Rojões na serra de Spajo

Rojões na serra de Soajo

Vejam estes golosos a comer rojões assados na serra mais linda do mundo - a serra de Soajo Assar rojões na serra de Soajo, nos braseiros dos...

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mês de S. Bento

Sim, mês de Julho, mês de S. Bento!

Para mim, mês de grandes caminhadas. Algumas, por Santuários de S. Bento. S. Bento do Cando, S. Bento da Porta Aberta, ... Estes dois santuários, situados nas belas zonas maravilhosas do Minho. S. Bento do Cando, nas minhas Montanhas Lindas, S. Bento da Porta Aberta, nos contrafortes da serra Amarela. Os dois, são belezas do meu mundo




Em 2006, na nossa descida da Pedrada e de passagem pela Fonte da Naia. O trio dessa grande caminhada, eu, o Luis Perricho e o Jack. Nesse ano, a Fonte da Naia estava linda e eu adoro mexer e beber daquela água

Hoje, neste mês de S. Bento, não consigo fazer uma caminhada. Estou aqui, sentado no meu carro, à espera que o meu "malmequer", faça, na passada que lhe convier, uma caminhada pela IKEA.

Eu fiquei aqui, no carro, à sombra, esperando que o emplastro que ela me colocou no fundo das costas, faça o seu trabalho de sapa e ela, provavelmente, espera que eu, em passadas suaves, me encontre pelos sítios das minhas amigas perdizes. Mas não! Estou aqui em baixo e, sem vontade de sair do carro.

À minha frente, tenho a relva verdinha, um pinheiro manso, bonitão, alegrando-me como pode e, por isso, me disse: "imagina, Ventor, que estás no Cerdeiral"!

A pedido do pinheiro, imagino que sim! Mas tenho outras imaginações e lembranças. Lembro-me, quando pequenote, caminhava, ao lado de minha mãe, no caminho da Açoreira, quando íamos regar o milho e ela me ensinava a conhecer os meses. Para aprender, eu caminhava ao lado dela. Não fosse isso e, iria bem lá à frente, a espantar as lagartixas ou, então, bem cá atrás, à procura da cobra ou do lagarto que, fugindo de mim, me faziam acreditar que me queriam amedrontar. Foi no caminho da Açoreira que eu iniciei o treino, para não ter medo de nada.



As flores das carrascas, são belezas das minhas Montanhas Lindas. Todas elas saúdam o Ventor

Mas recordo aqui, como eu aprendi a conhecer os meses, do primeiro ao último:

Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, S. João, S. Bento, Agosto, Setembro, S. Miguel, S. Martinho e Natal.

Nesse tempo, também a minha mãe me ensinava a contar, brincando e, o meu pai lhe dizia para não me baralhar a cabeça. "Não baralhes a cabeça ao moço. Qualquer dia, nunca mais aprende a contar"!

Não há como embaralhar esta cabeça tonta e eu ensino-lhe o que sei:

Una, duna, tina, catuna, catunal, advogal, jerupia, jerupez, conta bem, que são dez!

Nunca mais me esqueci desta contagem.

Foi, pelos anos fora, o mês de S. Bento, o mês que mais vezes me levou a Adrão e, com isso, o mês que mais vezes me levou à Pedrada. Umas vezes de manhã, outras vezes de tarde e, outras, o dia todo. Como o meu tempo foi sempre pouco, chegava a ir à Pedrada e voltar em quatro horas. Isso, já acabou! Agora, revejo cada pedra, cada moita e aponto a máquina em todas as direcções. Sempre diferente, sempre igual! Há muitos anos que não faço o velho trilho da Férrea, Chãe do Boi, Fonte da Naia. Tenho deixado esse trabalho para a minha máquina. Ela tem passado lá por mim. Mas espero, um dia, repetir esses trilhos.



O meu belo companheiro anterior. Cometi um erro tê-lo trocado. Um dia destes vi-o passar levado por outras mãos. Uma beleza de carro que deu cabo da direcção numa Avenida de Lisboa, esburacada. Não quis gastar uns 700 euros na sua reparação por falta de confiança na mesma. Preferi a sua irmã novinha mas, ao vê-lo passar, tive saudades dele

Hoje, sentado no meu carro, sem poder ir à procura das minhas amigas perdizes nem caminhar pelas lojas da IKEA, sinto o emplastro queimar-me a pele, enquanto o meu cérebro faz as caminhadas que eu desejava, cavalgando pelos trilhos de Adrão.

Apetecia-me meter-me no carro, cedinho, galgar quatro horas de estradas e ir tomar o pequeno almoço a Ponte da Barca ou Arcos de Valdevez. Subir a S. Bento, nos Arcos, meter a minha madrinha no carro, levá-la a S. Bento do Cando, à Senhora da Peneda, almoçarmos em qualquer lado, podia ser no Miradouro, em Castro Laboreiro, regressar pela Cascalheira e beber água nas Fontes. Deixando a sede a boiar nos fetos das Fontes, junto ao meu Quico, regressar por Paradela, Cunhas e, em Soajo, observar a "casa" onde a minha madrinha me apresentou ao Senhor da Esfera, governada por nossa Senhora das Dores.

Regressar aos Arcos, comer um jantarzito apressado, para não me dar sono pelo caminho e, lá pela uma da manhã, deitar-me na minha cama bem cansado e continuar sonhando com os trilhos que meus olhos haviam pisado. Seria uma bela caminhada com cerca de 1.000 kms de prazer. Mas não posso! Algum desse tempo, seria perdido a entrar e a sair do carro, com uma ou outra ganideira, no caso de conseguir manter-me lá sentado, O Senhor da Esfera não quer, por isso eu não faço porque não há emplastro que me valha.



Belezas dos meus montes - as Fontes. Nem o tanque nem o poço, em baixo, são dos primórdios do meu tempo. Nasceram depois. O tanque dá muito jeito para os animais beberem à vontade e o poço, espero que nunca faça falta para apagar incêndios mas estará lá para isso e, se calhar, para os javalis olharem

Continuei a olhar o pinheiro, rodeado de verduras, fazendo voltar a minha mente, ao Cerdeiral!





Este pinheiro, no meio do verde, é um pinheiro lindo e, hoje, quem liga a um pinheiro? Ligo eu, porque se trata do belo pinheiro que há mais de 50 anos nos fornecia pinhões, aos alunos da escolinha do Senhor da Paz, em Adrão

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Gostava de Falar de Adrão ...

... das suas alegrias e não das suas tristezas.

Eu tento sempre esquecer as suas tristezas mas, nem sempre consigo!

Hoje, o que eu gostaria mesmo, era de estar a fazer as malas e partir a caminho das minhas Montanhas Lindas. Caminhar no meu Berço de Rocha, com o nariz levantado, sempre, passo a passo, rumo ao Alto da Derrilheira. Caminhar entre os fetos da Naia, direito à sua fonte, conversar com os sapos, beber água se estivesse tragável e, olhando em volta, iniciar o rumo ao Muranho, beber água na sua fonte e prosseguir, no mesmo passo a passo, sobre o tapete de carquejas e carrascas, observando as galantas curiosas ...

Inclinar-me à esquerda e, desse alto, pontiagudo e mágico, observar, lá em baixo, os montes das minhas primeiras passadas: os caminhos para a Açoreira, pelo Grilo, a Portelinha, o Barroco, o Poulo da Fraga, a Centieira, a Chãe do Ruivo, as Fontes, o Gondomil, o Marco d'Alem, a Veiga e, para minha tristeza, os telhados de Adrão, sem fumo, sem lareiras, mas com gás ou electricidade, sinónimo do progresso que não foi do meu tempo. Provavelmente, alguém seria capaz de ligar a lareira a lenha, para assar uma fatia de pão e, se mais não fosse, para animar o Ventor.




Uma das belas flores, companheiras das minhas caminhadas, na minha serra - a serra de Soajo

Eu sei que, se o Senhor da Esfera me deixar, voltarei a passar por isso! Voltarei a caminhar ao lado dos chascos, os chascos dos meus montes e não dos chascos de outros montes. Caminharemos lado a lado, conversando, de moita em moita e, depois de ver todos os caminhos dos meus sonhos, de completar, calcorreando, esse tapete esverdeado de carqueja, rumo à Pedrada e de fazer o inverso, ficarei sentado, aqui, em frente desta minha janela, a observar tudo e a pensar se, um dia, voltarei a caminhar nesses trilhos de sonhos.

Infelizmente, não farei as minhas malas, não caminharei nas tapeçarias de carqueja, não ouvirei os chascos e, nem sei, embora tenha esperança de que, mais uma vez, ou mais umas vezes, repetirei essas caminhadas e falarei das suas alegrias.

Mas sei que, hoje, lamentavelmente, falarei das tristezas de Adrão! Das alegrias do passado, transformadas, com o tempo, em tristezas.

Recordo-me de, quando nos anos oitenta (80'), eu fazia algumas das minhas caminhadas por Adrão, encontrar, junto da minha gente, a nossa amiga Teresa da Clara e, por razões várias, os seus filhotes, o Zé e o Afonso. Recordo mais o Afonso, o mais novo e acho que eles faziam parte da geração que me seguiu. Vi-os, tal como eu, noutros tempos, a trabalhar o cimento e recordava-me que, em Adrão, fui o primeiro puto a trabalhar o cimento com os homens que construíram a primeira casa de tijolo e cimento, ainda nos anos cinquenta - a Casa do meu amigo Rio Frio. Quando me recordo dos putos da Teresa da Clara, senhores da mesma azáfama, anos depois, acredito que estou mesmo velho! E, reparando nisso, faço balanço para quantas vezes mais poderei subir à Pedrada.



O mais belo Alto da mais bela serra - a serra de Soajo

Hoje penso nos filhos da Teresa da Clara e como o Senhor da Esfera lhe roubou o primeiro. Eu a pensar que ele andaria a tratar da vida por esse mundo e, ele a morrer, em Adrão, no Berço de Pedra que o viu nascer. Como a vida é madrasta para tanta gente! Eu sei que, provavelmente, o Senhor da Esfera me  dirá: "não fui eu, Ventor, foram as Parkas e, contra elas, eu nada posso"! Pois não! Eu estou aqui a escrever porque as Parcas ainda não me toparam ou, porque, quando elas tentavam cortar o fio, a força não lhes era suficiente.

Mas eu não gosto de falar disso. Só vou pedir ao Senhor da Esfera para ajudar a Teresa da Clara e o seu outro filhote, o Afonso, a levarem a sua vida normal, tão normal quanto possível. E, embora saiba que a Teresa da Clara não vai ler este meu post, pelo menos, em telepatia, lhe deixo aqui os meus pêsames para ela e para toda a família, pelo roubo que as forças que moldam o nosso destino lhe fizeram.

Que Deus te ajude Teresa.

terça-feira, 1 de março de 2011

Uma Peripécia, em Adrão

Uma lembrança da minha companheira de velhas e novas caminhadas. Não estava no rol dos esquecidos, mas proporcionou-se hoje, que fosse aqui recordado esse pequeno trilho de uma das nossas caminhadas por Adrão.

Há muitos anos, no tempo en que Adrão ainda vivia às escuras, ainda na década de 70, rumamos a Adrão eu e parte da minha nova família.

Malas feitas e, ... ala que se faz tarde!

Preparados para iniciarmos essa nova caminhada, de repente, ouço dizer: "não te esqueças da televisão"!

«Para que raio querem a televisão? Em Adrão, toda a gente dorme às escuras! Deitam-se com as galinhas e levantam-se com os galos. Quando o francês canta, tudo fora do quentinho»!

Não há electricidade, ... e, a única lamparina a sério é o meu amigo Apolo a espalhar raios luminosos e, às vezes, pede ajuda à minha amiga Diana. Os restantes pontos luminosos, são iguais aos que haviam na Falagueira, noutros tempos, candeias de azeite, de petróleo, petromax, pilhas de tdos os tipos ...

Pelo sim, pelo não, o meu cunhado meteu a sua pequena televisão adequada para estas caminhadas, pelo Alentejo e arredores e agora, seria uma inovação e uma festa em Adrão. O objectivo, era que, em Adrão, houvesse televisão e houve! Foi com essa ideia que nos fizemos a um dos caminhos de Santiago, com passagem e paragem obrigatória, em Adrão, o centro do mundo do Ventor.



Não tenho uma foto da casa do ti Gonçalo, mas deixo aqui a casa que era do meu avô. Lá por trás, fica a casa que era do ti Gonçalo, hoje desconheço a quem pertence. Será, certamente, dos seus herdeiros 

A minha mãe lá arrumou a gente como pôde e, ao meu cunhado, a mulher e o filhote, o Nico, coube-lhe, em sortes, a casa do ti Gonçalo, em Outeiros. Não sei como fomos lá parar mas foram arranjos de familiares e amigos para arrumarem o melhor possível a nova família do Ventor. Éramos 9 romeiros globetrotters.

Logo na primeira noite, depois de tudo arrumado, com os corpos a pedir cama, triturados pela canseira de rodar na Estrada Nacional 1, toca de ver se a coisa funciona. E não é que funcionou mesmo! A bateria do carro serviu para alimentar a televisão e nos pôr em contacto com o mundo. Algumas pessoas de Adrão, viram, pela primeira vez, uma televisão a funcionar, ligada à bateria do carro, na casa de Outeiros do ti Gonçalo. E o ti Gonçalo, que o Senhor da Esfera já, então, tinha à sua guarda, se calhar, esteve no meio de nós a observar as mudanças do seu velho mundo.

Hoje, acho que essa casa poderia austentar uma placa com esse feito. «A primeira casa, em Adrão, onde se viu televisão». Há milhentas placas por esse mundo fora, sem significado tão elevado!

Deixo aqui um grande beijinho para a mulher mais "jovem" de Adrão, a tia Rosinha Félix, que sobre o seu pedestal de 103 (?) anos, deverá saber isso, pois creio que se deveu a ela a colaboração com a minha mãe, de levarem, sem o saberem, aquela televisão a mostrar imagens do mundo na casa do ti Gonçalo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Poulo de Eixão, em Adrão

O Poulo de Eixão é aquele poulo que fica entre a "Mansão" do Senhor da Paz e seus arredores, e a aquele edifício em frente que foi a escola do Ventor e dos seus amigos de infância.



De dentro da sua mansão, o Senhor da Paz, escutava-nos, ouvia-nos e, de vista posta no chão, pedia ao Senhor da Esfera para perdoar as asneiras das crianças. Será que ainda nos perdoam os malefícios voluntários ou involuntários que cometemos como homens? (foto da Alice)

Era esse o espaço das nossas brincadeiras, um espaço aberto, onde corríamos sem rédeas, tal como os potros fazem hoje e protegidos pelas suas mães.

Ali, nas nossas correrias, com ou sem bola, só era proibido dizer asneiras. A liberdade, durante o recreio, era total. Creio que, pelo menos, no que me diz respeito, as paisagens nunca eram demais! Estávamos cercados por muralhas quase indestrutíveis. Digo quase, porque, nada é perene. As transformações são constantes e, à escala geológica, tudo se transforma. Quando tiro fotos dos lados do Gondomil para o Alto da Derrilheira, depois do fogo de Agosto de 2006, noto que a Derrilheira está a assapar, notam-se fracturas no monte. E se vermos uma foto a apanhar a Naia, o Muranho, a Derrilheira e a Serrinha, verificamos que o Poulo do Muranho, onde assentam os Cortelhos de nossos antepassados, é uma escorregadela da "cela" existente entre a Derrilheira e a Serrinha.

Mas isto é para os geólogos, só que os geólogos não irão lá!

Para mim, esquecendo essas nuances geológicas, além do Senhor da Paz, da Escola, do poulo que nos servia de recreio, das montanhas que nos cercavam, tenho lá outro Monumento (com letra grande). É o Carvalho de Eixão!

Este carvalho foi sempre um fenómeno para mim e tenho a certeza que os lobos que avançavam pelo Alto do Lombo abaixo ou vinham desde os montes de Bordença, aproveitavam para levantar a perna, olhá-lo de noite, contra o firmamento e perguntar-lhe: "olá, velhote! Conheceste o meu avô"? E o carvalho só diria: "se me pudesse mexer, levavas com uma ramada em cima. Desanda daqui, seu porco"!

Esta seria a primazia das palavras entre os carvalhos e os lobos e o carvalho de Eixão, estaria sujeito ao mesmo.



Também, neste sítio, em tempo de neve, com as orelhas, o nariz e os dedos da mão a cair, tínhamos a ajuda do Senhor da Paz para todas as nossas brincadeiras. No centro da foto, à direita, o Carvalho de Eixão, despido. (foto do meu amigo Belmiro Xavier, de Braga, um "amante" das nossas Montanhas Lindas, que me presenteou com fotos de Adrão cheio de neve)

Mas, pelas poucas vezes que caminhava pela Branda de Bordença (prefiro branda, a veranda ou varanda), via as pessoas que acabavam de meter as rezes, caminharem em direcção ao Eido e fazer uma espera pelas pessoas amigas que ficavam para trás, para irem para o eido juntos. Faziam uns grupinhos que, chegando ali pelo cemitério, desafiavam, nas suas cantorias, a malta que, igualmente se dirigiam da Assureira para o Eido. Eu recordo-me que agradecia ao Senhor da Paz, quando passava à frente da Sua Porta, por ter feito, junto do Senhor a Esfera, com que tudo tivesse corrido bem.

Lembro-me de alguém de Adrão (já junto do Senhor da Esfera) que, vindo a cavalo de Soajo, de um dos famosos "primeiros", já de noite e com um grãozinho na "asa", me dizer que lhe aparecera o diabo junto ao Carvalho de Eixão e que se viu aflito para segurar a égua e que, depois, junto ao cemitério, a égua se chateou outra vez e acabou por o deixar só, tendo de ir desde o cemitério a pé para casa, porque alguém lhe espantara a égua!

Muitas histórinhas teria o Carvalho de Eixão para nos contar se nós estivéssemos no tempo em que as árvores falavam!

Mas sei que quando vi essa foto do Senhor da Paz, no seu andor, a passear pelo nosso poulo ou terreiro, ele também me olhou e disse: "olá, Ventor"!

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Lixeira do meu Cérebro

Eu penso que o nosso cérebro funciona como um computador e, tal como um computador, tem um caixote de lixo onde se faz a reciclagem de tudo que deitamos fora.

Às vezes vamos buscar coisas perdidas, desinteressantes a determinada altura mas, depois, de repente, vamos vasculhar o porquê dessas coisas lá estarem e, acabamos por caçar uma ou outra.

Só que eu, esvazio sempre, ao fim de algum tempo, o que tenho no caixote do computador e fica limpo para voltar a receber outros lixos, enquanto no meu cérebro, por defeito ou qualidade, os lixos se vão acumulando.

Então vejam lá se isto, este sonho, não resulta duma lixeira com reciclagem encravada!

Duas noites atrás, sonhei que estava em Adrão, por baixo da ponte, à espera de um sinal para parar o rebentamento de uma bomba atómica demasiado grande para destruir o mundo.

O sinal iria ser transportado pelas águas do nosso riozinho e só eu poderia evitar a catástrofe. Sem sabermos ler nem escrever sobre o que se iria passar, um outro indivíduo que eu nunca fui capaz de identificar, estava comigo a observarmos o rio e, de repente, desce misturada com as águas do rio uma mistela química gelatinosa que teria de ser detida com outros produtos químicos e tínhamos poucos segundos para desencadear essa reacção. Esse indivíduo tinha essa missão, a minha era a velocidade!

Eu teria de fazer uma corrida de tal ordem que, sem mais nem menos um segundo, teria de ligar uma alavanca geral de uma determinada estrutura eléctrica que iria evitar o rebentamento dessa super-bomba! Ao mesmo tempo, esse tal indivíduo teria de, através de um contra-ataque químico evitar que essa matéria gelatinosa, transportada pelo rio de Adrão, passasse para jusante da ponte. Eu só poderia iniciar a corrida quando essa matéria chegasse ao centro do poço e tocasse aquela pedra a que eu já chamei, por aqui, o umbigo do poço da ponte.


Era aqui que se desencadeava a grande batalha química. Nunca identifiquei o meu parceiro desse combate. Eu teria de ir pelo Carril para puxar a tal alavanca, um pouco mais acima, na zona de Trás-das-Chouras. Terá a ver com regras que ninguém compreende, nem em sonhos!

Mal a mistela tocou o "umbigo" do poço, eu iniciei uma corrida à chita ou cheetah, e só podia parar depois de ligar uma alavanca que se encontrava num edifício subterrâneo que se situava mo Rio da Leira, por baixo das lavouras e que ultrapassava o rio por baixo para além da fonte de "Trás das Chouras" até por baixo da Barreira.

Até aqui, tudo bem!

Eu não podia correr pelo espaço mais curto, que seria subir directamente pelo velho caminho, rio acima, até entrar no tal edifício. Teria de sair debaixo da ponte, seguir pelo caminho do Carril, subir à casa que era do Ti Broas, meu velho amigo da Açoreira quando eu era pequenote, passar em frente da porta, torcer à esquerda e pegar o caminho que vai ao Lume da Leira e, quando chegasse à corte onde o ti Brasileiro guardava o carro, entrar o portal de acesso às lavouras, saltar os socalcos até uma lavoura que era da tia Martins onde existia um alçapão de cimento que teria de abrir, descer umas escadas de metal, dirigir-me à tal alavanca e puxá-la no segundo exacto.

Cumpri tudo! Não falhou nada!

Mas pelo caminho tive de quase atropelar duas pessoas que vi algumas duas vezes depois dos meus tempos de criança. Ao subir para a casa que era do ti Broas, a alta velocidade, desviei numa atitude esforçada a minha amiga Perfeita e a tia Maria Caneira que quase me insultaram porque eu só tive tempo de levantar a mão esquerda e apontar-lhes a casa onde deviam de se meter por causa das reações químicas que iriam fazer-lhes mal se não se resguardassem.

Quando eu desci as escadas do alçapão, tudo em grande velocidade, fui interpolado por um jornalista da SIC que tive de derrubar, na minha corrida em direcção à alavanca geral de todo o sistema, que liguei. Depois dessa corrida vitoriosa, a única pessoa que ali conhecia era um Sargento da Força Aérea que não vejo desde Dezembro de 1967 que trabalhou comigo na DSCTA, na Av. António Augusto de Aguiar, em Lisboa. Portanto, nunca mais o vi em 42 anos!

Esse Sargento disse-me: "você está estoirado! Deite-se, por aí, num desses sofás e descanse um pouco - acabou de salvar o mundo"!

Respondi que não, que tinha de regressar pelo mesmo caminho porque haviam duas pessoas a quem tive de afastar e queria pedir-lhes desculpa por não poder parar. Teria de ir ver se se meteram em casa a tempo de fugir aos malefícios químicos que iriam subir desde o rio da Ponte.

Voltei a encontrar o tal jornalista da SIC que também não conhecia mas ele olhou-me nos olhos e afastou-se abrindo passagem. Mas as dores dos meus joelhos eram tão grandes que eu acordei!

Eu não corria, quase voava!

Depois de acordar, tive de esfregar os joelhos e logo os dois! Quando me levantei fui medir a tensão que não estava mal de todo mas o meu tic-tac estava a 96 aí duas horas depois do sonho ter acabado e de eu ter esfregado os joelhos até passarem!

Cumpri tudo no meu sonho, menos o ter ido pedir desculpa a essas minhas amigas que quase atropelei, mas não podia desistir!

Daqui mando um beijinho para as duas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Mais um Sonho

Voltei a sonhar com o meu cavalo Antar!

Porque será que esse cavalo imaginário não me larga?

Será que haverá mesmo explicação, mesmo que "assim-assim" para os sonhos?

Lá que eu sonhe com Adrão, aceito perfeitamente, mas andar a passear por Adrão montado no meu célebre cavalo Antar, já me parece mais complicado! E mais complicado, ainda, porque ele continua sempre branquinho e tem participado em vários dos meus sonhos.

Sonhar com Adrão e com a gente de Adrão, acontece-me várias vezes mas, desta vez foi diferente.

Foi assim este sonho:

«Cheguei a Adrão já de noite, uma noite de luar, baço, com uma luz acinzentada. Ao chegar ao cimo da Quelha da Costa, reparei que não havia electricidade e fui descendo. Era um silêncio total! Não ouvia nada; nem o miar de um gato ou latido de um cão. Não fiquei admirado porque era de noite e seria natural que tudo estivesse a dormir.

Quando cheguei ao Cabo do Eido, pedi ao Antar para não fazer barulho com os cascos e caminhamos silenciosos, pelos meus caminhos. Passei no Eirado e vi a capela, passei na ponte, olhei o rio e fomos assim até ao Carril, num silêncio total. Tentei procurar a Lua, a minha amiga Diana, mas eu nunca a vi. Aquela luz difusa, num tom cinzento de chumbo, estava-me a complicar tudo.

No Carril, fiquei quieto, sobre o cavalo, a pensar porque nem sinal de nenhum cão, nem gato, nem nada. Voltei-me para trás e disse: "vamos Antar e vamos fazer barulho como se não haja ninguém para acordar.

O Antar respondeu-me: "e não há! Não captei nenhum sinal de vida"!

Voltei a passar pela Ponte, fiz todo o caminho inverso, numa caminhada normal com os cascos do cavalo a fazer barulho nas pedras, até pareciam que estavam a trautear uma canção!

Comecei a ouvir portas a rangerem, abrindo-se. O Antar, dizia-me que quase não acreditava naqueles sons, pois os seus sistemas de observação não tinham detectado nada. O meu coração batia descompassado, muito triste por só ouvir sons de portas a ranger e não ver nada.

"Calma, Ventor"! - disse-me o Antar.

A minha resposta para o Antar foi: "eu sei que estou em Adrão, não tenho dúvidas, e sei que as portas de Adrão nunca rangeram assim"!

O Antar relinchou, empinou-se, parecia que estava a desafiar o desconhecido e, de todas as portas começou a sair gente. Comecei a transformar a minha tristeza em alegria ao ver tantas caras de pessoas a aparecerem às portas, mas eu só via vultos que não identificava. Identifiquei algumas pessoas, poucas, porque normalmente só via vultos mas, no meio dos vultos algumas caras sorriam para mim sobre o cavalo. Mas, à minha porta, o meu pai caminhava para mim, com um tamanco na mão que estava a arranjar e, atrás dele, a minha mãe e algumas pessoas que me chamavam, contentes, mas cujas feições nunca identifiquei tão bem como as do meu pai a sorrir.

Acordei de repente, transpirado, a tentar recordar as caras de alguns velhotes do meu tempo que me tinham observado no sonho e tinham sorrido para mim mas, eu estava só e só fiquei, acordado a pensar nos porquês dos meus sonhos ... e, como de repente, de sobre um cavalo eu vejo tantos vultos da minha gente, dos quais só identifiquei meia dúzia! E, de repente, fiquei sem cavalo e sem gente ...

Porque não sonhei com as pessoas de agora que ainda observam os caminhantes e abrem as suas portas, normalmente? Porque não vi ninguém vivo da gente Adrão? Nem uma pessoa!



Para todos que me apareceram, no meu sonho, deixo-vos aqui as nossas flores rosadas

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Soajo, o Desastre dos Incêndios

Os incêndios, são uma tormenta para as pessoas e seus bens;


Os incêndios, são uma tormenta para os animais domésticos, para os animais selvagens, para a flora, para ...

(Deixo-vos algumas fotos, dos fogos de Soajo, aqui, no Shutterfly)

Todos sabemos, estamos fartos de o ouvir dizer, que a maioria dos incêndios, pelo menos, muitos incêndios, são fogos postos ou então, as autoridades suspeitam disso. Também sabemos, porque fartamos-nos de o ouvir, nas TV's e companhias, que as autoridades vão apanhando suspeitos desses fogos postos.



As fraldas das minhas Montanhas Lindas, são devoradas por chamas assassinas, há 8 dias. São 8 dias de tristeza, de sofrimento de pessoas, de animais, de tudo que resiste em volta dessa fúria demoníaca.

Como já todos sabemos isso, mais ou menos, até temos um Ministro especialista a fazer as comparações de incêndios, referentes aos últimos anos e para ser franco, por essas comparações tão assíduas e por tantas outras coisas desse e de outros ministros que me vão exaucrinando os ouvidos é que eu tanto lamento pelo futuro deste país. O tal país que todos ouvimos falar que foi, porque eu não vejo que o seja, talvez na Idade Média ou no tempo da Idade da Pedra, à beira mar plantado!

Por isso, por sabermos já de tudo ou quase, sobre incêndios, eu vou falar aqui dos que me tocaram mais de perto, aqueles que, tão tristemente, vão destruindo tudo, pelas minhas Montanhas Lindas.



Quando, no sábado,  chegamos a Soajo, vindos de Castro Laboreiro, para rumarmos a Lisboa, encontramos a continuação da acção destruidora deste fogo que durava há oito dias. Saímos de Lisboa numa 2ª feira e ele tinha começado no sábado anterior e partimos com ele em plena fúria, após actos contínuos de reacendimento segundo ouvimos às autoridades

Quando saí da minha casa, caminhando rumo a Norte, levava na minha bagagem as tormentas dos incêndios, que preocupam todos mas, dois deles, preocuparam-me por todo o caminho: "o incêndio de Soajo e o incêndio da Mata de Cabril".

Quando, pela tarde, chegamos a Soajo, embora que, em lume brando, as fumarolas, os cheiros a queimado, a escuridão da área ardida ainda lá estavam. Era segunda-feira, à tarde, e nós seguimos rumo ao Hotel da Peneda.

Nos cinco dias que se seguiram, sempre que me deslocava, em redor das minhas montanhas Lindas e por terras da Galiza, não perdia de vista as fumarolas de Soajo e da Mata de Cabril. Mesmo quando não as via, aquelas zonas do céu, nas suas verticais, mostravam-me as terríficas negridões das fumarolas que subiam, como lá estariam as coisas e como tais incêndios causam tanto mal.

Enquanto os meus olhos reparavam nessa escuridão do horizonte elevado, rodando rumo a Caminha, a Baiona, na Galiza, e mais tarde rumando para Melgaço, em direcção a Castro Laboreiro, a minha alma ouvia lá longe, os gritos de tudo o que morria à passagem das terríficas labaredas. As flores dos montes de Cabril, na serra Amarela (eu gosto de tratar os bois pelos nomes) e das fraldas das minhas Montanhas Lindas, no lado oposto, gritavam quanto podiam pelo socorro do Ventor! Junto com os gritos das flores, das árvores, dos matos, chegavam os gritos de todos os outros seres vivos, os pássaros em fuga, os gafanhotos, os besouros, os coelhos, os lagartos, as lagartixas, ... tudo! Mas o Ventor nada podia fazer e nem tinha como ajudar! Ao cair da noite, junto de uma terra chamada Alcobaça, situada, algures, entre Melgaço e Castro Laboreiro, eu via lá longe as labaredas a destruir tudo, enquanto a noite descia.




Na nossa caminhada da Barragem de Lindoso (onde os Canadairs iam abastecer-se de água) para Ponte da Barca, assistimos à azáfama daqueles que se empenhavam nessa luta sem tréguas, para debelar a hidra de cabeças sem fim. Este helicóptero abastecia-se de água na barragem de Touvedo e ia despeja-la, tanto quanto possível, sobre uma das cabeças da hidra que caminhava diabolicamente rumo ao berço do Ventor - a sua Assureira e Adrão

Durante a minha caminhada pela Pedrada, ao chegar ao Muranho, uma ave espavorida, que eu nunca tinha visto, pelas minhas Montanhas Lindas, passou sobre a gente e foi pousar bem cansada sobre uma moita de urze, junto da Celeste. Eu caminhei para lá, com a máquina em posição de fotografar, mas ela, aterrada, levantou voo em direcção do sol e as duas fotos que lhe tirei, não dão para a identificar. Aposto que essa ave sentia que o seu mundo estaria para acabar!

Depois, mais tarde, na Portela de Baixo, frente à Fraga da Nédia, estive a fotografar os Canadairs que passavam sobre os montes de Paradela para se abastecerem de água na barragem de Lindoso, para despejar nas labaredas que teimavam em queimar tudo que existia em volta de Soajo. Mas nada podia deter as chamas! A noite ia cair e os Canadairs iriam deixar de poder operar e tudo iria recomeçar. Na sexta-feira tudo continuava como na véspera. Saídos de Castro Laboreiro, rumando a Arcos de Valdevez, os bichinhos e as flores que o Senhor da Esfera colocou nas minhas Montanhas Lindas, continuavam espavoridos e, muitos deles, a serem devorados pelas chamas.



Os Canadairs, abasteciam-se na Barragem de Lindoso e despejavam as águas, incansàvelmente, nas várias cabeças da hidra 

No sábado, quando estávamos de partida, rumo a Lisboa, sem desprimor para a tarefa árdua dos bombeiros, concluí que não valia a pena lançar os Canadairs e os Helicópteros contra as chamas devoradoras e insaciáveis de matos que tentam sobreviver à morte, morrendo e revivendo, deixando no seu espaço, em tempos de secura, autênticos barris de pólvora.



Pelo menos, um dos Canadairs era francês, creio que a França enviou dois e eles, religiosamente, faziam a sua caminhada de vai-vém entre a Barragem e as zonas dos incêndios, procurando tirar o maior rendimento possível da sua acção sobre a hidra

Tanto quanto me pareceu, os Canadairs, ou outros aviões que haja por aí, para apagar incêndios, ou actuam imediatamente ou, chegando tarde, a sítios como os montes do Parque da Peneda-Gerês, tornam-se, na prática, inúteis. Eles iam carregar água na barragem de Lindoso e descarrega-la, logo ali, ao lado, nos montes de Soajo. Mas, no seu vai-vem, mal despejavam a água, quando regressavam, e olhem que é bem perto, já o fogo devorava a água e tudo onde ela tinha caído.

Eu não percebo nada disso, nunca fui bombeiro embora já tenha apagado incêndios, nos tempos que os matos não eram pólvora, acho que em fogos como os de Soajo e de Cabril, dois Canadairs e helicópteros, nada podem fazer! Como não há mais, ouvi dizer na Rádio que vieram dois de Itália e dois de França, ou então foram notícias confusas, mas sei que um dos dois Canadairs que actuaram, em Soajo, no sábado, era francês. Para um fogo como o de Soajo, para debela-lo logo no primeiro dia, eu penso que só com quatro ou seis Canadairs. Depois, nem uma dúzia. As labaredas levam tudo à frente. Não é por acaso que alguém dizia: "quando julgamos que está tudo apagado ele reacende-se"!



Assim, enquanto na minha caminhada pela Pedrada as rainhas das Montanhas me perguntavam porquê (?), as flores me sorriam, inocentemente, sem se aperceberem do horror que as espreitava lá de longe

Eu pergunto: "reacende-se ou há alguém que não o quer ver apagado"? Pelo que ouvi, é uma pergunta com cabimento! Nós passamos na estrada de Soajo para Arcos de Valdevez e vimos gente de várias corporações de Bombeiros deste país, estacionados na área do Mesio. Outros encontramos pelo caminho, rumo ao mesmo destino.

Mas quando saía de Adrão e vi, lá em baixo, os montes dos dois lados do rio de Adrão a arder, pensei que nada iria escapar. Partindo do fundo de Soajo, já nos arrabaldes do velho moinho da Trapela e de Ramil, as chamas devoravam tudo. O meu pensamento foi que não haveria Canadairs que protegem-se a nossa Assureira. Os carvalhos da Assureira iriam arder todos e, com eles, os melhores tempos da minha vida!

Ainda hoje não sei onde o fogo foi detido e quantos Canadairs foram utilizados, mas olham que, se há matos pólvora, aqueles matos devem ser o mais perfeito que há! 

Estive lá em 28 de Agosto de 2006 e, este ano, a pólvora já estava com mais 4 anos de crescimento e de secura em cima.

Voltarei aqui para vos continuar a falar dos incêndios e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, agora, mais uma Maravilha Natural de Portugal!|


domingo, 29 de agosto de 2010

Notícia boa e notícia má

Hoje, por volta das 20:45, recebi uma chamada no meu telemóvel!

Não foi uma chamada como tantas e tantas outras. Foi uma chamada de Ponte da Barca.

O meu amigo Luis, o Luis Perricho, o nosso amigo Luis Perricho, que veio de França passar uns dias de férias a Portugal, telefonou-me de Ponte da Barca para me informar que esteve envolvido no terrível acidente da A-25, do início da semana, onde chocaram dezenas de viaturas.

Ficou sem carro, percebi que ainda nem o viu!



Numa caminhada pelas nossas Montanhas Lindas, no Muranho

Parou o carro atrás dos envolvidos à frente, disse à esposa para sair dali rapidamente e cada um saiu fora. Ele saltou para fora da A-25 e, de repente viu a esposa no meio da auto-estrada (curiosidade no acidente?) a ver como sair dali. Quis ir busca-la mas, um camião e outros que atropelaram tudo não deixaram. No meio de tanta chuva e nevoeiro, ele ficou de um lado e ela do outro. O carro esmagado, atirado contra os da frente e ele à procura da sua companheira de tantos anos, meteu-se num táxi e foi dar com ela no Hospital de Viseu com algumas escoriações.

Foi meter-se em Adrão, sem telemóvel, porque lá não há rede, e só hoje me deu a notícia. Por isso eu costumo dizer que, a TMN e a Telecel são uma porcaria nas nossas Montanhas Lindas!

Foi para a Barca para tratar das suas coisas a partir de amanhã e, se tudo correr bem, tem o regresso marcado para França, na próxima sexta-feira, de avião. Terá sido terrível, penso eu, mas os lobos da Pedrada estão habituados, na vida, a passar por tudo e vão resistindo! Resistindo enquanto o Senhor da Esfera quiser. E ele vai querendo, pela Sua Graça.


Numa caminhada pelas nossas Montanhas Lindas, no Muranho

Eles foram a Castelo Branco visitar uns amigos e passar lá uns dias. No regresso, quiseram passar pela serra da Estrela e, por portas e travessas, foram meter-se na A-25 onde tudo correu mal.

Para aqueles de Adrão que passarem por aqui, eu deixo a notícia.

Boa viagem Luís e Celeste até á terra des Enfants de la Patrie. Se ficarem pela Barca, ainda falaremos.

A notícia foi má porque, todos os acidentes são uma tristeza, mas a notícia foi boa porque, o Senhor da Esfera os protegeu.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Como um Lobo Solitário

No dia 12 de Agosto, neste ano de 2010, levantei-me muito cedo no Hotel de Castro Laboreiro. Espreitei pela janela e, grande desilusão, as nuvens, bem negras, voavam no horizonte, bem baixinhas.

Fui tomar duche e, sem esperanças, aperaltar-me para, se o tempo me deixasse, realizar a minha esperada caminhada à Pedrada. Quando tomava duche, pensei na hipótese de, se a chuva caísse, mandasse para casa os bombeiros que exaustos ou não, lutavam contra os fogos que lavravam nas suas fraldas.

Descansadamente, sem pressas, convenci-me que não haveria caminhada mas, depois de tomarmos o pequeno almoço no Hotel e de beber mais um café, junto ao Restaurante Miradouro, tive uma sinfonia de corvos, monte acima, a dizer-me que, fosse como fosse, mais um dia se iria passar.

Já tarde, iniciamos a viagem, rumo à Peneda e, olhava o céu onde farrapos de nuvens dançavam para mim, nos cabeços de Castro Laboreiro. Mas as notícias, na rádio do carro, não eram boas! Soajo continuava a luta contra os incêndios. Mau, mau, mau .... pensava eu, baixinho. Trocava a minha ida à Pedrada por uma valente chuvada que acabasse com estes incêndios. Passamos a Peneda, Rouças, Tibo e atravessamos a Portela de baixo, rumo a Adrão. Chegamos ao Fojo e disse: "fico aqui"!

Seguiram rumo a Arcos de Valdevez mas antes, ainda conversamos com um amigo que nos pareceu esfomeado. A minha companheira, que adora animais, assaltou-me o farnel para dar um quinhãozito dele a esse amigo que, se calhar, alguém terá abandonado por ali. Comeu quase todo o resto à noite. Cego de um olho e com dois buracos na garganta feitos por uma dentada. Ele subiu comigo até à Portela, mas eu desencorajei-o a acompanhar-me porque, lá em cima, andaria o Tomé, o cão do Zé Manel e, possivelmente, haveriam lutas desnecessárias. Junto ao Cruzeiro da Portela de Cima, com vistas para Adrão e para a Senhora da Peneda, ele entendeu e lá ficou para trás.



O Cruzeiro da Portela de Cima, entre Adrão e a Senhora da Peneda

Segui só! Só, tal como um lobo solitário!

Se há coisa neste mundo que eu goste, é ver as rainhas das montanhas a observar-me, firmando a vista, de cabeça levantada, não vá ser o seu dono que as procure.

Quando passei as Lameiras, calculando que só tarde iria encontrar os meus amigos, pois levava três a quatro horas de atraso, troquei o estradão dos jipes por uma caminhada nos horizontes da Corga Grande, até ao Penedo do Osso, sempre com Adrão à vista, pela minha esquerda e os fumos de Cabril, no horizonte oposto e os de Soajo, lá no fundo.

Ao chegar ao Penedo do Osso, das quatro vacas que ali se encontravam, houve uma que caminhou ao meu encontro alguns 100 metros e orneou. Falei com ela e ela serenou. Parecia dizer-me: "já vi que não és o meu dono e que nunca mais os vais apanhar"! 


Uma galanta, nas minhas Montanhas Lindas

Rumei, então, à Fonte da Naia, já cheio de sede, pois o calor era bastante e a pujança da caminhada era fraca. Observava cada pedra, cada moita que, devido ao isolamento, conseguira escapar ao incêndio de 2006. Sempre que caminho nos meus montes, sinto-me rodeado de gente! É essa a minha sensação. Nunca estou só! Ao chegar à Fonte da Naia, saía alguma água por cima da pedra que o Luis e o António estiveram a arranjar o ano passado e, a outra saía por baixo. Mal a olhei, vi saltar um sapo e outro, talvez uma princesa do mundo das fadas, ficou a conversar comigo:



Uma princesa encantada na Fonte da Naia

"que fazes aqui Ventor? Tu não vais beber água porque tens nojo de mim? Podes beber, Ventor, eu não sou tão peçonhenta como tu sempre ouviste dizer. Eu sou um anjo nas tuas montanhas lindas! Eu sabia que tu vinhas aí e sabia que tu irias mudar de rota só para me veres. Tu não estás a ver um sapo, Ventor! Tu estás a ver uma Ninfa das Fontes! Tal como viste nas Fontes, no Sítio do Quico. Aquelas rãzinhas que viste nas fontes eram as ninfas que tu viste quando sonhaste. Elas lá e nós cá, caminhamos sempre acompanhando o Quico. Tu sabes bem, Ventor, porque o trouxeste para cá! Sabes porque decidiste leva-lo para a fonte da tua meninice. Tu conheceste essa fonte de cueiros e bebias água sempre que lá passavas. Por aqui, só mais tarde conseguiste caminhar, olhar-nos e, posso mesmo dizer, aparentemente, adorar-nos! Nós fazemos parte de ti Ventor! Tu, as nossas Montanhas Lindas, as nossas fontes, o Quico e, muito mais, somos os guardiões desta bela serra a que outros, uns asnos, já dão outro nome, mas que para nós, será sempre a serra de Soajo. Tu vais viver sempre aqui, Ventor, connosco. Nós somos quem vela pela fonte da Naia"!

domingo, 15 de agosto de 2010

Um Abraço

Um abraço com quarenta e tal anos de lonjura.



Adrão, visto de junto ao Cruzeiro, na Portela de cima, 12 de Agosto de 2010

Eu e o António, o filho do meu amigo Bernardino e da Elvira, abraçamo-nos. Foi um abraço que enrodilhou quarenta e tal anos sem nos vermos! Mas a pinta é a pinta e a pinta do meu amigo Bernardino, está estampada na cara do seu filho!

Um carro descia a Quelha da Costa e, no sítio das despedidas e dos reencontros, parou, olhou e saiu. Olhamo-nos e, depois da surpresa, abraçamo-nos.

Não sei quando nos voltaremos a ver ou, até, se nos voltaremos a ver, mas se não nos voltarmos a ver, seria muito bom que tivéssemos mais quarenta e tal anos de desencontros e mais um encontro semelhante a este. Só que, agora, neste mundo das novas tecnologias, não haverá espaço suficiente para nos voltarmos a perder, se nós não quisermos.

Provavelmente, António, quando chegares aos Estados Unidos, ao abrires o meu Blog, verás que és tu que abriste as minhas caminhadas de 2010 pelas nossas Montanhas Lindas. Eu costumo dizer as minhas Montanhas Lindas mas, eu sei que tal como eu, todos vós terão o coração a bater na esperança de, um dia, voltarem a ver, se não a Pedrada, pelo menos o Alto da Derrilheira, cá de baixo.

Um dia, muitos anos atrás, ainda tu só conhecias o nosso lugar de Adrão e as nossas Montanhas Lindas, eu li, algures, que o Fugi Ama era a Montanha Sagrada dos Japoneses (Montanha Sagrada?) e, nessa altura, nem me passava pela cabeça que, mais tarde, a Derrilheira e a Pedrada, viessem a ter, para mim, o mesmo significado.


Adrão, visto do cimo da Corga Grande, 12 de Agosto de 2010

Levei muitos anos para compreender os japoneses! Mas não tenho dúvidas que, mais alto ou mais baixo, todos os homens ou, quase todos, temos o nosso Fugi Ama.

Podem chamar a tudo isso, saudades, podem chamar-lhe nostalgia, mas seja porque motivo for, o nosso coração fica sempre para trás, retalhado. Por isso, tal como o Júlio Iglésias canta a sua Galícia, eu também canto a minha: «Tenho Morriña, tenho Saudades»!

Gostei muito de te ver, António. Vim a saber que tiveste alguns problemas de saúde, pela América. Espero que o Senhor da Esfera te dê, de agora em diante, a alegria e a saúde que, um dia, te terá tirado.

Já me recordo com quem a tua esposa me era parecida. Conheci uma moça de Braga, também há quarenta e tal anos; chamava-se Adelaide e já não me lembrava, mas se não há laços familiares, há, de certeza, uma parecença inconfundível. Levei tempo, mas cheguei lá! A última vez que a vi, foi na velha "Lourenço Marques", actual Maputo, em Moçambique, em 1970, onde tive uma "guarda de honra" de gente amiga e, entre todos, a Adelaide, que nunca mais vi.

Espero que façam uma boa viagem para a América e obrigado meu amigo, porque eu sei que estavas sempre a perguntar por mim à minha mãe. Ela estava sempre a dizer-me: o A, o B, o C, o ... já aqui estiveram e foram-se embora, com pena por não te conseguirem ver e não irem contigo à Pedrada. Também o ti Avelino, com tantos anos nas pernas, queria ir comigo à Pedrada!


O encontro, ao cair da tarde, no Muranho. Eu, o Luís e a esposa, o António, um casal francês (que apareceu por cá, turistando, com vontade de caminhar nas nossas Montanhas Lindas, teve a sorte de encontrar o Zé Manel, em Soajo que resolveu partilhar com eles essa bela caminhada, encontramo-nos, pelas 17 horas, no Muranho. Mais tarde, encontrei o Zé Manel a tratar do jipe, mais em baixo, na Ferrada. Espero que tudo esteja bem com o Jipe, Zé Manel

Ultimamente, tenho tido alguns companheiros nessas fantásticas caminhadas. Para todos eles o meu abraço, sem esquecer o Tomé, o cão do Zé Manel. Desta vez voltei a caminhar por lá como um lobo solitário. Ao chegar ao Muranho, lá estava o Tomé, dentro do cortelho, deitado no escuro onde me apareceram aqueles olhos vermelhos. O Tomé olhou-me com aquelas lanternas vermelhas do meio da escuridão do cortelho e disse-me: "não penses que sei deles! Eles, tal como tu, têm a mania que são lobos mas eu não. Eu sou cão! Voltei para trás e deitei-me aqui ao fresco e, entretanto, sempre tomo conta das coisas! Deixaram-me a dormir na Corga da Vagem, partiram e nem me disseram nada"!

Achei piada porque o Tomé só me viu o ano passado e conheceu-me! Nem um ronco, nem uma ladradela! E imagina tu que tinha lá os belíssimos ingredientes para fazerem um cozido à portuguesa!

Voltarei a falar aqui das minhas caminhadas de 2010, pelas nossas Montanhas Lindas e mostrarei algumas fotos.

Um abraço a todos. 

domingo, 8 de agosto de 2010

Olhar ...

... olhar as minhas Montanhas Lindas, olhá-las por muito tempo, mesmo caminhando no alcatrão, é do melhor que me pode acontecer nas minhas caminhadas.

Ver o Alto da Derrilheira, fazer os meus olhos trepar aquele miradouro do nosso contentamento, já me leva a pensar nas belezas do nosso mundo mas, eu tive a certeza que, desde que os meus olhos começaram a observar aquele pico, então, ainda mais pertinho do céu, nunca mais o esqueceria.



Alto da Derrilheira - lá em frente, os montes são espanhóis

Por isso, ainda hoje, subir e descer as minhas montanhas, é caminhar ao lado do Senhor da Esfera, conversar com Ele e agradecer-lhe por todas aquelas oportunidades que me tem dado de afirmar, cada vez mais, as belezas que, desde então, me deu.

Ele pôs-me a pisar alcatifas de todas as cores, rectangulozinhos de madeira, em várias formas, encerados, produtos belos da caldeirada que as civilizações mixordaram.

Levou-me a subir outras montanhas para comparar, bem mais altas e, também, bem lindas, algumas com cabeços em banda, outras com as agulhas a rasgar o céu mas, em nenhuma dessas belezas consegui esquecer a beleza das minhas montanhas.

Por isso, caminhar rumo ao Alto da Derrilheia, obriga-me a ir sempre de cabeça levantada e, quando inicio a sua descida, tem o dom de uma força magnética, levando-me sempre a torcer o pescoço e obseva-lo.

Por isso, hoje como sempre, a visão do nosso Pico, sobrepõe-se a todas as visões de montanhas que tenho tido, algumas das quais só observei de cima para baixo, como as montanhas do Maniamba e outras, cuja beleza eu observei numa bela ondulação, caminhando pelo horizonte onde o meu amigo Apolo se deitava. Mas, no Alto da Derrilheira, Apolo tinha o dom de se mostrar ao Ventor, ainda ensonado e o Ventor tinha de olhar sempre a vê-lo rebolar, montanha abaixo, até, mais tarde, me aquecer o nariz. Quando ele batia no Alto da Férrea, o Ventor já teria uma das suas tarefas terminadas e, logo de seguida, fazia uma grande correria, montanha abaixo, desafiando Apolo a tocar-me antes de eu poder esconder-me mais.

"Calma, Ventor, que te matas"!

Corria porque tinha a escola à espera e, nessa altura, tudo o que eu queria era chegar à escola. Era pela escola que eu controlava o meu amigo Apolo e ele sabia e ainda sabe hoje, que esses foram os melhores tempos da minha vida.

Por isso, espero, nestes dias, infelizmente poucos, recordar esses tempos com o meu nariz alcandorado nas minhas montanhas.


Uma libelinha, na Parede (Junto à Av. das Tílias)

Assim, vou deixar estas maravilhas e caminhar ao encontro de outras ainda mais belas.


Uma libelinha, no rio Mouro (lamas de Mouro)


Uma libelinha, em Adrão (rio de Além)

Vou ir ao encontro destas que, por razões que estarão para além de outras razões, nunca esqueço. Continuo sempre a caminhar a seu lado e elas sempre a meu lado, quase sempre vestidas de tons azuis ou dourados, esvoaçando entre os salgueiros, pousadas nos carriços do meu rio ou sobre pedras frescas em verões muito quentes.

Gosto muito de caminhar entre elas, por isso, a minha máquina as reboca até mim.


Se calhar, vamos dormir aqui, nestas pétalas

Assim, como me dirijo ao meu mundo, desejo a todos que estão de férias ou que vão entrar de férias, umas boas férias.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Adrão, chora!

Adrão é um lugar  que continua a ficar sem aqueles que o amam, ou que o amaram. Um após outro, todos vamos partindo e um após outro, vamos chorando por aqueles que nos vão deixando; a nós e ao lugar que nos viu nascer.

Adrão, encravado nas montanhas, no caminho da Senhora da Peneda, vê os seus filhos partir e chegar, como todos os lugares deste país, perdidos por aí. Eu sou dos muitos que partiram e só regressam para chorar. Se não for para chorar, haverá os que regressam para beijar uma última vez a terra onde, em tempos, viram a luz, e será nessa luz que querem ficar para a eternidade.

É assim com todos ou quase todos. Desta vez foi assim com o ti Joaquim da Chica, um amigo. Um amigo de Adrão e um amigo do Ventor. Soube há pouco, por um telefonema de França, de Paris que, hoje, o ti Joaquim da Chica, o meu amigo Joaquim de Barros, nos deixou para sempre e foi em Adrão que quis que os seus ossos ficassem, também, para sempre.

Há muita gente de Adrão que tem partido e eu só tenho conhecimento quando entro no Cemitério. Neste caso morreu um amigo e outro me deu a notícia da tristeza.

Um dia, esse homem, pediu-me para levar para Adrão o projecto da sua futura casa. Eu, era um puto que sonhava com o mundo e, ele, o homem que sonhava com Adrão. Com o regresso!

"Olha, Ventor, Adrão não pode dar de comer a toda a sua gente, por isso fugimos! Viramos-lhe as costas, mas temos sempre vontade de regressar. Esse projecto é o projecto da minha casa onde, um dia, espero viver os últimos anos da minha vida. Sim, porque nós partimos, mas regressamos sempre. É uma terra que não nos mata a fome, mas que nos dá uma pujança enorme ao nosso coração. A pujança da saudade"!

Foi mais ou menos isto.

A última conversa que tivemos foi, já há meia dúzia de anos, debaixo do Carvalho de Eixão, onde eu estava numa sardinhada, e ele de pau na mão se aproximou a olhar-me e pronto para mais uns dedos de conversa. A nossa última conversa.

Há três dias, ele enviou-me a mensagem de que iria partir, pois eu fiquei grande parte da noite a pensar nele, na sua saúde e na velhice e tive saudades de falar com ele. Pensei que, talvez, este verão, o visse pela sua casa de Adrão e ainda conseguíssemos ter mais dois dedos de conversa. Dois três dias para a notícia de que ele nos deixara para sempre.

Até um dia, ti Joaquim!

Para toda a sua família, deixo aqui os meus sinceros pêsames.