu.

Em 50 anos tudo se transformou! Nesse aspecto, para pior!

Subir as suas escadarias é um prazer para os apreciadores de tudo que se relacione com a vontade do Senhor da Esfera

Continuarão, certamente, a haver muitos romeiros na Peneda! Eles chegam de todos os lados, do Norte de Portugal e da Galiza, de outros mundos, e a Senhora da Peneda lá estará para receber todos, que chegam de carros de todas as cores e formas, de camionetas e, também haverão alguns, provavelmente, apeados por ali perto, sem vontade de cantar ou sem vontade de dançar, que chegarão caminhando a pé para as suas novenas, para chorarem de tristeza ou de alegria.

Vamos lá gente. Cheguem-se à Senhora da Peneda, da maneira que puderem. Eu não posso lá estar, nem para cantar, nem para rezar, mas estou aqui, lembrando o passado, sonhando com o futuro da Senhora da Peneda e o meu e, dizendo-Lhe a Ela que estou um pouco longe, mas sempre presente!

Não podia deixar de vos presentear com uma das belezas que nos dão as boas-vindas

Este ano, a força da festa da Romaria, calha num fim de semana e amanhã, domingo, no seu apogeu, sairão daquele pedeaço das minhas belas montanhas, carros em todas as direcções, para levarem as novidades da bela romaria àqueles que não puderam estar presentes.

Mas a Senhora da Peneda sabe porque eu não estou presente em corpo e sabe, também, porque eu estou sempre presente em espírito!

terça-feira, 23 de maio de 2006

Adrão - A Terra

Olá, Belmiro!

Está feita a correcção. Por acaso tinha reparado no erro quando testei o link, mas recebi um telefonema a pedir-me ajuda para testar uns e-mails e depois passou-me. Mas não há problema, porque continuo a gostar dela, seja tua seja do teu irmão Francisco. Diz-lhe que deve continuar a colocar "coisas" aí (como fotos, por ex:) porque as gentes de Soajo gostam de ver "coisas" sobre a terra que os viu nascer, estejam por aqui, estejam no fim do mundo. E por esta janela, olhando as fotos, olham-se os montes, os rios, as flores, os cabeços, os horizontes de outrora e até ficam com o testemunho de que o meu amigo Apolo não se esqueceu deles e que, afinal, continua a iluminar o seu torrão natal. 

Gosto muito da página «Fotopoética do Soajo - Portugal», do teu irmão Francisco, mas não esqueças que foste tu que ma deste a conhecer e penso que muita gente gostará. Por isso a coloco aqui, para que as gentes de Adrão, de Soajo, de Vilar Soente e quem mais caminhe por cá, saibam que o amor pelas suas terras existe noutras partes do Mundo. As cachoeiras, os horizontes das suas montanhas, os amarelos do tojo e das giestas, os fenos dos prados que as águas arrastam sobre as pedras musguentas dos rios e as belezas das minhas lindas carrascas rosadas são belezas que, como diria o José Homem de Melo, tal como o «S» de Soajo, não podem ser perdidas.

Eu sou do tempo em que o «S» de Soajo chegou a ser dançado na Televisão, a velha RTP e ninguém melhor que o Homem de Melo falava, saberá hoje falar dessas coisas e mais ainda de coisas esquecidas. Talvez porque, hoje em Soajo, já ninguém dança o «S»! Se calhar, nem o Vira, nem a Canaverde, nem a Chula, mas eu sou suspeito, porque não passo de um filho degenerado! Como tu dizes, o mês de Agosto é o mês de matar as saudades e, se calhar, o tempo não chega para dançar, seja o que for.

Os emigrantes da 1ª geração terão tempo para beber uns copos, para retirar as teias de aranha daquilo que terá sido a sua adega, beber uma cerveja ou fazer rodar a malga, mas os da 2ª geração e, se calhar, terceira, continuarão a pensar nas calçadas paralelipipédicas ou nos lancis de cimento das suas novas vilas e cidades à espera que o tempo passe. É assim que tudo morre!

Tens nessa página, velhos companheiros do Ventor, como os garranos e a vaquinha, uma daquelas a que um filho da França e de Portugal (com base em Adrão), olhando com olhos que sabem ver, chamou de "Rainhas da Montanha"! E não posso esquecer a abalada do meu amigo Apolo por cima dos montes do Mesio. Certamente, quando abala, deixará cair uma lágrima, com saudades das traquinices do Ventor. 

domingo, 30 de janeiro de 2011

Em Redor de Adrão

Vou voltar ao Senhor da Paz!

Como todos de Adrão sabemos, o espaço em redor do Senhor da Paz, é um espaço nosso e de todos que por lá queiram caminhar. Lá podem encontrar-se todos os santos que desde miúdo eu ouvia falar. O Senhor da Paz, nossa Senhora das Dores, nossa Senhora da Conceição, nossa Senhora da Peneda, ... enfim, esses e muitos outros.

A minha relação com o Senhor da Esfera e com os seus Santos é óptima. Já com os nossos Padres, não posso dizer o mesmo.


O Senhor da Paz, em Adrão - uma foto da Cristina Capela, que permitiu o seu uso através do Facebook. Deixo-lhe aqui um beijinho. Lamento muito por não conhecer toda a minha gente de Adrão

Sim, porque nossa Senhora das Dores, foi a primeira que observou o Ventor e o levou perante o Senhor da Esfera, quando o Ventor foi baptizado, em Soajo. Mas, só mais tarde, o Ventor se recorda da sua existência. Com cerca de cinco anos, caminhava o Ventor nas rochas da Açoreira, ao descer da Portela para a casa da Açoreira, encantado com as belezas dos gafanhotos - os nossos célebres saltões! Quando eles abriam as asas, o Senhor da Esfera, imediatamente, informava o Ventor que todos nós éramos filhos do Sol. E seremos sempre, enquanto o meu (nosso) amigo Apolo, não se cansar da sua caminhada e continuar a velar por nós.

Um dia, correndo atrás dos gafanhotos, na Açoreira, para os ver voar e observar o colorido das suas asas abertas, dei um pontapé numa pedra e arranquei uma unha. Chorava com as dores e, desencantado com esse mundo rochoso, recordei-me de como era belo o Senhor da Paz, onde julgava eu, não seria tão fácil arrancar uma unha como me tinha acontecido.

A minha irmã, para me calar, disse-me: "está na hora de pedires à nossa Senhora das Dores, de Soajo, para te ajudar e te tirar as dores. Foi o que eu fiz. No meio da minha lamúria, recorri à Senhora das Dores. Com o tempo, a dor passou e eu fiquei encantado com Ela. A partir daí, a Senhora das Dores, passou a ter mais um "fã"!

Com o tempo, já grande, desde que comecei a pensar como homem e a fazer parte das guerras deste mundo, continuei a caminhar ao lado das "vidas" dos santos da minha meninice mas, espero que eles não me levem a mal, comecei a olhar os homens que administram as suas "maisons" e dão ajuda à sua permanência entre nós - os padres - como utilizadores dessa permanência, para mim, semelhante a um comércio!

Estou-me a lembrar de um telefonema que, uma noite destas recebi de Paris, de alguém de Adrão que terá ficado muito sentida com o Padre de Soajo por não atender à querença de mais alguém de Adrão que gostaria de casar no Senhor da Paz. E não, e não, e não! Esse casal, não conseguiu ter o prazer de casar na igreja que pretendia mas, conseguiu arranjar maneira de consagrar o seu matrimónio no local da alternativa - a Senhora da Peneda. Mas também o Padre da Peneda, contrariado ou não, não sei, perante umas crianças que se perfilaram para a tomada dos sacramentos que a ele compete administrar, anteriormente, fez uma pergunta sem nexo do tipo "que querem vocês daqui"? Coisas que caem mal no seio do povo.



"La Maison" do Senhor da Paz, fotografada da estrada, à saída da Chãe do Ruivo, no dia que levei o meu Quico, para ficar em Paz, nas nossas Montanhas Lindas, em 24 de Setembro de 2009

São atitudes destas, que levam as crianças a crescer, tornarem-se gente e a repensar a sua caminhada, nos trilhos dos Padres. Gostava de saber qual a razão que leva o Padre de Soajo, por teimosia ou birrisse, a não casar a gente de Adrão, que o pretenda, na sua Igreja do Senhor da Paz! Eu sei que isto não é um acontecimento apenas do padre de Soajo, mas de muitos padres por este país fora.

Recordo-me da minha companheira de caminhadas, pretender casar-se comigo, pela Igreja e, de gostar que esse acto, se realiza-se na capelinha do Palácio de Queluz. Numa visita que tinha lá feito, gostou e passou a sonhar com essa futura caminhada da sua vida. Pediu-me se não me importava e eu disse-lhe que tudo seria feito a seu gosto. Com Igreja ou sem Igreja, com capela ou sem capela!

Foi tratar disso e alguém lhe disse que o Padre de Queluz, não casava ninguém lá e que, quando antigamente o fazia, um dos noivos teria de ser residente na Freguesia de Queluz.

Ela foi falar com o Padre e, com a sua retórica e o seu ar de anjo, tinha-o quase convencido mas ele, perguntou logo qual de nós vivia em Queluz. Ela disse logo que era eu e ficou encravada com isso. "E agora"?

Perante aquele querer forte que ela tinha, nada me restava que não fosse: «agora eu vou viver para Queluz»! Assim, "vivi" na casa dos pais de uma colega dela, em Queluz, uma casa, onde nunca entrei e só passei a saber o nome da rua e o número da porta. Escusado será dizer que já esqueci.

Há dias, comecei a ler um livro sobre Amaro da Costa, uma das minhas prendas de Natal. Verifiquei que ele passou sobre o arcabouço do padre de Palmela, que teimou em não o casar na capelinha do Castelo de Palmela, onde ele e a sua noiva pretendiam casar-se. Mas ele, com a ajuda de alguns amigos prepararam a capela e levou um padre de Lisboa, o Padre de S. Sebastião da Pedreira.

Conheci mais casos semelhantes a este de Adrão e, se calhar há outros.

Ora, tudo isto, só me leva a afastar dos padres! Sejam eles de Soajo, sejam de onde forem.

Depois, quando ouço falar dessa história da Igreja Católica não arranjar padres suficientes para ministrarem, na sua óptica, o Reino de Deus, dá-me apenas, vontade de rir!




Aquela que foi a nossa Escola do Senhor da Paz, fotografada da estrada, à saída da Chãe do Ruivo, no dia que levei o meu Quico, para ficar em Paz, nas nossas Montanhas Lindas, em 24 de Setembro de 2009

Eu não preciso que os Padres me ministrem o Reino de Deus, porque eu, desde que nasci, faço parte desse Reino! Eu caminho nos trilhos do Senhor da Esfera e Ele olha-me sempre a seu lado. Não preciso dos Padres para nada, mais ainda quando por portas e travessas, me apercebo que a água benta que baptizou alguns, lhes levou à cabeça, o vírus da teimosia.

Uma Nota para quem lê: «Tenho escrito a palavra Açoreira, sempre com dois "ss" e um "u" (Assureira). A partir de hoje, vou escrevê-la sempre com um "ç" e um "o", porque foi assim que a vi escrita uma vez num mapa, bem como a "Assureira" de Castro Laboreiro. Tinha pegado na primeira, em desacordo comigo mesmo, por recordar-me do meu pai me dizer que a Açoreira era uma terra de açores, a bela ave de rapina que ainda esvoaça por alguns sítios do nosso país. E tem toda a lógica. Não sei porque terá de ser com dois "ss" e um "u".

sábado, 27 de outubro de 2007

Ainda o Outono ...

... acompanhado de sonhos e realidades.

Uma noite destas, estive, mais uma vez, em vias de inspirar a última molécula de oxigénio.

A dona do meu Quico quis chamar o 112, e eu fiz-lhe sinal que não!

Consigo raciocinar com muita simplicidade e das duas uma:

 - ou o 112 chega e eu já estou do lado de lá;

 - ou o 112 chega e eu já estou sem vontade nenhuma de ir até ao hospital;

Por isso, deixo andar ao sabor do Senhor da Esfera. Ele lá sabe como resolver este meu problema!

Mas depois deitei-me, medricas como sempre, à espera da eventualidade de que as coisas corram bem, mas não esquecendo a hipótese de uma possível continuidade, no mal.

No entanto adormeci e sonhei.

Sonhei imenso! E sonhei com coisas do passado, revivendo-as!

Sonhei que era muito novo, um cassapinho de tempos que já não voltam e sonhei com coisas do meu amigo Outono. Andava pela minha Assureira, num dia de sol, lindo, à procura de água na mina. A poça, cá fora, estava toda lamacenta e a mina era tão escura que não deixava ver nada lá para dentro. Eu perguntava-me como era possível que com um dia tão lindo, não conseguia enxergar nada, mesmo ali na entrada.

Arrepiei-me todo a tentar observar o que se passsava dentro da mina, olhei o vidoeiro que está à entrada com as suas folhas amarelas e o carvalho, em frente, junto ao muro, com as folhas outonais todas castanhas-avermelhadas. Olhei a casa da Assureira (o palheiro) de porta aberta. Ao meu redor tudo brilhava, apenas a entrada para a mina e a porta da casa estavam escuras como o breu.

Mas eu precisava de água! Voltei a olhar a mina e, do meio da sua escuridão, veio uma voz estrondosa. Era a voz do Senhor da Esfera!

«Vai-te embora Ventor! Vai Ventor! Não poderás mais entrar nesta mina»!

"Mas eu preciso de água"!

«Não beberás mais água desta mina, Ventor»!


A folha dos carvalhos no Outono

Tirei a cabeça da entrada da mina, voltei a olhar em volta e tudo era lindo. As folhas das videiras de outros tempos, estavam amarelas. Nas lavouras de feno, observei os cagordos (cogumelos) grandes, "larápios", era asim que lhes chamávamos, quando eram enormes!

Voltei a olhar as videiras e voltei a vista para a porta escura da casa. Lembrei-me do lagar, da pia que junto ao lagar recebia a parte do vinho que escorria pelo buraco, mal fechado. Comecei a imaginar como matar a sede. Seria com o vinho novo!

Assim foi! Corri pela lage da Assureira, sem água e, tal como antigamente, ao entrar na porta que, vista da mina, era negra, cheia de escuridão, lá estava tudo claro, com lenha para o burralho, o feno, ao fundo, encostado à parede e, a seu lado, um montão de espigas de milho à espera de serem transportadas para o caniço, e junto ao lagar, os garrafões vazios, esperando a vez para serem enchidos com a bela água pé, feita com as uvas brancas do Colado.

Sobre o lagar, na sua horizontal, o grande madeiro de nogueira por onde, junto a uma ponta, entrava, na vertical, a rosca também de nogueira na base da qual ficava uma espécie de caixote com uns paus onde se fazia força para a rosca fazer descer aquele madeirame sobre as tábuas que espremiam o mosto até ao máximo possível. 

Mas tudo isto, tão banal como a própria vida, para vos dizer que, após a tormenta anterior em que o ar não queria entrar nos meus pulmões, a alegria de reviver momentos de uma vida que nunca consigo esquecer, não só inspirando o ar precioso, mas também o cheiro característico do mosto que num lagar fervilha enquanto eu, sedento, me delicio com o cheiro e com o copo que me preparava para encher daquele elixir fantástico. Infelizmente é aqui que tudo acaba!

Não cheguei a encher o copo mas, ao acordar, ainda continuava impregnado daquele cheiro do vinho novo pelas minhas narinas e, para mal dos meus pecados, bem tentei transformar tudo aquilo num momento realista, mas não deu. Mas deu para voltar a adormecer e repegar no sonho encontrando-me no cimo da Portelinha a ver todo aquele vale até ao fundo de Soajo, e os carvalhos da Assureira como a mais bela amostra de Outono que jamais vi. Mas as coisas nem sempre são bonitas. Do meio dos carvalhos vinham as vozes de todos os meus antepassados que me queriam comunicar algo mas que não consegui identificar. Desta vez deu para acordar todo encharcado em suor e passar o resto da noite a pensar em tudo aquilo que vi o ano passado em 28 de Agosto, mas que, em sonhos, coloquei no Outono.

Foi uma noite cheia de tudo! A senhora da gadanha que espreitou, as minhas imagens do passado, as belezas impregnadas de alegrias e tristezas, a presença do Senhor da Esfera a me dizer que não e do meio dos carvalhos as vozes de todos aqueles que, tenho a certeza, me querem bem.

sábado, 11 de abril de 2026

A Caminhada do Ventor por Adrão

 Foi há 75 anos!

Foi por lá, na bela serra de Soajo, pelas suas fraldas, que eu aprendi a caminhar e a observar as belezas que a sua bela Natureza nos oferece. Foram 15 anos dos quais não me esqueço.

Hoje, ao caminhar pela serra de Soajo, vivo, em sonhos, mais de meio século depois, os primeiros 15 anos da minha vida.

Como já tenho dito, por aqui, recordo, sonhando, aquelas pequeninas passadas que ia dando agarrado às saias da minha mãe para não beijar as pedras que, "estoicamente" me ameaçavam, numa espera permanente, aguardando mais um tropeção.


As rochas graníticas metamorfizadas no Alto da Pedrada, resultado de milhões de anos da accão dos gelos, das alterações térmicas e não só, foto de 12.10.2010

Ainda hoje vivo, em sonhos, as passadas que dava agarrado à mão de meu pai, especialmente, ao atravessar as águas que lenta ou rapidamente desciam as encostas, seguindo sempre as descidas da gravidade apontando rumo ao rio Lima, lá em baixo.

Vivo, em sonhos, o caminhar atrás das vacas, alargando sempre a passada, tão larga, quanto possível, até um dia atingir o Alto da Pedrada.

A Pedrada!

Sim! Aquele amontoado de pedras que a filha de um rei qualquer das Astúrias teria juntado para construir o tal palácio.

A lenda é bonita. Muito bonita!

Mas ... temos agora o assentamento romano ... !


As mesmas rochas vistas, cá de baixo, quando subia do Fojo do Lobo do lado de Travanca, foto de 12.08.2010

A lenda é bonita porque nos fala de valores humanos e de beleza.

Essa filha desse tal rei, uma bela princesa, sentia-se infeliz na sua terra de nascimento. Andava sempre triste e seu pai, o rei, estava preocupado com ela e achou que a filha precisava de conhecer mundo. Os dois acordaram no seguinte: a princesa iria caminhar na direção que quisesse procurando uma terra onde se sentisse feliz ou encontrar um local que lhe agradasse para aí construir um palácio.

Assim foi. Depois de percorrer várias terras, atravessar rios, vales e serras, foi dar com uma montanha linda. Olhou em volta e, tudo o que via lhe agradava. Só via serranias e vales profundos e, depois de tanto observar o que a rodeava, apressou-se a informar o seu séquito que era ali que construiria o seu palácio. Por isso, enquanto iria às Astúrias informar o seu pai podiam começar a transportar as pedras para a construção.

Regressou e chegando junto do seu pai, informou-o de que a sua vida iria mudar radicalmente. Tinha encontrado o seu local desejado para a construção do seu futuro palácio e já deixara lá parte dos seus acompanhantes para darem início aos trabalhos. Já começavam a juntar as pedras para a construção.

Pegou nas mãos do pai esfregando-as e disse-lhe: «pai, não haverá local mais bonito no mundo. Todo o horizonte em redor daquele sítio é fabuloso. Montanhas e mais montanhas a perder de vista e por cima dos cabeços das montanhas somos acariciados por uma brisa marítima carregada de iodo. Por lá, pelos seus vales e encostas há muitos lobos, javalis, veados, ursos, ... e muita floresta de carvalhos e demais árvores como as nossas aqui. Vou construir naquele local um palácio lindo e ....»».


Subindo do Fojo do Lobo de Travanca, rumo à Pedrada, foto de 12.08.2010

O rei não passava de um homem e, foi contagiado pelo entusiasmo da filha, pensando que exagerou ao dar-lhe a possibilidade de se tornar uma princesa feliz.

Sisudo, tentando observar o vácuo diz: "não minha filha, se esse sítio é como tu dizes, só pode ser digno de um rei".

Ele matou o sonho da sua filha, a sua princesa. Assim, ainda hoje lá estão aqueles pedregulhos de granito à espera de uma outra princesa que dê andamento à obra.

Quando hoje caminho pela Pedrada e observo aquela gigante cascalheira de pedras recordo a bonita lenda e recordo também como ela foi bonita para mim. Quem melhor a contava era o ti Manuel Ramos ao me explicar como tinha ficado sem a sua mão ao manipular um petardo dos foguetes lançados na romaria da Peneda e que lhe rebentou na mão.

«Luiz, nunca mexas nessas coisas. Não te esqueças que ainda podes vir a casar com uma princesa que vá acabar de construir o vosso palácio na Pedrada».


Foi uma grande subida, no calor de 12.08.2010, com a zona do Mezio, para trás, cheia de fumo, de um incêndio rumo ao monte Gião

Mas hoje, caminhando sobre os granitos da Pedrada, eu tento esquecer a lenda. Esqueço a princesa da Pedrada e o seu pai, um rei sem palavra.

Recorro à Geologia, à Morfologia das Rochas e vejo que o rei é o Tempo e que a princesa é a filha do tempo. Caminhando sobre a serra de Soajo, caminho sobre o tempo geológico e sou informado pelos especialistas que as suas rochas graníticas, tal como as dos planaltos de Castro Laboreiro são muito antigas pois têm mais de 300 milhões de anos.

Dizem-me também que todos os vales em U já foram glaciares. Estou a lembrar-me da Seida. A Seida é um vale quase em U e os gelos desciam da velha Pedrada rumo à montanha de Santo António de Vale de Poldros, desviando-se à esquerda rumando pelo vale do rio Vez. Também os especialistas me dizem que os granitos da Pedrada são resultado das intrusões das águas e dos gelos sobre os granitos e das grandes alterações das temperaturas térmicas, na caminhada dos milénios, delapidando-os.


Esta foto, tirada de Arcos de Valdevez para a Pedrada, em 29.08.2016, péssima, devido às circunstâncias, foi por ela, ainda na máquina que eu soube que a Pedrada tinha ardido. Mas eu não acreditava, porque a foto era pequenina e eu fiquei com dúvidas. Pensei contudo fazer uma caminhada à Pedrada e só quando caminhava do Alto da Derrilheira para a Corga da Vagem, já com a Pedrada em frente do nariz, verifiquei, sem dúvida que tinha ardido mesmo. O muro, em cima, à esquerda, é o muro do Fojo do lobo pendurado sobre o Mezio

A Pedrada terá sido, então, através de milhões de anos e das várias eras geológicas um centro de gelos que desceram em seu redor em todas as direcões. Ela faz parte da cordilheira Central Ibérica o Massiço Hispérico que se estende rumo à serra da Estrela e por diante, nomeada Cordilheira Hercínica ou Varisca. É uma cadeia rochosa onde as forças compressivas se iniciaram no Devónico, por volta dos 380 milhões de anos e se prolongou até ao Pérmico por cerca de 100 milhões de anos. As rochas graníticas da Peneda, entre a Pedrada e o planalto de Castro Laboreiro, como a Meadinha, a fraga da Nédia e parte leste da serra do Gerês são milhões de anos mais novas que os granitos da serra de Soajo.

A cadeia Hercínica ou Varisca é constituída por rochas muito deformadas com predominância de rochas graníticas e muito metamorfizadas. São estas, grosso modo, os "madeirames" do berço da nossa serra de Soajo. Voltarei!