Rojões na serra de Spajo

Rojões na serra de Soajo

Vejam estes golosos a comer rojões assados na serra mais linda do mundo - a serra de Soajo Assar rojões na serra de Soajo, nos braseiros dos...

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Lobo Ibérico

O Lobo Ibérico

Por vales e montanhas da Peneda e Soajo, caminhando ao lado do lobo ibérico,

O lobo, é um canídeo selvagem. É um animal social, muito hierarquizado e cooperativo e certamente, segundo estudiosos do lobo, o mais inteligente de qualquer outro carnívoro selvagem. Dizem os seus estudiosos que eles adoptam as crias órfãs e alimentam comunitariamente as lobas que dão leite e as crias e dividem sem violência as presas que capturam. Nas alcateias, um lobo é para o lobo dominante como um cão é para o seu dono. Para com as crias o lobo é terno e vigilante como um cão é terno e vigilante para com as crianças da sua gente. A guerra que o homem move ao lobo é devida ao facto de o grande canídeo ser o grande competidor do homem na Região Holárctica. O lobo e o homem, eram antagónicos nas grandes caçadas aos herbívoros. As grandes manadas que pairavam sobre as estepes quando das substituições dos glaciares eram disputadas por estes dois tipos de predadores: homem e lobo. Eram dois caçadores sociais, comunitários e organizados hierarquicamente em grupos que podiam atingir cerca da meia centena de indivíduos organizados que executavam um trabalho combinado na caça a pequenas ou grandes presas.

Mas o lobo tornou-se proscrito quando o homem se tornou agricultor e pastor. Antes do neolítico, os bosques, as pradarias, os animais ... não tinham dono e os animais pertenciam a quem os apanhasse. Com o advento do neolítico apareceu o sentimento da propriedade e da posse dos animais que era alcançada pela domesticação. Assim, o tolerante nómada tornou-se no intolerante vizinho, defensor das suas propriedades e dos seus animais e assim foi pelos milénios fora que o homem ganhou um ódio de morte a este animal que deveria ser seu companheiro de caminhada.

Para termos uma ideia da perseguição movida ao lobo, em 20 anos de meados do séc. XX, só no Cazaquistão, na ex.URSS, foram mortos 208 mil lobos! 208 mil!!! Os lobos foram perseguidos com veneno, armadilhas, matilhas de cães, armas de fogo, helicópteros, aviões e até as famosas águias reais adestradas pelos Quirguizes para a caça. Foram exterminados nas Ilhas Britânicas e em grande parte da Europa. Na América do Norte foram perseguidos até à extinção em muitas regiões (45 estados americanos) permanecendo noutras, especialmente no Canadá. Devido às chacinas provocadas pelo homem sobre a espécie lobo, ele em muitas regiões está a ser levado à extinção e noutras já foi extinto, levando assim os países a adoptar leis de protecção a estes animais. Calculavam os especialistas que em meados do séc. XX haviam em toda a Península Ibérica cerca de 1000 lobos com tendência para acabarem. A primeira nação a proteger a espécie lobo foi a Suécia quando já não chegavam a 30 naquele país. No entanto, na Europa de Leste, Jugoslávia, Polónia e Rússia, ainda haviam uns milhares de lobos em meados do séc. XX.

Caminhando ao lado dos meus amigos nas minhas serras:

As montanhas da Peneda e de Soajo são quase selvagens, relativamente a qualquer exploração. Apenas havia pastorícia e a exploração dos torgos secos (raízes e caules secos das urzes) para fazer o carvão de urze. Estes torgos resultavam das urzes mortas de velhas ou urzes queimadas que ressequiam através dos anos. Era no meio das urzes e das giestais, dos tojos e dos fetos que se escondiam, nos meus tempos de criança, o terror dos homens e dos animais - os lobos ibéricos! Eles saíam das matas e atingiam os cabeços mais altos despidos de matos densos, onde poderiam atacar os animais na sua luta pela sobrevivência ou, então, faziam a emboscada logo à saída da mata de urze, às vezes nas barbas dos pastores, apanhando uma cabra ou uma ovelha que arrastavam para o interior da mata. Nos anos 50, haviam lobos de tal porte que, se acossados, pegavam uma ovelha pelo pescoço e atiravam-na para as costas, subindo com ela um outeiro de grande declive, em plena galopada, e iam comê-la para longe.Claro que não era qualquer lobo que fazia isso. Sabe-se que o maior lobo caçado até hoje, foi no Cáucaso, em 1942, e pesava 96 quilos e o maior lobo caçado na América do Norte pesava 80 kg. No entanto, eu recordo-me das histórias que ouvia, quando era puto, sobre grandes lobos com uma cabeça enorme.

Uma vez, num poulo de relva já seco de fins de verão, no rebordo do qual existiam umas peladas de terra poeirenta, dormia um boi de uma das aldeias das fraldas da serra de Soajo. Um grande lobo, solitário, aproximou-se do boi e este levantou-se. O lobo começou a brincar em volta do boi, diziam os assistentes da festa, dois homens amigos do meu pai. Eles nunca pensaram que o lobo iria atacar um boi tão poderoso e ficaram recatados a ver o que aqueles dois iam fazer. O boi deu uma corrida sobre o lobo e este fugiu para as urzes próximas. O boi ficou a olha-lo. O lobo voltou e o boi ficou à espera da sua investida. O lobo aproximou-se do boi e espojou-se no chão de terra, junto dele. O boi tomou a iniciativa do ataque para correr com ele dali, mas o lobo levantou-se não para fugir mas para sacudir o pó para os olhos do boi. O boi perdeu a visão ou parte dela e o lobo ferrou-lhe a garganta cortando-lhe, só com uma dentada a veia jugular. O boi esvaía-se em sangue e o lobo aguardava sem se chatear. Os dois homens acorreram para ajudar o boi mas já era tarde. Vale a pena, a quem não acreditar nesta história verdadeira, estudar a poderosa força das mandíbulas do lobo e das suas ligações musculares daquele pescoço poderoso.

Num dia de Inverno, com nevoeiro, entrou num valado, e quando o dono das ovelhas viu os animais fugir, começou a gritar, "é cão", "é cão", mas o lobo agarrou de uma ovelha, à sua frente e saltou o muro da tapada com ela às costas em frente do pastor, correndo montanha acima, levando-a para o cimo do cabeço, onde a comeu no meio dos fetos. Só um lobo é que a levou mas terá sido mais que um a comê-la, pois fizeram-na desaparecer num bocado, durante a manhã, deixando apenas uns pelos agarrados a pedaços de peles dilaceradas e uns ossos maiores. Foi o meu pai que deu com os restos seguindo armado no rasto do lobo a nossa cadela chamada violeta, ao tempo, minha companheira de caminhada.

Durante os Invernos, os lobos atacavam as rezes, muitas vezes em frente dos pastores e outras vezes eles nem os viam, pois apenas viam as cabras fugir e na contagem do final do dia, à chegada ao curral, se dava pela sua falta. A alguém teria faltado uma peça, cabra ou ovelha. Eu e um amigo meu, hoje em Paris, vimos um lobo roubar uma cabra a um pastor de Rouças ou Sistelo quando apreciávamos a destruição que um raio tinha feito em gigantescas rochas de granito. Parecia que tinham lá colocado petardos de dinamite! Vimos o lobo saltar das urzes e fetos e abocanhar a cabra, na encosta, à nossa frente.

Foi este atrevimento de animal destemido que angariou inimizades junto dos donos dos rebanhos que fizeram com que toda a gente odiasse este terrível animal selvagem. Não tive conhecimento de alguém dizer que tenha sido atacado pelo lobo, e eu posso afirmar que desde muito pequenino que trepava as montanhas de Soajo em Invernos rigorosos, vi as patadas deles ainda frescas na lama e penso que só não me comeram porque nunca estiveram interessados nesta reles peça de caça. Mas para os mais novos, poderei contar a história do ti Gonçalo que num local entre o Curral do Pai e a Corga das Forcadas ao empurrar as cabras para a Pedrada, ao ver uma moita de urze a mexer, julgando que fosse uma cabra que ficara para trás, pegou uma pedra e enviou-a de encontro à moita, De repente viu-se frente a frente com o lobo que decidiu atacá-lo para desforrar a afronta da pedrada nas costas e parece que foi salvo pelo seu companheiro que logo acorreu pondo-se o lobo em fuga e ficando o ti Gonçalo muito tempo mudo com o medo.

Uma vez o meu pai, no local chamado Poulo da Cascalheira, encontrou à sua frente especados, três lobos que o fixaram sem se mexerem. Era tempo da caça, fins de um Outono frio e meu pai tinha a caçadeira com ele, mas surpreendidos, nem os lobos fugiam nem meu pai se decidiu pelos tiros. Tirou o sobretudo azul que tinha vestido e pendurou-o no cano da "chibata" como ele lhe chamava fazendo um gesto ameaçador para os lobos e estes debandaram para os lados da Várzea.

Outra vez, meu pai encontrou junto à Presa do Cabreiro dois grandes  lobos especados a olha-lo e a violeta desatou a correr para eles a ladrar, aproximando-se dos lobos, só fugindo quando os lobos lhe arreganharam os dentes e quando o meu pai já estava preparado para abrir fogo sobre eles antes de se mandarem à cadela. Mas eles foram embora deixando a cadela em paz e seguiram em paz também. Desde que o meu pai matou a loba com os quatro lobinhos no fojo do lobo decidiu fazer tréguas com estes nossos companheiro de caminhada.

Também uma vez por trás do alto da Pedrada estava uma vaca parida com o vitelo e meu pai disse-nos a mim e à minha madrinha que tinha a sensação de ter visto um lobo perto da vaca e do vitelo e ficamos a olhar os fetos secos sem vermos nada a não ser a vaca e o vitelo. De repente, meu pai convencido que não estava errado, gritou e o lobo bem visível abandonou o esconderijo fugindo direito ao Alto da Pedrada. A vaca seguiu com o vitelo direita a outras mais afastadas e nós prosseguimos viagem em volta da Pedrada e, no lado contrário o lobo descia direito a nós e escondeu-se por trás de uma pedra de granito a espreitar-nos. Vimos o lobo agachado por detrás da pedra a ver se a gente seguia sem o vermos. Mas mal o meu pai gritou outra vez "eh, cão", ele pegou a trajectória inversa, direito ao Alto da Pedrada, a pleno galope.

Nos montes de Bordença, no meio de um grande giestal corri pelas giestas dentro em socorro da cadela do Abílio Augusto que foi pegada pelos lobos, batendo-se com eles e correu para mim com várias dentadas, sangrando, e tenho a certeza que eles fugiram à minha chegada embora nunca os tivesse visto. Tinha cerca de 12-13 anos.

Recordo ainda com saudade as vezes que as minhas vacas se preocupavam comigo quando o lobo se aproximava de nós, mas há uma dessas ocasiões que nunca esquecerei. Seguia eu o trajecto da Chãe da Porca para o Poulo da Cascalheira. Fazia nevoeiro serrado, daquele que pouco mais se vê que a ponta do nariz e caía uma chuvinha miúda gelada. De repente, as vacas levantam o rabo e dão sinal de perigo ao mesmo tempo que desencadeiam uma espécie de operação militar programada para certas eventualidades. Normalmente as minhas vacas caminhavam subordinadas à mais velha - a Ribeira. Atrás desta seguia a mais poderosa, a Nova, atrás da Nova seguia a Galanta, atrás da Galanta a Cereja, atrás desta a Briosa, a seguir à Briosa uma tourinha pequena ainda à procura de nome e atrás dela eu. Logo ao sinal de instabilidade a Nova passa para a frente da Ribeira e a Galanta vem colocar-se a meu lado, atrás da vitela, entre eu e o lobo. Todas olham para a esquerda e todas se mantêm juntas para a eventualidade de terem de investir contra a fera. Eu tentava sossegar as vacas, incutindo-lhe confiança ao mesmo tempo que não descolava da Galanta e espreitava sobre o seu corpanzil se via algum lobo, mas as vacas sentiam-no mas não o terão visto tal como aconteceu comigo. Ao chegar ao Poulo da Cascalheira mandei-as parar e elas pararam a olhar-me e eu vi no chão várias pegadas de lobo na lama e correspondia a mais que um lobo que se dirigiam para o Poulo dos Cagordos. Ao perceberem que as vacas estavam por ali, terão descido a encosta até junto de nós colocando o gado em alerta vermelho! Nunca mais esqueci este dia, não pelo lobo andar por ali, o que acontecia várias vezes, mas ao sistema de comunicação desencadeado no momento em que elas se aperceberam da presença do "grande selvagem".

Há poucos anos, meia dúzia, ao descer o Mezio para Arcos de Valdevez, parei numa Estância de materiais de construção e ali encontrei um homem do campo. Perguntei-lhe se os lobos ainda caminhavam pelo Mezio e se atacavam os gados. "Não me diga nada" - disse ele. "Ainda há dias o meu vizinho tinha o cavalo naquela tapada ali em cima e relinchou. Fomos ver o que se passava e estava um lobo a meter-se com o cavalo. O cavalo encostou a cabeça à parede para coicear o lobo, mas este manhoso subiu à parede e saltou para o pescoço do cavalo mordendo-lhe a carótida. Quando chegamos estava o cavalo a esvair-se em sangue e já a morrer. E olhe que era um bom cavalo! O meu vizinho ficou sem o cavalo mas aquele malvado também não o comeu".

O buraco do Fojo do Lobo, em Agosto de 1996


Quando eu era pequeno, um homem de Adrão dizia-me que podia não ver o lobo, mas sabia quando o lobo estava perto! Bastava que o lobo o visse a ele, para ficar logo com o cabelo em pé e todo arrepiado com pele de galinha. Mas mesmo sabendo tudo ou quase sobre os lobos, hoje sou um dos que grito: «salvem o Lobo Ibérico, ajudem a mantê-lo entre nós».


Mas eu era pequeno e sabia que o lobo, no Inverno entrava na aldeia. Por mais de uma vez foi visto nos nossos caminhos e perseguido pelos cães e pelos homens, ainda eu era pequeno. E o meu pai viu-o junto à "Tasca do Carrasco" cerca das duas horas da manhã de uma noite de Outono, mesmo à retaguarda dele. Um tio meu lançou os cães sobre o lobo e quando ia atiçar os cães, o lobo voltou-se de repente e os cães foram todos encalhar nas suas pernas. Atravessou a aldeia atrás do lobo até ao Carril.


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