Rojões na serra de Spajo

Rojões na serra de Soajo

Vejam estes golosos a comer rojões assados na serra mais linda do mundo - a serra de Soajo Assar rojões na serra de Soajo, nos braseiros dos...

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Rumo à Pedrada, Agosto de 2015

A caminhada da alegria!

Depois de subir a Portela, as Lameiras e caminhar nos horizontes da Corga Grande, caminhamos na Naia, rumo à sua fonte, entre fetos de que tenho sempre saudades


Depois de subirmos ao Alto da Derrilheira e rumar à Corga da Vagem, fitamos os olhos na Pedrada de onde não saem tão depressa. Seguimos pela Corga da Vagem até às Forcadas, onde em tempos houve uma fonte e hoje, não a vemos. Torcemos à esquerda, iniciando a nossa última subida


Por fim, o Marco Geodésico da Pedrada. Aqui observamos em volta, tudo o que há para ver, até perder de vista e, gloriosamente, dizemos: chegamos! Este é o nosso marco

Em 13 de Agosto de 2015, tentamos ir à Pedrada mas a chuva  não nos deixou. Fomos apenas até Adrão e, tal como há mais de meio século atrás, caminhamos, por ali, à chuva. Desistimos e voltamos para os Arcos! Com chuva e nevoeiro, não vale a pena ir à Pedrada. Sem paisagens nada interessa. Mas no dia 15, no sábado, saímos de Arcos de Valdevez, rumo à Pedrada, o local mais alto da serra de Soajo, conhecida nos meandros militares por Outeiro Maior. É o Outeiro Maior na zona e é, certamente, além de maior, o mais lindo. Como costumo dizer, não podemos subir à Pedrada sem ser a olhar para trás. Olhando para trás, nós vemos o nosso mundo! Foi ali que tudo começou.

Partir de Adrão ou de outro lado qualquer, o objectivo é alcançar a Pedrada, objectivo esse que pretendemos repetir sempre que possível, desde o tempo em que caminhávamos de cueiros.

Eu adoro a Pedrada! Quando passo a Derrilheira, fico com a Pedrada pendurada no nariz e nunca mais a largo, mesmo coxo, como já me aconteceu.



Mas antes de chegarmos à Derrilheira, de treparmos pela Corga da Vagem, de nos colarmos ao Marco da Pedrada, temos uma paragem obrigatória no Muranho, onde observamos o seu Poulo, os seus Cortelhos e bebemos na sua Fonte

Iniciamos a subida sob a ameaça de chuva mas lá fomos. Tivemos uma belíssima cadela a esperar-nos na Portela e, mais acima, nas Lameiras, esperavam-nos os abutres.

Os meus companheiros de caminhada não ouviram mas, eu ouvi bem. Vamos Ventor, nós sabemos que tu não vais ficar para trás. Eles subiram connosco. Das Lameiras até à Pedrada, houve sempre, um, dois ou mais, a caminhar, voando, sobre as nossas cabeças.



Pelo caminho fomos observados pelos abutres e observámo-los a eles. São uma bela companhia que pela segunda vez nos acompanharam, serra acima e serra abaixo

Houve sons que eu ouvi e cheguei a pensar que seriam os abutres mas estou mais inclinado para as corsas. Só vi uma e ela ou outras chamavam para caminharem juntas. Também encontrei no terreno, mensagens de javalis. Eles escreveram no Poulo do Muranho e noutros locais mas, especialmente na Corga da Vagem, as suas mensagens para o Ventor. Entre outras mensagens, aquela que me dizem que a nossa serra é linda mas com sol. Procuramos raízes Ventor que não servem para ti mas, para nós, são belíssimos petiscos, tal como as castanhas de Entre-os-Outeiros. Temos de aprender a sobreviver na tua serra, Ventor, na nossa serra.

No Muranho e na Corga da Vagem, li as notícias escritas, no terreno, pelos javalis. Só eles e eu nos entendemos e sabemos, com mais alguns, como é linda a nossa serra

Para já, só faltam e creio, nunca mais haverão, ursos na serra de Soajo, de resto está lá tudo, como noutros tempos. Lobos, javalis, corsas, ... e, no dia em que os incendiários forem enforcados nas árvores a arder, eles sentir-se-ão no mundo que lhes pertence, a eles e a nós. Os lobos não os vimos mas eles deixaram-nos as suas mensagens que só podem ser interpretadas por outros lobos que, como o Ventor, adoram a sua serra.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Com a Pedrada à Vista

Pois foi. Em frente e lá fui!

Consegui desenterrar-me da sombra saborosa com bastante dificuldade. Após algumas tentativas, vi-me à altura da rocha protectora. Às vezes temos necessidade de nos protegermos dos amigos. O melhor dos meus amigos, Apolo, o Senhor da Luz, sem querer, iria fustigar-me. Ele queria acompanhar-me e eu queria a sua companhia mas, ele sabe que eu só quero a sua companhia quando posso andar.



Ao sair da Derrilheira, logo de seguida, caminhei com os olhos na Pedrada. Mais à frente, consegui descê-los até à Corga da Vagem

Reiniciei a caminhada rumo à Corga da Vagem. Com dificuldades, mas lá fui indo, observando a paisagem e tentando encontrar a minha flor azul dos últimos anos - a gensiana das regiões alpinas. Estava um pouco desapontado porque não encontrava nenhuma. Por fim, lá observei a rapaziada observando a fonte e, certamente, já teriam bebido da sua água. Eu continuava a minha caminhada dolorosa. Aquilo que para mim costuma ser uma alcatifa maravilhosa, estava a ser uma tortura. A minha coluna torcia-se e retorcia-se a cada passada que dava. A dor era transportada para a minha coxa direita e, algumas vezes sondava a coxa esquerda. Só me faltava gritar mas com imensas dificuldades lá prossegui a minha caminhada da tortura.



Da Corga da Vagem caminhamos até às Forcadas e, dali, fotografei este amigo que nos ia observando, mais em cima, no rumo da Pedrada. Não fossem as carquejas e as urzes e julgar-me-ia em Moçambique

Mas restou-me a alegria de voltar a ver a Pedrada. Alguma vez será a última e eu espero que, desta vez, ainda não o seja. Eu tinha um projecto para, se estivesse bom tempo, ir à Pedrada duas vezes, uma delas na companhia dos meus amigos e a outra, possivelmente, à lobo solitário. Mas eu não posso fazer projectos. Tenho de fazer à moda antiga. Levantar o nariz, olhar o horizonte e pôr-me em marcha.

Desta vez, à chegada à Fonte das Forcadas por lá estavam os abutres. Tirei umas fotos a um pousado. Não ficou bem porque me enganei no programa da máquina mas sempre notamos ser uma abutre. Quem é que tira uma macro a um abutre a tal distância? A minha coxa não me deixava andar nem pensar devidamente. Quando a hora era de gritar, fotografava abutres! Iniciamos a subida e deparamos com o motivo de tal revoada de abutres - uma vaca morta.




O Eira-Velha já tinha conquistado o seu castelo, que pelos anos fora ia observando dos lados da sua Cavenca. Não é a mesma coisa observar ao longe e pisar o local com os nossos pés. A partir daí está conquistado



O Luis Perricho lá estava mais uma vez, no cimo das ameias mas, desta vez, tinha a sua bandeira primária na recepção - a bandeira de Soajo - a bandeira do nosso berço



O rei António, não está sentado no seu trono da Seida mas está sentado no topo do seu castelo, como sempre gosta de fazer

Custou-me muito fazer aquela subida. Só o prazer de lá me encontrar atenuou tanta dificuldade. Porém, lá me encontrei frente a frente com o nosso marco e os meus companheiros de caminhada a triturá-lo com o olhar. Umas fotos em volta e não me atrevi a acompanhá-los ao Palácio da Dourada. Eles foram ao palácio e eu fiquei a apanhar moedas. Ganhei um 1, 75 € por ter ido à Pedrada. Foi quanto encontrei no chão da alcatifa rapada da Pedrada mas eles ganharam mais do que eu pois foram ao Palácio da Dourada.



As rainhas das montanhas e os garranos são parte integrante da beleza das nossas Montanhas Lindas. Um dia, sem elas, pouco nos restará da Pedrada

Eu fui descendo rumo ao Olheiro do Avô, sempre seco, como em todos os Agostos. Haviam algumas vacas num poulo mais abaixo para animarem a nossa caminhada mas, muito pouco gado, este ano. Quanto a gado, para mim, 2009 foi o melhor dos meus últimos anos pela serra de Soajo. Torcemos à esquerda, rumo à Corga da Vagem. Comer à sombra da urze, e beber na sua fonte é sempre uma praxe!

Sentado no chão, pensando porque ainda não tinha encontrado uma única das minhas belas gensianas, comecei a procurar. "porque raio não encontro uma única das minhas florezinhas azuis"?

O Eira-Velha olhou e apontou uma perto dele. Ali era a única mas teria de haver mais!



A minha flor linda - a gensiana. Uma flor alpina que embeleza as minhas Montanhas Lindas. Esta foi descoberta pelo Eira-Velha, do lado oposto à fonte da Corga da Vagem. Foi a primeira do dia que embelezou o nosso salão do almoço

quarta-feira, 10 de julho de 2013

À Sombra de Azinheira

Ontem, dia 09 de Julho, entre as 09:30h e as 10:45 horas, estive dentro do carro, à sombra de umas azinheiras, junto de um jardim de Lisboa. O termómetro do carro, à sombra, marcava 30º C. Eu ia observando as flores lindas dos aloendros, as hortênsias, as bolotas das azinheiras a crescer, a relva regada, as empregadas da escola, em frente, a fazer as limpezas mas, pássaros, nem um!

Apenas via as andorinhas voando muito alto nas suas caçadas aos insectos. Que seria dos meus amigos penudos? Estariam afastados pelo calor? Não é a primeira vez que paro por ali, nem a segunda, nem a terceira, nem, ... por aí fora. Já lá estive parado com temperaturas amenas, com frio e com calor e sempre lá vi pássaros! Rolas turcas, melros, pintassilgos, pardais, ... gaios! Os pais gaios perseguindo os seus filhotes para os manter agrupados e lhes dar de comer. E ontem, nada! Foi uma hora e 15 minutos sem ver nada!

Comecei a pensar na estratégia para o próximo ano, caso atinja temperaturas semelhantes às que nos têm atingido.

Nestes dias de canícula, caminhar pelos grandes Centro Comerciais como o Colombo, o Alegro e outros. Há sempre coisas para comprar e podem ser compradas pela fresca dos ares condicionados. Ontem por exemplo, comprei um disco externo (2TB) para arquivar as minhas novas fotos. Observei tudo, não com muita calma devido à falta de tempo, bebi o meu café e, deixei outras compras de reserva.



Alto da Pedrada -a meta

No próximo dia de canícula, terei, pelo menos, mais uma compra para fazer. Um cartão adequado para a minha máquina! Não sei se comprar um com 32 GB ou com 64 GB! Já sei que, se conseguir ir à Pedrada, no próximo Agosto, esperarei que não chova, terei que pedir ao meu amigo Eolo para tentar colocar as suas ventoinhas a trabalhar com suavidade. Quero subir a minha serra, sempre em posição de disparo.

Quero atravessar o planalto da Naia a clicar em todas as direcções. Direita, sobre os rouceiros, a Peneda, a Gavieira, ... esquerda, sobre o Alto do Lombo, ... frente, sobre o Muranho, a Derrilheira, a Serrinha, ... e rectaguarda, tudo o que for ficando para trás. Quero observar bem as falhas que fazem deslizar o Alto da Derrilheira, deixando-se abater e ficando mais atarracado.



Portela - para lá Peneda, para cá Adrão

Vou tentar abater dois kg para, quando me encontrar lá em cima, trazer até aos meus olhos, pelo visor da minha máquina, as borboletas que esvoaçarem nos socalcos da Veiga, os coelhos que passearem na Chãe do Ruivo ou, as lagartixas que, nas Fontes caminhem sobre a pedra que serve de lápide ao meu Quico. Da Serrinha, quero trazer até aos meus olhos, o Poulo de Adrão, na serra da Peneda e, ver caminhar entre os seus fetos, as almas da minha gente das grandes transumâncias.



Alto da Derrilheira

Quero subir à Pedrada com a máquina pronta a abrir "fogo" de rajada sobre a cobra que me costuma desafiar e fugir para as pedras do "palácio inacabado", gritando: "salvé, Ventor"!

Quero rebocar o buraco do Fojo do Lobo até à ponta do meu nariz. Quero ouvir a mesma algazarra que ouvi na montaria quando o meu pai matou a loba rabicha, quando as mauzers dos guardas fiscais e florestais cuspiam balas sobre o tal lobo ricocheteando nas pedras de granito e ver nas reentrâncias dos muros as pessoas que gritavam com euforia: "eh, cão, eh, cão", enquanto a desgraçada fugia rumo ao boraco!

O nosso Fojo do Lobo

Foi esse o dia que tive perto de mim, a 10-15 metros, o lobo "mau", por duas vezes. Da primeira, fiz tanta algazarra que voltou rumo à corga das Forcadas, depois, sobre o fogo intenso dos que vinham pelo Curral do Pai, voltou a correr em minha direcção, cravou os olhos nos meus e disse: "um de nós vai ficar mal, Ventor"! Foi dessa segunda vez que o Ti Zé Ribeiro, correndo em meu auxílio, apontou a sua espingarda de carregar pela boca e lhe acertou com os pedaços de ferro de um pote velho, no lombo do lobo (depois de morta vimos que era loba), ela desviou-se para a minha direita e iniciou a corrida na direcção que não devia, rumo ao buraco do Fojo. Ela corria por dentro do muro e eu por fora, pedindo a todos os santos para a tirar de lá. Sempre que passo naquele sítio, vejo os olhos da loba cravados nos meus. Se fosse hoje teria arranjado maneira de ela fugir para os lados da Brusca e nunca mais a viam!



No monte da parte superor direita desta foto, de manhã, vimos o primeiro lobo nessa montaria. Pela sua cor, podeira ter sido a loba rabicha, morta mais tarde

Foi tudo isso que me levou a pensar, desde então, que os lobos e os homens devem continuar a caminhar juntos na bela serra de Soajo e ficarmos a recordar tudo aquilo, como um monumentos aos nossos antepassados e aos lobos que tombaram nessas lutas inglórias.

É por isso que eu gosto de ir à Pedrada e levo sempre na minha caixa craniana uma vontade enorme de voltar a ver, por lá, mais um lobo, mais um amigo que, tal como os outros, nunca mais esqueceria.

Continuo a viver essas esperanças! A esperança de voltar à Pedrada e a esperança de voltar a ver mais um lobo por lá.

Tenho esperança que a minha máquina me ajude nessa busca.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Soajo, o Desastre dos Incêndios

Os incêndios, são uma tormenta para as pessoas e seus bens;


Os incêndios, são uma tormenta para os animais domésticos, para os animais selvagens, para a flora, para ...

(Deixo-vos algumas fotos, dos fogos de Soajo, aqui, no Shutterfly)

Todos sabemos, estamos fartos de o ouvir dizer, que a maioria dos incêndios, pelo menos, muitos incêndios, são fogos postos ou então, as autoridades suspeitam disso. Também sabemos, porque fartamos-nos de o ouvir, nas TV's e companhias, que as autoridades vão apanhando suspeitos desses fogos postos.



As fraldas das minhas Montanhas Lindas, são devoradas por chamas assassinas, há 8 dias. São 8 dias de tristeza, de sofrimento de pessoas, de animais, de tudo que resiste em volta dessa fúria demoníaca.

Como já todos sabemos isso, mais ou menos, até temos um Ministro especialista a fazer as comparações de incêndios, referentes aos últimos anos e para ser franco, por essas comparações tão assíduas e por tantas outras coisas desse e de outros ministros que me vão exaucrinando os ouvidos é que eu tanto lamento pelo futuro deste país. O tal país que todos ouvimos falar que foi, porque eu não vejo que o seja, talvez na Idade Média ou no tempo da Idade da Pedra, à beira mar plantado!

Por isso, por sabermos já de tudo ou quase, sobre incêndios, eu vou falar aqui dos que me tocaram mais de perto, aqueles que, tão tristemente, vão destruindo tudo, pelas minhas Montanhas Lindas.



Quando, no sábado,  chegamos a Soajo, vindos de Castro Laboreiro, para rumarmos a Lisboa, encontramos a continuação da acção destruidora deste fogo que durava há oito dias. Saímos de Lisboa numa 2ª feira e ele tinha começado no sábado anterior e partimos com ele em plena fúria, após actos contínuos de reacendimento segundo ouvimos às autoridades

Quando saí da minha casa, caminhando rumo a Norte, levava na minha bagagem as tormentas dos incêndios, que preocupam todos mas, dois deles, preocuparam-me por todo o caminho: "o incêndio de Soajo e o incêndio da Mata de Cabril".

Quando, pela tarde, chegamos a Soajo, embora que, em lume brando, as fumarolas, os cheiros a queimado, a escuridão da área ardida ainda lá estavam. Era segunda-feira, à tarde, e nós seguimos rumo ao Hotel da Peneda.

Nos cinco dias que se seguiram, sempre que me deslocava, em redor das minhas montanhas Lindas e por terras da Galiza, não perdia de vista as fumarolas de Soajo e da Mata de Cabril. Mesmo quando não as via, aquelas zonas do céu, nas suas verticais, mostravam-me as terríficas negridões das fumarolas que subiam, como lá estariam as coisas e como tais incêndios causam tanto mal.

Enquanto os meus olhos reparavam nessa escuridão do horizonte elevado, rodando rumo a Caminha, a Baiona, na Galiza, e mais tarde rumando para Melgaço, em direcção a Castro Laboreiro, a minha alma ouvia lá longe, os gritos de tudo o que morria à passagem das terríficas labaredas. As flores dos montes de Cabril, na serra Amarela (eu gosto de tratar os bois pelos nomes) e das fraldas das minhas Montanhas Lindas, no lado oposto, gritavam quanto podiam pelo socorro do Ventor! Junto com os gritos das flores, das árvores, dos matos, chegavam os gritos de todos os outros seres vivos, os pássaros em fuga, os gafanhotos, os besouros, os coelhos, os lagartos, as lagartixas, ... tudo! Mas o Ventor nada podia fazer e nem tinha como ajudar! Ao cair da noite, junto de uma terra chamada Alcobaça, situada, algures, entre Melgaço e Castro Laboreiro, eu via lá longe as labaredas a destruir tudo, enquanto a noite descia.




Na nossa caminhada da Barragem de Lindoso (onde os Canadairs iam abastecer-se de água) para Ponte da Barca, assistimos à azáfama daqueles que se empenhavam nessa luta sem tréguas, para debelar a hidra de cabeças sem fim. Este helicóptero abastecia-se de água na barragem de Touvedo e ia despeja-la, tanto quanto possível, sobre uma das cabeças da hidra que caminhava diabolicamente rumo ao berço do Ventor - a sua Assureira e Adrão

Durante a minha caminhada pela Pedrada, ao chegar ao Muranho, uma ave espavorida, que eu nunca tinha visto, pelas minhas Montanhas Lindas, passou sobre a gente e foi pousar bem cansada sobre uma moita de urze, junto da Celeste. Eu caminhei para lá, com a máquina em posição de fotografar, mas ela, aterrada, levantou voo em direcção do sol e as duas fotos que lhe tirei, não dão para a identificar. Aposto que essa ave sentia que o seu mundo estaria para acabar!

Depois, mais tarde, na Portela de Baixo, frente à Fraga da Nédia, estive a fotografar os Canadairs que passavam sobre os montes de Paradela para se abastecerem de água na barragem de Lindoso, para despejar nas labaredas que teimavam em queimar tudo que existia em volta de Soajo. Mas nada podia deter as chamas! A noite ia cair e os Canadairs iriam deixar de poder operar e tudo iria recomeçar. Na sexta-feira tudo continuava como na véspera. Saídos de Castro Laboreiro, rumando a Arcos de Valdevez, os bichinhos e as flores que o Senhor da Esfera colocou nas minhas Montanhas Lindas, continuavam espavoridos e, muitos deles, a serem devorados pelas chamas.



Os Canadairs, abasteciam-se na Barragem de Lindoso e despejavam as águas, incansàvelmente, nas várias cabeças da hidra 

No sábado, quando estávamos de partida, rumo a Lisboa, sem desprimor para a tarefa árdua dos bombeiros, concluí que não valia a pena lançar os Canadairs e os Helicópteros contra as chamas devoradoras e insaciáveis de matos que tentam sobreviver à morte, morrendo e revivendo, deixando no seu espaço, em tempos de secura, autênticos barris de pólvora.



Pelo menos, um dos Canadairs era francês, creio que a França enviou dois e eles, religiosamente, faziam a sua caminhada de vai-vém entre a Barragem e as zonas dos incêndios, procurando tirar o maior rendimento possível da sua acção sobre a hidra

Tanto quanto me pareceu, os Canadairs, ou outros aviões que haja por aí, para apagar incêndios, ou actuam imediatamente ou, chegando tarde, a sítios como os montes do Parque da Peneda-Gerês, tornam-se, na prática, inúteis. Eles iam carregar água na barragem de Lindoso e descarrega-la, logo ali, ao lado, nos montes de Soajo. Mas, no seu vai-vem, mal despejavam a água, quando regressavam, e olhem que é bem perto, já o fogo devorava a água e tudo onde ela tinha caído.

Eu não percebo nada disso, nunca fui bombeiro embora já tenha apagado incêndios, nos tempos que os matos não eram pólvora, acho que em fogos como os de Soajo e de Cabril, dois Canadairs e helicópteros, nada podem fazer! Como não há mais, ouvi dizer na Rádio que vieram dois de Itália e dois de França, ou então foram notícias confusas, mas sei que um dos dois Canadairs que actuaram, em Soajo, no sábado, era francês. Para um fogo como o de Soajo, para debela-lo logo no primeiro dia, eu penso que só com quatro ou seis Canadairs. Depois, nem uma dúzia. As labaredas levam tudo à frente. Não é por acaso que alguém dizia: "quando julgamos que está tudo apagado ele reacende-se"!



Assim, enquanto na minha caminhada pela Pedrada as rainhas das Montanhas me perguntavam porquê (?), as flores me sorriam, inocentemente, sem se aperceberem do horror que as espreitava lá de longe

Eu pergunto: "reacende-se ou há alguém que não o quer ver apagado"? Pelo que ouvi, é uma pergunta com cabimento! Nós passamos na estrada de Soajo para Arcos de Valdevez e vimos gente de várias corporações de Bombeiros deste país, estacionados na área do Mesio. Outros encontramos pelo caminho, rumo ao mesmo destino.

Mas quando saía de Adrão e vi, lá em baixo, os montes dos dois lados do rio de Adrão a arder, pensei que nada iria escapar. Partindo do fundo de Soajo, já nos arrabaldes do velho moinho da Trapela e de Ramil, as chamas devoravam tudo. O meu pensamento foi que não haveria Canadairs que protegem-se a nossa Assureira. Os carvalhos da Assureira iriam arder todos e, com eles, os melhores tempos da minha vida!

Ainda hoje não sei onde o fogo foi detido e quantos Canadairs foram utilizados, mas olham que, se há matos pólvora, aqueles matos devem ser o mais perfeito que há! 

Estive lá em 28 de Agosto de 2006 e, este ano, a pólvora já estava com mais 4 anos de crescimento e de secura em cima.

Voltarei aqui para vos continuar a falar dos incêndios e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, agora, mais uma Maravilha Natural de Portugal!|


sábado, 4 de setembro de 2010

Da Pedrada ao Muranho

No Alto da Pedrada tinha de fazer opções: voltar a fazer o inverso da caminhada, descer até ao Fojo do Lobo de Gorbelas (Brusca, Seida, ?) ou, então, descer pelo lado inverso, na direcção de Arcos de Valdevez e, visitar o Fojo do Lobo cujo buraco se dirige para os montes de Travanca/Mesio e julgo chamarem-lhe o Fojo de Covas (mas, como as minhas gentes chamam vários nomes à mesma coisa, não sei). E, como seria razoável, decidi por este porque, nunca tive oportunidade de fotografar o seu buraco, devido ao matagal onde se integrava.

(Deixo-vos algumas fotos, aqui, no Shutterfly)



Um troço do muro do Fojo do Lobo de Covas. O seu braço esquerdo dirige-se, na direcção do Monte Gião, desde próximo do Alto da Pedrada, junto ao Palácio da Dourada, o Cortelho onde a vaca do ti Joaquim Brasileiro entrava para dormir a sesta

No Alto da Pedrada, cerca das 13 Horas, o vento parecia apostado em enviar-me pelo ar, rumo a Arcos de Valdevez. Soprou bem, dirigido de Castro Laboreiro e até me ajudou na descida. Lá fui rumo aos muros do Fojo que se vêm lá em baixo e cujo muro esquerdo começa, mais ou menos, no centro do Outeiro Maior, quase junto ao cortelho onde, a vaca do ti Joaquim Brasileiro, com o nome de Dourada, costumava dormir as suas sestas. Disseram-me, e eu acredito que, a Dourada, era a única vaca que tinha a mordomia de ter o seu Palácio na Pedrada.



Lá ao fundo, o Monte Gião a arder mas, na sua rectaguarda, quem vai de Ermelo para os Arcos de Valdevez, o fogo parece aterrador

Lá fui descendo e, num certo local, o telemóvel tocou. Era a minha companheira que, com a irmã e o cunhado almoçavam num tasco, em Arcos de Valdevez e, mais estavam apostados a exaucrinar-me com os seus belos pratos e bebidas frescas, enquanto eu, feito lobo solitário, continuava a descer rebocado pelo vento, sedento, sem água e com duas cervejas quentes como o caldo, enfiadas na mochila!



Algures, escondido no mato, fica o buraco do Fojo do Lobo de Covas

Fui mesmo até ao fundo do muro, ao ponto de avistar o buraco ou melhor, o local onde ele deve estar. Quando verifiquei que, descendo mais cerca de 100 a 150 metros, o meu buraco não se mostraria à minha máquina, nem esta tinha possibilidades de o rebocar até mim, desisti!

Inverti a marcha e observava o horizonte bem junto ao nariz, o que me indicava que teria de trepar muito, para chegar lá cima. Não ao cimo da Pedrada mas à cota do Olheiro do Avô, para torcer para a Corga da Vagem onde, aí sim, mataria a sede, não com água, mas com uma das garrafinhas superbock que me tinham carregado todo o trajecto. Trepando de rocha em rocha, cheio de sede e cheio de calor, cada vez mais me parecia encontrar o objectivo mais longe. Ainda me voltei para trás e tirei as medidas às encostas que me poderiam levar até ao Mesio, tentando descortinar velhos trilhos e vi uma galanta que, de cabeça no ar, me observava como que a fazer-me perguntas.



Ainda pensei seguir a minha caminhada rumo ao Mesio, mas inverti a marcha com o horizonte, bem acima da minha cabeça. Para baixo os santos e o Vento soprando de Castro Laboreiro, deram uma ajuda, mas agora? Agora, rebocar o atrelado!

Por fim quase me pareceu ouvi-la! "Trepa essas rochas Ventor, olha o vento e o fogo no Monte Gião"!

E era! Era aterrador ver as belas áreas de biodiversidade nas minhas Montanhas Lindas contorcerem-se nas chamas do horror. Como eu saberia tratar de todos esse selvagens que, propositadamente, deitam fogos no meu berço e por esse mundo fora. Há dias, que observava o fogo de Cabril, desde todos os recantos por onde caminhva, os fogos de Soajo, do Gião e outros que encontramos pelo caminho. Toda aquela visão dos pontos mais altos das minhas Montanhas Lindas se tornava macabra a meus olhos.



Foi aqui que o Sardão, mal enjorcado, me gozou! Força Ventor, força. Costumas dizer que subir não custa. Eu vou aqui para uma sombrinha, que me assustaste! E foi mesmo! Incrédulos ele e eu!

De repente, senti rastejar a meus pés algo que ainda não via e me tirou daquelas visões horrorosas das labaredas. Liguei a máquina e apontei-a mas, não deu tempo para disparar. Um lagarto, daqueles que nunca tinha visto, deu-me a oportunidade de o olhar antes de se meter debaixo da rocha. Era um sardão semelhante a muitos outros que já por ali tinha visto. Só que, este, não era esbelto como os meus sardões conhecidos. Era todo verde escuro, pernas grandes, grossas e rasteiras, um corpo curto e cilíndrico, bem grosso e uma cabeça grande quase metida entre as patas dianteiras.

Pensei em ficar por ali até ele voltar a sair e me desse tempo para atingir o meu objectivo - o Fojo, sobre a Coroa, onde a minha gente me largara às 10 horas da manhã.



O nosso frigorífico! Na nascente da Corga da Vagem, gelei esta cervejinha, a minha safa!

Mas a sede era muita e a distância não era pouca até chegar ao nosso "frigorífico" - a nascente da Corga da Vagem. No Olheiro do Avô ainda havia água nos lamaçais pisados pelas vacas, mas não dava para beber. Por isso dei mais uma aceleradela até à Corga da Vagem. Ali encontrei algumas "Rainhas das Montanhas", levadas pelos mesmos desígnios que os meus - beber. Eu podia arriscar beber a água, mas estava quase estagnada e, tal como na Naia, seria palco de sapos e râs. As duas cervejas que reboquei, durante horas, serviam exactamente para estes momentos. Os momentos de desilusão proporcionados pelas secas.




Parti rumo ao Alto da Derrilheira, virei-me para trás e vi ficarem as nossas rainhas da Montanha descansando com a barriga cheia de água 

Cerveja para o frigorífico, máquina a disparar sobre as nossas "Rainhas das Montanhas", os tira-olhos, as flores, ... e, num ápice, lá estava a cervejinha saída da mais bela "caixinha" onde o metal e a electricidade nada mandam.

Depois, caminhei da Corga da Vagem até ao Alto da Derrilheira, sempre observando os fogos, os Canadairs, os Helicópteros e, certamente, a esperanaça de quem dirigia essas belas máquinas, em debelar os monstros proporcionados por Vulcano. No Alto da Derrilheira, tudo faz mais sentido! Dali vejo e fotografo o meu Berço, o mais lindo berço do mundo, sem desprimor para os Berços dos outros.





Do Alto da Derrilheira tirei muitas fotos e virei-me para a esquerda, iniciando a descida para o Poulo do Muranho. Lá estavam aqueles que deveriam ser os meus companheiros de caminhada. Parece que vou de avião! Este local é, para nós, uma espécie de Santuário. E agora, para nunca o esquecermos, temos por lá, em espírito e em cinzas, o nosso amigo Joaquim - o Pequeno. Nunca o esqueceremos. Um pequeno do meu tamanho! Era Pequeno no nome, porque eram dois primos e se chamavam Joaquins. Para nós eram e ficaram sempre a ser, o Grande (o mais velho) e o Pequeno (o mais novo). Que belos tempos!

Apontei a máquina para a minha esquerda e lá está o Poulo do Muranho, os seus Cortelhos e, algures, entre as urzes, a mais bela das minhas fontes, na serra, onde sempre bebi água! Mas achei que o Muranho estava demasiado colorido. Sacos-camas, chapéus, gentes coloridas e parecia-me que não descortinava quem estaria a mais ou quem estaria a menos!

Mas a sede que tinha aguentado durante horas, estava longe de ser sanada com uma garrafinha de cerveja. Desci da Derrilheira para o Muranho e sempre em direcção da nascente do nosso contentamento. Ali cheguei, meti a outra cerveja na friza, enchi o meu célebre copo de plástico de água pura e gelada e comecei a perceber porque, por ali, estou sempre Pertinho do Céu!




Os amigos, separam-se, perdem-se, reencontam-se e arrajam-se outros! Este casal de franceses, encontrados, em Soajo, pelo Zé Manel, queriam ir conhecer as nossas Montanhas Lindas e não podiam arranjar melhor companhia que a rapaziada de Adrão. Aposto que nunca mais esquecerão o Muranho, a Pedrada e o Fojo do Lobo de Gorbelas, da Seida, da Brusca, como quiserem! Ele está no centro disso tudo!

Olhei para o lado, junto da nascente, e vi uma panela. Seria a panela do grande cozido para o Luis, o António, o Zé Manel e, vim a saber depois, para um casal de franceses, filhos da França, que ali estavam com eles e queriam conhecer as nossas Montanhas Lindas.

Tanto quanto sei, o Zé Manel encontrou-os em Soajo e ter-lhe-ão perguntado algo sobre as nossas Montanhas Lindas e ele, filho de Adrão e dos Arcos, disse-lhes o que iriam fazer no dia seguinte e convidou-os a acompanha-los se realmente os interessava. E assim foi!

Sorrisos que eu colocarei aqui se eles voltarem a aparecer e se me permitirem.



O adeus do António, em pleno Muranho. Para o Ano, se o Senhor da Esfera o permitir, assim o espero, lá nos encontraremos 

sábado, 21 de agosto de 2010

Da Naia à Pedrada

Depois daquele diálogo com o sapo da Fonte da Naia e o outro lá atrás a registar tudo, pois logo que me viu, saltou para dentro de água para iniciar a sua máquina e tomar nota do diálogo entre o outro e eu, despedi-me deles e iniciei a caminhada até à Ferrada. Fiquei um pouco embaralhado quando descobri lá, todo refastado, a apreciar as belezas dos seus trajectos e as brandas dos rouceiros, o Jipe do Zé Manel com uma guarda de honra de meia dúzia de cavalos garranos.

(Deixo-vos algumas fotos, aqui, no Shutterfly)




O Gipe do Zé Manel descansava, na Ferrada, pois, a subida do Muranho, custa também aos jipes!

Observei tudo em volta e, nada mais via que não fossem as paisagens, os cavalos e as vacas, além do jipe. Iniciei, então, a subida rumo ao Muranho e olhem que não foi nada fácil! Cada vez estou mais enferrujado para estas coisas, mas não é nada fácil, sofrer da coluna, cavalgar 168 cavalos de uma só vez, todos os dias de manhã à noite e, depois, armado em pimpão, querer, como nos velhos tempos, subir aqueles montes com caminhada em passo marcial.

Lá cheguei ao Muranho e, como a caminhada não tinha a celeridade que eu pretendia, fui procurando, pelo caminho, um salgueirinho que lá encontramos o ano passado, mas nada!



Esta galanta já terá ouvido falar do Ventor mas, certamente, nunca o terá visto por ali. Quem sabe?

Junto dos cortelhos do Muranho, verdadeiros monumentos, cheio de sede, notei outros rastos do meu Maralhal, mas eu queria era a fonte. Aquela bela nascente do nosso contentamento. Fora da porta do cortelho, haviam sinais da presença dos novos suevos do séc. XXI. Ainda pensei que algum ficasse por ali com birrice em acompanhar o meu amigo Apolo até à Pedrada, mas eles tinham saído cedo. A hora marcada era às 6 da manhã em Adrão e, mesmo que, houvesse algum atraso, eles tinham sobre mim uma vantagem de 3 a 4 horas. Se cumprissem a hora, o Luís saiu de Ponte da Barca às 5 da manhã, eu saí do fojo às 10, era um tempo abismal mas chamei se estava alguém na escuridão do cortelho. Nestas coisas, quase sempre há cansados, mas não. O único cansado era o Tomé, o cão do Zé Manel. Espreitei o Cortelho e lá estavam duas lanternas vermelhas - os seus olhos.


Os cavalos já conhecem o jipe e, como tal, esperam que o forasteiro siga o seu caminho e deixe o jipe descansar. Esperam chegar, junto dele, primeiro que o Ventor!

"Que fazes aqui Tomé"? 

«Olha, durmo, se me deixares"!

"Que é feito dos gajos"?

«Deixaram-me a dormir na Corga da Vagem à sombra das urzes. Partiram e não me chamaram! Quando acordei e não os vi, não segui o rasto, apenas os mandei à fava e voltei para aqui, este belo palácio, onde a sombra é saborosa»!

«Chegaram à Corga da Vagem, onde as horas não contam, só conta o desgaste da subida e, ainda muito cedo, lançaram garras ao farnel e eu achei que era tempo para arranjar um pouco da vida de cão e fui fazer o que mais gosto. Encostei-me à sombra de uma urze e esqueci a algazarra dos gajos. Adormeci! Ao acordar não vi ninguém e, não estive com meias medidas. Tirei a bússola, analisei o terreno e, regressei, rumo ao Muranho. Agora, aqui estou, nesta fresquinha toda, só para mim! Se fosse a ti deixava-me ficar por aqui porque iniciar essa subida com este calor só de lobo doido. A Pedrada é sempre a mesma e não sai do sítio».



Este cavalo observa a caminhada dos companheiros depois de ter dado as boas-vindas ao Ventor 

"A Pedrada não sai do sítio, Tomé, mas eu gosto de a ver lá parada a espreitar sobre os outros cabeços e eu gosto de espreitar de cima dela, tudo em volta. Fica bem Tomé e vai sonhando enquanto dormes porque, quando eu voltar, ainda vais estar aqui»!

Voltei a olhar a subida do Muranho à Derrilheira. Era quase meio dia, estava calor e continuei a caminhada até à fonte. Bebi dois copos cheios de água gelada, acabadinha de sair da "friza" e lá reiniciei mais um troço da minha caminhada.

Com um andar sarronco, deixei de lado o troço que seria, com um pouco de vontade para jipes e caminhei sobre o mato, em subida mais íngreme e mais curta. Não me desviei para o Alto da Derrilheira, deixei isso para o regresso e rumei à Fonte da Corga da Vagem onde cheguei às 12:41, depois de fazer uma inspecção a uma das flores que nunca tinha visto na minha serra. Apenas o ano passado, em 9 de Agosto, a encontrei na Fonte das Forcadas e, como seria de esperar, fotografei como uma das maravilhas deste mundo. Este ano encontrei-as um pouco antes de chegar à fonte da Corga da Vagem. Foi um fotografar!

A Fonte da Corga da Vagem, nas minhas Montanhas Lindas

Não bebi água! A sede era muita, mas a fonte estava quase estanhada, lembrei-me dos sapos da Naia e desisti. Enquanto transportava as minhas duas cervejas às costas, quentes como o caldo, ninguém tivesse pena de mim. Quando regressasse ali, meteria uma cerveja na "friza" e depois de bebe-la, eu estaria preparado para voltar ao Muranho onde, aí sim, voltaria a matar a sede. 

Tirei fotos às minhas flores azuis, às vacas deitadas no Cabecinho, e no poulo acima e, dirigi-me corga acima, onde encontrei a refrescar uma garrafa de vinho, no meio da água a fazer-me um convite de boas vindas. Puxei-a com o cajado que levava feito à pressa na Portela e, para meu azar, tive pena do dono ou donos da garrafa e desisti dela. Quem sabe se para o ano eu vejo por aqui fotos dos mesmos exploradores de petróleo ou outros!

Em caminhada acelerada, tanto quanto podia, debaixo de um sol quente, mas não escaldante, talvez como os américas a sair do Iraque, dirigi-me à Fonte das Forcadas onde, este ano, não haviam as minhas belas florzinhas azuis encontradas o ano passado, nem escorrichavam da terra as primeiras águas da Corga da Vagem, este ano nasciam mais abaixo, torci à esquerda, caminhei no espaço do meu sonho com os lobos e, sem nevoeiros como no sonho, dirigi-me, encosta acima, por entre jovens urzes renascidas após o fogo de 2006, até ao Outeiro Maior - a Pedrada.

O marco geodésico no Outeiro Maior - o Alto da Pedrada

Fotografei tudo em volta e, mais uma vez, e outra, e mais outra, e ... fui observando os malfadados fogos que queimavam as raízes das minhas Montanhas Lindas, lá por baixo, nas encostas de Soajo, junto ao rio Lima, no Gião, na serra Amarela (a mata de Cabril), e fumos espalhados sei lá por onde. Uma pena, uma tristeza, uma vergonha! Depois, ali, só, no pináculo do meu mundo, onde o telemóvel não serve para nada, tal como o lobo solitário, pensei na próxima tarefa e onde ir matar a sede. Duas cervejas eram a minha reserva!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Como um Lobo Solitário

No dia 12 de Agosto, neste ano de 2010, levantei-me muito cedo no Hotel de Castro Laboreiro. Espreitei pela janela e, grande desilusão, as nuvens, bem negras, voavam no horizonte, bem baixinhas.

Fui tomar duche e, sem esperanças, aperaltar-me para, se o tempo me deixasse, realizar a minha esperada caminhada à Pedrada. Quando tomava duche, pensei na hipótese de, se a chuva caísse, mandasse para casa os bombeiros que exaustos ou não, lutavam contra os fogos que lavravam nas suas fraldas.

Descansadamente, sem pressas, convenci-me que não haveria caminhada mas, depois de tomarmos o pequeno almoço no Hotel e de beber mais um café, junto ao Restaurante Miradouro, tive uma sinfonia de corvos, monte acima, a dizer-me que, fosse como fosse, mais um dia se iria passar.

Já tarde, iniciamos a viagem, rumo à Peneda e, olhava o céu onde farrapos de nuvens dançavam para mim, nos cabeços de Castro Laboreiro. Mas as notícias, na rádio do carro, não eram boas! Soajo continuava a luta contra os incêndios. Mau, mau, mau .... pensava eu, baixinho. Trocava a minha ida à Pedrada por uma valente chuvada que acabasse com estes incêndios. Passamos a Peneda, Rouças, Tibo e atravessamos a Portela de baixo, rumo a Adrão. Chegamos ao Fojo e disse: "fico aqui"!

Seguiram rumo a Arcos de Valdevez mas antes, ainda conversamos com um amigo que nos pareceu esfomeado. A minha companheira, que adora animais, assaltou-me o farnel para dar um quinhãozito dele a esse amigo que, se calhar, alguém terá abandonado por ali. Comeu quase todo o resto à noite. Cego de um olho e com dois buracos na garganta feitos por uma dentada. Ele subiu comigo até à Portela, mas eu desencorajei-o a acompanhar-me porque, lá em cima, andaria o Tomé, o cão do Zé Manel e, possivelmente, haveriam lutas desnecessárias. Junto ao Cruzeiro da Portela de Cima, com vistas para Adrão e para a Senhora da Peneda, ele entendeu e lá ficou para trás.



O Cruzeiro da Portela de Cima, entre Adrão e a Senhora da Peneda

Segui só! Só, tal como um lobo solitário!

Se há coisa neste mundo que eu goste, é ver as rainhas das montanhas a observar-me, firmando a vista, de cabeça levantada, não vá ser o seu dono que as procure.

Quando passei as Lameiras, calculando que só tarde iria encontrar os meus amigos, pois levava três a quatro horas de atraso, troquei o estradão dos jipes por uma caminhada nos horizontes da Corga Grande, até ao Penedo do Osso, sempre com Adrão à vista, pela minha esquerda e os fumos de Cabril, no horizonte oposto e os de Soajo, lá no fundo.

Ao chegar ao Penedo do Osso, das quatro vacas que ali se encontravam, houve uma que caminhou ao meu encontro alguns 100 metros e orneou. Falei com ela e ela serenou. Parecia dizer-me: "já vi que não és o meu dono e que nunca mais os vais apanhar"! 


Uma galanta, nas minhas Montanhas Lindas

Rumei, então, à Fonte da Naia, já cheio de sede, pois o calor era bastante e a pujança da caminhada era fraca. Observava cada pedra, cada moita que, devido ao isolamento, conseguira escapar ao incêndio de 2006. Sempre que caminho nos meus montes, sinto-me rodeado de gente! É essa a minha sensação. Nunca estou só! Ao chegar à Fonte da Naia, saía alguma água por cima da pedra que o Luis e o António estiveram a arranjar o ano passado e, a outra saía por baixo. Mal a olhei, vi saltar um sapo e outro, talvez uma princesa do mundo das fadas, ficou a conversar comigo:



Uma princesa encantada na Fonte da Naia

"que fazes aqui Ventor? Tu não vais beber água porque tens nojo de mim? Podes beber, Ventor, eu não sou tão peçonhenta como tu sempre ouviste dizer. Eu sou um anjo nas tuas montanhas lindas! Eu sabia que tu vinhas aí e sabia que tu irias mudar de rota só para me veres. Tu não estás a ver um sapo, Ventor! Tu estás a ver uma Ninfa das Fontes! Tal como viste nas Fontes, no Sítio do Quico. Aquelas rãzinhas que viste nas fontes eram as ninfas que tu viste quando sonhaste. Elas lá e nós cá, caminhamos sempre acompanhando o Quico. Tu sabes bem, Ventor, porque o trouxeste para cá! Sabes porque decidiste leva-lo para a fonte da tua meninice. Tu conheceste essa fonte de cueiros e bebias água sempre que lá passavas. Por aqui, só mais tarde conseguiste caminhar, olhar-nos e, posso mesmo dizer, aparentemente, adorar-nos! Nós fazemos parte de ti Ventor! Tu, as nossas Montanhas Lindas, as nossas fontes, o Quico e, muito mais, somos os guardiões desta bela serra a que outros, uns asnos, já dão outro nome, mas que para nós, será sempre a serra de Soajo. Tu vais viver sempre aqui, Ventor, connosco. Nós somos quem vela pela fonte da Naia"!

domingo, 15 de agosto de 2010

Um Abraço

Um abraço com quarenta e tal anos de lonjura.



Adrão, visto de junto ao Cruzeiro, na Portela de cima, 12 de Agosto de 2010

Eu e o António, o filho do meu amigo Bernardino e da Elvira, abraçamo-nos. Foi um abraço que enrodilhou quarenta e tal anos sem nos vermos! Mas a pinta é a pinta e a pinta do meu amigo Bernardino, está estampada na cara do seu filho!

Um carro descia a Quelha da Costa e, no sítio das despedidas e dos reencontros, parou, olhou e saiu. Olhamo-nos e, depois da surpresa, abraçamo-nos.

Não sei quando nos voltaremos a ver ou, até, se nos voltaremos a ver, mas se não nos voltarmos a ver, seria muito bom que tivéssemos mais quarenta e tal anos de desencontros e mais um encontro semelhante a este. Só que, agora, neste mundo das novas tecnologias, não haverá espaço suficiente para nos voltarmos a perder, se nós não quisermos.

Provavelmente, António, quando chegares aos Estados Unidos, ao abrires o meu Blog, verás que és tu que abriste as minhas caminhadas de 2010 pelas nossas Montanhas Lindas. Eu costumo dizer as minhas Montanhas Lindas mas, eu sei que tal como eu, todos vós terão o coração a bater na esperança de, um dia, voltarem a ver, se não a Pedrada, pelo menos o Alto da Derrilheira, cá de baixo.

Um dia, muitos anos atrás, ainda tu só conhecias o nosso lugar de Adrão e as nossas Montanhas Lindas, eu li, algures, que o Fugi Ama era a Montanha Sagrada dos Japoneses (Montanha Sagrada?) e, nessa altura, nem me passava pela cabeça que, mais tarde, a Derrilheira e a Pedrada, viessem a ter, para mim, o mesmo significado.


Adrão, visto do cimo da Corga Grande, 12 de Agosto de 2010

Levei muitos anos para compreender os japoneses! Mas não tenho dúvidas que, mais alto ou mais baixo, todos os homens ou, quase todos, temos o nosso Fugi Ama.

Podem chamar a tudo isso, saudades, podem chamar-lhe nostalgia, mas seja porque motivo for, o nosso coração fica sempre para trás, retalhado. Por isso, tal como o Júlio Iglésias canta a sua Galícia, eu também canto a minha: «Tenho Morriña, tenho Saudades»!

Gostei muito de te ver, António. Vim a saber que tiveste alguns problemas de saúde, pela América. Espero que o Senhor da Esfera te dê, de agora em diante, a alegria e a saúde que, um dia, te terá tirado.

Já me recordo com quem a tua esposa me era parecida. Conheci uma moça de Braga, também há quarenta e tal anos; chamava-se Adelaide e já não me lembrava, mas se não há laços familiares, há, de certeza, uma parecença inconfundível. Levei tempo, mas cheguei lá! A última vez que a vi, foi na velha "Lourenço Marques", actual Maputo, em Moçambique, em 1970, onde tive uma "guarda de honra" de gente amiga e, entre todos, a Adelaide, que nunca mais vi.

Espero que façam uma boa viagem para a América e obrigado meu amigo, porque eu sei que estavas sempre a perguntar por mim à minha mãe. Ela estava sempre a dizer-me: o A, o B, o C, o ... já aqui estiveram e foram-se embora, com pena por não te conseguirem ver e não irem contigo à Pedrada. Também o ti Avelino, com tantos anos nas pernas, queria ir comigo à Pedrada!


O encontro, ao cair da tarde, no Muranho. Eu, o Luís e a esposa, o António, um casal francês (que apareceu por cá, turistando, com vontade de caminhar nas nossas Montanhas Lindas, teve a sorte de encontrar o Zé Manel, em Soajo que resolveu partilhar com eles essa bela caminhada, encontramo-nos, pelas 17 horas, no Muranho. Mais tarde, encontrei o Zé Manel a tratar do jipe, mais em baixo, na Ferrada. Espero que tudo esteja bem com o Jipe, Zé Manel

Ultimamente, tenho tido alguns companheiros nessas fantásticas caminhadas. Para todos eles o meu abraço, sem esquecer o Tomé, o cão do Zé Manel. Desta vez voltei a caminhar por lá como um lobo solitário. Ao chegar ao Muranho, lá estava o Tomé, dentro do cortelho, deitado no escuro onde me apareceram aqueles olhos vermelhos. O Tomé olhou-me com aquelas lanternas vermelhas do meio da escuridão do cortelho e disse-me: "não penses que sei deles! Eles, tal como tu, têm a mania que são lobos mas eu não. Eu sou cão! Voltei para trás e deitei-me aqui ao fresco e, entretanto, sempre tomo conta das coisas! Deixaram-me a dormir na Corga da Vagem, partiram e nem me disseram nada"!

Achei piada porque o Tomé só me viu o ano passado e conheceu-me! Nem um ronco, nem uma ladradela! E imagina tu que tinha lá os belíssimos ingredientes para fazerem um cozido à portuguesa!

Voltarei a falar aqui das minhas caminhadas de 2010, pelas nossas Montanhas Lindas e mostrarei algumas fotos.

Um abraço a todos.