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segunda-feira, 22 de maio de 2006

Adrão, a Rodada

Recebi uma visita de um amigo novo, mas não consegui ler pois era uma mistura de html e escrita corrente, enviada via America Online. Como a gente de Adrão já tem conhecimento desta nossa página, vou coloca-la aqui também no blog sobre Adrão, pois esta é mais um pedacinho da vida do Ventor e da sua gente.

Um abraço para ti Alexandre. Acho que captei o teu e-mail.

Esta foi a história que o Ventor me contou dos seus tempos de menino:

«Quando o ventor era pequenino, Adrão era uma aldeia que tinha bastante gente, desde jovens a velhos e apesar de muitos homens partirem cá para a zona de Lisboa e as mulheres ficarem lá pela aldeia, eles iam lá fazer os filhos. Por princípio, iam passar o Natal a casa e depois alguns, sempre que podiam, iam lá para acarretar o estrume e lavrar as terras. Chamava-se-lhe, fazer o Maio ou fazer as sementeiras.

Havia ainda outro princípio basilar quando eles regressavam a casa. As pessoas da aldeia, especialmente as mais amigas, mal se constava a chegada de algum, iam encher-lhe a casa para saber da saúde do rapazola e fazer alguma conversa sobre outros que ficavam por cá.

Aqueles que, por qualquer razão não tiveram conhecimento atempado do regresso do felizardo, tinham sempre o local privilegiado para o desejado encontro A Tasca do Carrasco.

Mas fosse em casa, ou na Tasca do Carrasco, haviam esfuziantes apertos de mão, abraços, grandes galhofas e um nunca mais terminar de felicitações, tudo isto, sempre em volta de uma rodada.

O lisboeta regressava e tinha sempre o cuidado de não ferir as tradições da terra. Teria de levar uns cigarros que chegassem para oferecer aos da terra e de pagar umas malgas na Tasca do nosso amigo Carrasco.

As crianças, como o Ventor e outros, muitas vezes não conheciam os regressados, porque saíram já a fazer-se homens e regressavam homens feitos, sem terem tido, ainda, a responsabilidade de ter constituído família e iam passando despercebidos aos seus olhares, mas mal sabiam de quem eram filhos, tinham amigos e tinham também, em todas as situações concretas, a possibilidade de partilhar da rodada.

Enche Manel!

À palavra enche, o Carrasco, como um autómato, pegava na malga e imediatamente se ouvia o abrir da torneira e o escorrer da preferência de Baco, vermelhinho carrascão ou mais rosadinho, lá vinha a malga para iniciar mais uma volta pelos convivas. As malgas, de tanto passarem de mão em mão, algumas já estavam com os rebordos esbeiçados. Sim esbeiçados, porque às vezes apareciam os mais meticulosos a exigir que a malga não fosse esbeiçada!

Mas esbeiçada ou não, o essencial da malga era, sempre, uma rosinha de bolhas redondinhas centrada no meio, que era a cartilha de apresentação da qualidade do vinho, para os puritanos das pomadas do meu amigo Baco.

Eram estas alegrias que davam vida à aldeia para além das vidas do trabalho. Mas, às vezes, as alegrias de ontem tornavam-se nas tristezas de hoje. Nem sempre os que partiram regressaram!

O Ventor recorda-se de um rapaz que andou cá por Lisboa e um dia regressou a casa, cheio de alegria e de vontade de pagar umas boas rodadas a toda aquela gente, pois tinha-lhe saído uns dinheiros na lotaria e, recordo-me bem de dizerem que a ele e a mais dois, lhe coube em sorte, a cada um, segundo diziam, 60.000$00, uma pequena fortuna para a época. O Ventor conhecia os pais dele, dois grandes amigos do Ventor e lembra-se desse filho do ti Silva se casar.

Esteve algum tempo na terra, a gozar as primazias do casamento e depois ele e os outros dois, de outras aldeias, decidiram apanhar o “carreiro da esperança” que ficava nos trilhos da França. Pagou as últimas rodadas na Tasca do Carrasco, despediu-se de todos e lá foi na aventura por trilhos que só ouvira falar - rumo à França.

Algum tempo depois, um telegrama, uma simples folhinha de papel, conseguiu colocar uma aldeia inteira num pranto de tristeza e deixar em total desconsolo, família e amigos. O filho do ti Silva caíra para sempre, nas ruas do medo de uma das mais belas capitais da Europa, Paris, fulminado por tiros da polícia francesa, quando sem saberem ler, nem escrever, nem falar francês, foram apanhados na encruzilhada de uma noite de terror em que era absolutamente necessário obedecer ao recolher obrigatório.

Eles ainda estavam a tratar da sua legalização, em França, e apeteceu-lhes ir passear para les Champs Ellisées, não obedecendo à ordem da polícia francesa, por não perceberem o que se passava e aqueles não perderam tempo a abrir fogo sobre três indivíduos que apenas passeavam em ruas desertas.

  

As malgas, como esta, andavam na roda, passando de mão para mão, por todos os presentes

Dois deles morreram e um deles era, o filho do ti Silva, da aldeia do Ventor. À chegada da notícia, Adrão chorava e o Ventor recorda-se de passar toda a noite deitado e acordado, de olhos pregados no escuro do telhado, escutando a mãe e a jovem esposa viúva, juntas com a família e amigos, gritando de dor e quase não queria acreditar que nunca mais o veria na Tasca do Carrasco, junto dos outros, noutra célebre rodada.

Agora, enquanto vão refrescando a garganta, podem ir caminhando ao lado do Ventor também por aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Bicho da Peçonha

  Ventor 19.10.20

Mais uma história verdadeira que aqui vos deixo. Estes bichos sempre me meteram respeito. Em plena caminhada de fins de uma Primavera linda, dia cheio de sol, de flores, de pássaros de um ano qualquer do tempo que já passou, as gentes de Adrão faziam os seus trabalhos nos campos, atrás das vacas, das cabras, das ovelhas, das galinhas, dos porcos ... Uns sachavam o milho, outros regavam-no, outros tratavam das hortas. Na aldeia, à sombra das latadas ou das casas, um velho aqui outro ali, conversando com outro e, chateados pelo silêncio da aldeia, as galinhas cacarejavam ou cantavam a plenos pulmões enquanto um ou outro galo a solo, replicavam pelos cantos da aldeia. Nestas circunstâncias, muitas vezes a solidão era derrubada pelos cânticos das galinhas, dos galos e do latir de um ou outro cão que se estiravam à porta da casa.

Mais aqui ou mais ali, alguém chegava de uma missão e alguém partia para outra mas o grosso das gentes estava pelos campos.

Era um bicho semelhante a este, o terror da aldeia, para muita gente

Maria, era já uma mulher e partiu para a sua azáfama do momento. Descalça, desce o caminho da Veiga, juntamente com a água da rega que vai saindo do rego, num ou outro buraco aberto pelas toupeiras, ou pelos danos causados pelas passagens das pessoas, aqui ou ali. Ela ia cortar erva para o vitelo. Nesse tempo, o calçado era utilizado conforme os caminhos. Em zonas de tojo, de silvas, de cobras, isto é, caminhar nos matos ou nas bouças, era necessário calçar qualquer coisa, nem que fossem umas alpergatas espanholas. Havia umas alpergatas todas de borracha adequadas para esses caminhos molhados mas não tinha importância, porque era moda as mulheres andarem descalças. Era moda e era poupança, pois era difícil ir buscar o calçado onde quer que fosse, quer dentro de Portugal quer a Espanha e isso obrigava a grande zelo para que esses bens se tornassem muito duradouros.

Para ir a Espanha, onde havia quase tudo, os riscos eram enormes pois a Guarda-Fiscal podia arrestar as mercadorias, depois de um carrego por carreiros de montanhas e atravessar o rio da Várzea, num local terrível a que chamavam o Salto e, cá dentro, a camioneta para Arcos de Valdevez ou para a Ponte da Barca, em dias de feira, apanhava-se em Soajo, hora e meia a pé a andar bem. Nas feiras dos Arcos ou da Barca, comprar as coisas e guarda-las em sítios de confiança, normalmente nas lojas ou alguma casa de gente amiga para não se andar carregado. Depois, ao cair da tarde, juntar tudo e ala que se faz tarde.

Retornados a Soajo, era hora de alombar! Carga às costas ou à cabeça, às vezes já de noite, sempre a subir, com hora e meia de retorno, desta vez muito mais comprida e mais custosa, devido ao carrego e ao cansaço do dia, numa azáfama física e intelectual, pois era necessário guardar na memória o que não era possível colocar no papel, devido ao analfabetismo.

Maria, tal como outras Marias, Rosas, Teresas … lá da aldeia, por falta de dinheiro e também para não passarem por isto, faziam tudo para só, no mínimo de vezes possível, e por grande necessidade, fazerem essa deslocação. Daí, por essas razões e também por hábito, o caminharem descalças em sítios que hoje me faz estarrecer o físico, o espírito e a alma, quando percebo como sítios tão belos instigaram tanto sofrimento.

Peludos ou carecas, metem respeito

Mas eu ia falar do Bicho da Peçonha! Como puderam ver atrás, este bicho era de estaleca, pois a "peçonha" estava sempre presente em todos os momentos da vida da nossa aldeia. No entanto, eu queria falar mesmo do bicho! O bicho da peçonha era um bicho peludo, muito grande, maior que o meu dedo do meio hoje e eu julgo que poderá ser o “catarpilar” de uma mariposa. Para mim era feio, feio a valer, e dava-se bem no meio das ervas pelo fim da Primavera, princípios do Verão.

Como o tempo era sempre curto, Maria apanhou a erva para o bezerro, à pressa e enfeixou-a numa verga de salgueiro, carregou-a à cabeça e subiu pelo caminho, até casa, a ouvir cantarolar a água da rega que saía do rego e escorria pelos caminhos, por entre pedras e tufos de ervas. Ao chegar debaixo da latada do Ti Cortez, junto à fontinha do Cabo do Eido, atirou o molho de ervas para o chão e deu um grande grito! Sentiu uma picada na testa, ficou com uma bolha e começou a avermelhar. Os velhotes que ali estavam sentados à sombra, gritaram: “que tens Maria”? “Tenho uma dor na testa, algum bicho me mordeu”! Todos acorreram a ajudar e no meio da erva toda, apenas apareceu o grande bicho peludo! Dizem que os bichos de onde provêm as borboletas não têm apetite por carnes (terá sido uma vespa?) e eu lembrei-me de muita coisa e dessa pequena história de uma Maria da minha aldeia que era e penso que ainda é Maria. Na verdade eu fugia desses bichos a sete pés e todos que via matava. Hoje, tenho saudades desses bichos, gostava de ver um e não consigo!  E tenho a certeza que não o mataria!

Neste Inverno, início de 2006, observei muitos bichos semelhantes a esses da minha meninice. Cheguei a encontrar alguns desses bichos juntos e outros mais afastados. Não são tão grossos como aqueles grandes bicharocos da minha meninice que colocavam a minha pobre mãe em estado de alerta geral e com pele de galinha por bastante tempo e eu, entre fugir e nunca mais parar ou ir à luta, escolhia esta última e era uma luta de morte para os bichos, porque me diziam que eram bichos da peçonha! Mas tal como então, ao deparar-me com estes velhos companheiros, arrepio-me todo mas, agora, não sinto vontade de lutar. Sinto vontade de apreciar a beleza»!

Agora que já ouviram mais esta história da minha vida, podem reparar nesta outra. Vamos beber uma Rodada à moda de Adrão, o Cão de Castro Laboreiro ou então, passar por Moçambique parando em Nova Freixo.