Rojões na serra de Spajo

Rojões na serra de Soajo

Vejam estes golosos a comer rojões assados na serra mais linda do mundo - a serra de Soajo Assar rojões na serra de Soajo, nos braseiros dos...

Mostrar mensagens com a etiqueta naia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta naia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 21 de agosto de 2010

Da Naia à Pedrada

Depois daquele diálogo com o sapo da Fonte da Naia e o outro lá atrás a registar tudo, pois logo que me viu, saltou para dentro de água para iniciar a sua máquina e tomar nota do diálogo entre o outro e eu, despedi-me deles e iniciei a caminhada até à Ferrada. Fiquei um pouco embaralhado quando descobri lá, todo refastado, a apreciar as belezas dos seus trajectos e as brandas dos rouceiros, o Jipe do Zé Manel com uma guarda de honra de meia dúzia de cavalos garranos.

(Deixo-vos algumas fotos, aqui, no Shutterfly)




O Gipe do Zé Manel descansava, na Ferrada, pois, a subida do Muranho, custa também aos jipes!

Observei tudo em volta e, nada mais via que não fossem as paisagens, os cavalos e as vacas, além do jipe. Iniciei, então, a subida rumo ao Muranho e olhem que não foi nada fácil! Cada vez estou mais enferrujado para estas coisas, mas não é nada fácil, sofrer da coluna, cavalgar 168 cavalos de uma só vez, todos os dias de manhã à noite e, depois, armado em pimpão, querer, como nos velhos tempos, subir aqueles montes com caminhada em passo marcial.

Lá cheguei ao Muranho e, como a caminhada não tinha a celeridade que eu pretendia, fui procurando, pelo caminho, um salgueirinho que lá encontramos o ano passado, mas nada!



Esta galanta já terá ouvido falar do Ventor mas, certamente, nunca o terá visto por ali. Quem sabe?

Junto dos cortelhos do Muranho, verdadeiros monumentos, cheio de sede, notei outros rastos do meu Maralhal, mas eu queria era a fonte. Aquela bela nascente do nosso contentamento. Fora da porta do cortelho, haviam sinais da presença dos novos suevos do séc. XXI. Ainda pensei que algum ficasse por ali com birrice em acompanhar o meu amigo Apolo até à Pedrada, mas eles tinham saído cedo. A hora marcada era às 6 da manhã em Adrão e, mesmo que, houvesse algum atraso, eles tinham sobre mim uma vantagem de 3 a 4 horas. Se cumprissem a hora, o Luís saiu de Ponte da Barca às 5 da manhã, eu saí do fojo às 10, era um tempo abismal mas chamei se estava alguém na escuridão do cortelho. Nestas coisas, quase sempre há cansados, mas não. O único cansado era o Tomé, o cão do Zé Manel. Espreitei o Cortelho e lá estavam duas lanternas vermelhas - os seus olhos.


Os cavalos já conhecem o jipe e, como tal, esperam que o forasteiro siga o seu caminho e deixe o jipe descansar. Esperam chegar, junto dele, primeiro que o Ventor!

"Que fazes aqui Tomé"? 

«Olha, durmo, se me deixares"!

"Que é feito dos gajos"?

«Deixaram-me a dormir na Corga da Vagem à sombra das urzes. Partiram e não me chamaram! Quando acordei e não os vi, não segui o rasto, apenas os mandei à fava e voltei para aqui, este belo palácio, onde a sombra é saborosa»!

«Chegaram à Corga da Vagem, onde as horas não contam, só conta o desgaste da subida e, ainda muito cedo, lançaram garras ao farnel e eu achei que era tempo para arranjar um pouco da vida de cão e fui fazer o que mais gosto. Encostei-me à sombra de uma urze e esqueci a algazarra dos gajos. Adormeci! Ao acordar não vi ninguém e, não estive com meias medidas. Tirei a bússola, analisei o terreno e, regressei, rumo ao Muranho. Agora, aqui estou, nesta fresquinha toda, só para mim! Se fosse a ti deixava-me ficar por aqui porque iniciar essa subida com este calor só de lobo doido. A Pedrada é sempre a mesma e não sai do sítio».



Este cavalo observa a caminhada dos companheiros depois de ter dado as boas-vindas ao Ventor 

"A Pedrada não sai do sítio, Tomé, mas eu gosto de a ver lá parada a espreitar sobre os outros cabeços e eu gosto de espreitar de cima dela, tudo em volta. Fica bem Tomé e vai sonhando enquanto dormes porque, quando eu voltar, ainda vais estar aqui»!

Voltei a olhar a subida do Muranho à Derrilheira. Era quase meio dia, estava calor e continuei a caminhada até à fonte. Bebi dois copos cheios de água gelada, acabadinha de sair da "friza" e lá reiniciei mais um troço da minha caminhada.

Com um andar sarronco, deixei de lado o troço que seria, com um pouco de vontade para jipes e caminhei sobre o mato, em subida mais íngreme e mais curta. Não me desviei para o Alto da Derrilheira, deixei isso para o regresso e rumei à Fonte da Corga da Vagem onde cheguei às 12:41, depois de fazer uma inspecção a uma das flores que nunca tinha visto na minha serra. Apenas o ano passado, em 9 de Agosto, a encontrei na Fonte das Forcadas e, como seria de esperar, fotografei como uma das maravilhas deste mundo. Este ano encontrei-as um pouco antes de chegar à fonte da Corga da Vagem. Foi um fotografar!

A Fonte da Corga da Vagem, nas minhas Montanhas Lindas

Não bebi água! A sede era muita, mas a fonte estava quase estanhada, lembrei-me dos sapos da Naia e desisti. Enquanto transportava as minhas duas cervejas às costas, quentes como o caldo, ninguém tivesse pena de mim. Quando regressasse ali, meteria uma cerveja na "friza" e depois de bebe-la, eu estaria preparado para voltar ao Muranho onde, aí sim, voltaria a matar a sede. 

Tirei fotos às minhas flores azuis, às vacas deitadas no Cabecinho, e no poulo acima e, dirigi-me corga acima, onde encontrei a refrescar uma garrafa de vinho, no meio da água a fazer-me um convite de boas vindas. Puxei-a com o cajado que levava feito à pressa na Portela e, para meu azar, tive pena do dono ou donos da garrafa e desisti dela. Quem sabe se para o ano eu vejo por aqui fotos dos mesmos exploradores de petróleo ou outros!

Em caminhada acelerada, tanto quanto podia, debaixo de um sol quente, mas não escaldante, talvez como os américas a sair do Iraque, dirigi-me à Fonte das Forcadas onde, este ano, não haviam as minhas belas florzinhas azuis encontradas o ano passado, nem escorrichavam da terra as primeiras águas da Corga da Vagem, este ano nasciam mais abaixo, torci à esquerda, caminhei no espaço do meu sonho com os lobos e, sem nevoeiros como no sonho, dirigi-me, encosta acima, por entre jovens urzes renascidas após o fogo de 2006, até ao Outeiro Maior - a Pedrada.

O marco geodésico no Outeiro Maior - o Alto da Pedrada

Fotografei tudo em volta e, mais uma vez, e outra, e mais outra, e ... fui observando os malfadados fogos que queimavam as raízes das minhas Montanhas Lindas, lá por baixo, nas encostas de Soajo, junto ao rio Lima, no Gião, na serra Amarela (a mata de Cabril), e fumos espalhados sei lá por onde. Uma pena, uma tristeza, uma vergonha! Depois, ali, só, no pináculo do meu mundo, onde o telemóvel não serve para nada, tal como o lobo solitário, pensei na próxima tarefa e onde ir matar a sede. Duas cervejas eram a minha reserva!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Como um Lobo Solitário

No dia 12 de Agosto, neste ano de 2010, levantei-me muito cedo no Hotel de Castro Laboreiro. Espreitei pela janela e, grande desilusão, as nuvens, bem negras, voavam no horizonte, bem baixinhas.

Fui tomar duche e, sem esperanças, aperaltar-me para, se o tempo me deixasse, realizar a minha esperada caminhada à Pedrada. Quando tomava duche, pensei na hipótese de, se a chuva caísse, mandasse para casa os bombeiros que exaustos ou não, lutavam contra os fogos que lavravam nas suas fraldas.

Descansadamente, sem pressas, convenci-me que não haveria caminhada mas, depois de tomarmos o pequeno almoço no Hotel e de beber mais um café, junto ao Restaurante Miradouro, tive uma sinfonia de corvos, monte acima, a dizer-me que, fosse como fosse, mais um dia se iria passar.

Já tarde, iniciamos a viagem, rumo à Peneda e, olhava o céu onde farrapos de nuvens dançavam para mim, nos cabeços de Castro Laboreiro. Mas as notícias, na rádio do carro, não eram boas! Soajo continuava a luta contra os incêndios. Mau, mau, mau .... pensava eu, baixinho. Trocava a minha ida à Pedrada por uma valente chuvada que acabasse com estes incêndios. Passamos a Peneda, Rouças, Tibo e atravessamos a Portela de baixo, rumo a Adrão. Chegamos ao Fojo e disse: "fico aqui"!

Seguiram rumo a Arcos de Valdevez mas antes, ainda conversamos com um amigo que nos pareceu esfomeado. A minha companheira, que adora animais, assaltou-me o farnel para dar um quinhãozito dele a esse amigo que, se calhar, alguém terá abandonado por ali. Comeu quase todo o resto à noite. Cego de um olho e com dois buracos na garganta feitos por uma dentada. Ele subiu comigo até à Portela, mas eu desencorajei-o a acompanhar-me porque, lá em cima, andaria o Tomé, o cão do Zé Manel e, possivelmente, haveriam lutas desnecessárias. Junto ao Cruzeiro da Portela de Cima, com vistas para Adrão e para a Senhora da Peneda, ele entendeu e lá ficou para trás.



O Cruzeiro da Portela de Cima, entre Adrão e a Senhora da Peneda

Segui só! Só, tal como um lobo solitário!

Se há coisa neste mundo que eu goste, é ver as rainhas das montanhas a observar-me, firmando a vista, de cabeça levantada, não vá ser o seu dono que as procure.

Quando passei as Lameiras, calculando que só tarde iria encontrar os meus amigos, pois levava três a quatro horas de atraso, troquei o estradão dos jipes por uma caminhada nos horizontes da Corga Grande, até ao Penedo do Osso, sempre com Adrão à vista, pela minha esquerda e os fumos de Cabril, no horizonte oposto e os de Soajo, lá no fundo.

Ao chegar ao Penedo do Osso, das quatro vacas que ali se encontravam, houve uma que caminhou ao meu encontro alguns 100 metros e orneou. Falei com ela e ela serenou. Parecia dizer-me: "já vi que não és o meu dono e que nunca mais os vais apanhar"! 


Uma galanta, nas minhas Montanhas Lindas

Rumei, então, à Fonte da Naia, já cheio de sede, pois o calor era bastante e a pujança da caminhada era fraca. Observava cada pedra, cada moita que, devido ao isolamento, conseguira escapar ao incêndio de 2006. Sempre que caminho nos meus montes, sinto-me rodeado de gente! É essa a minha sensação. Nunca estou só! Ao chegar à Fonte da Naia, saía alguma água por cima da pedra que o Luis e o António estiveram a arranjar o ano passado e, a outra saía por baixo. Mal a olhei, vi saltar um sapo e outro, talvez uma princesa do mundo das fadas, ficou a conversar comigo:



Uma princesa encantada na Fonte da Naia

"que fazes aqui Ventor? Tu não vais beber água porque tens nojo de mim? Podes beber, Ventor, eu não sou tão peçonhenta como tu sempre ouviste dizer. Eu sou um anjo nas tuas montanhas lindas! Eu sabia que tu vinhas aí e sabia que tu irias mudar de rota só para me veres. Tu não estás a ver um sapo, Ventor! Tu estás a ver uma Ninfa das Fontes! Tal como viste nas Fontes, no Sítio do Quico. Aquelas rãzinhas que viste nas fontes eram as ninfas que tu viste quando sonhaste. Elas lá e nós cá, caminhamos sempre acompanhando o Quico. Tu sabes bem, Ventor, porque o trouxeste para cá! Sabes porque decidiste leva-lo para a fonte da tua meninice. Tu conheceste essa fonte de cueiros e bebias água sempre que lá passavas. Por aqui, só mais tarde conseguiste caminhar, olhar-nos e, posso mesmo dizer, aparentemente, adorar-nos! Nós fazemos parte de ti Ventor! Tu, as nossas Montanhas Lindas, as nossas fontes, o Quico e, muito mais, somos os guardiões desta bela serra a que outros, uns asnos, já dão outro nome, mas que para nós, será sempre a serra de Soajo. Tu vais viver sempre aqui, Ventor, connosco. Nós somos quem vela pela fonte da Naia"!

quinta-feira, 24 de março de 2005

A Sonhadora e o Rio de Adrão

O Rio

É o melhor rio do mundo para o Ventor.

É um rio em que todas as pedrinhas, todas as cachoeiras, todos os poços, todos os salgueiros, todas as silvas, todos os tufos de carriço e os carvalhos que sobre ele se debruçam para espreitar o movimento das águas e escutar as suas melodias, estão registados em forma de imagens que não há foto alguma que consiga captar! 

Aqui nasce o rio de Adrão. Estas são as primeiras gotas a sair da terra, num qualquer mês de Agosto

O Rio!

É verdade que já foi o maior rio do vosso amigo Ventor, quando ele com um pé sobre uma pedra, media a distância com o olhar para a outra a ver se conseguia dar mais uma das suas firmes e célebres passadas e seguir em frente. Tantas vezes, numa dessas passadas, o Ventor tinha de pôr a roupa a enxugar para não andar molhado!

Mas o rio nasce lá no alto da montanha por debaixo do pico máximo que se vê da aldeia, o Alto da Derrilheira, num local que se chama Sorreiros. Esse local, há muitos anos atrás, era um grande matagal de urzes compactas por entre as quais subiam e desciam as cabras da aldeia enfrentando os lobos esfomeados.

Pelo cerro da montanha abaixo fica o Alto do Lombo! As primeiras águas dos Sorreiros, no verão, correm devagarinho perante ervas, fetos e urzes e dirigem-se lentamente para a Corga da Naia.



Um troço da Corga da Naia, escondida nesses montes. Por ela correm as primeiras águas do rio de Adrão. Foto tirada do Penedo do Osso


Aqui, a Corga da Naia, fotografia tirada das Fontes

O rio nasce à esquerda da foto, na zona verde, em cima. A água desce para a nossa direita e depois desce pela corga da Naia e ruma ao Lugar de Adrão

Do lado oposto há outra nascente que debita as águas para o rio de Bordença onde existe uma ponte rudimentar que dizem poder ter sido romana mas, nem só os romanos faziam pontes. Por ali se caminhava rumo à Galiza, mais um dos Caminhos de Santiago.

Agora vou-vos contar a história de uma minha amiga. Uma gotinha de água a que chamo Sonhadora, que nasceu e desceu o rio durante um mês de Julho.

A Sonhadora nasceu ali pelos Sorreiros.

De dentro do monte brotam as gotas de água e a Sonhadora, uma dessas gotas que corre ao lado de muitas outras, tal como o Ventor, rola apreciando a paisagem. Ela sai das entranhas da terra, olha Apolo caminhando no céu azul e começa a apreciar tudo, desde o mais simples ao mais complexo obstáculo.

A gotinha respira fundo e o seu primeiro encontro é com a areia que se desvia à passagem rocambolesca do seu grupo. De frente encontra um tufo de ervas e ela topa uma ervinha mais isolada e entra na base do seu eixo correndo em todo o seu comprimento e depois, já na ponta, espreguiça-se um pouco e forma o seu primeiro salto perigoso.

Enrola-se toda e, sem largar o grupo, vai de encontro à primeira pedra, para ela uma grande rocha, onde faz ricochete e é atirada contra outra. Depois, ela e as suas companheiras, prosseguem nos seus trilhos onde se vão juntando a mais gotas, muitas gotas provenientes de outras fontes e vão-se misturando umas com as outras formando já um belo corpo líquido. Mais abaixo, mais um encontro. As gotas que descem da Fonte da Naia encontram-se com as que descem dos Sorreiros e engrossam o grupo que já canta laudas aos belos montes por onde caminham e por onde também caminhava o Ventor - no nosso Locus Amoenos.

Em cima de uma pedra molhada está uma rã cantarolando ladainhas à água e, mais ao lado, uma cobra fazendo que canta parecendo entreter a água e tentando enganar a rã. Mas esta, quando a cobra forma a estucada, salta para a água atropelando a Sonhadora.

 

Uma rã

Ali começa logo a guerra dos mundos!

Mais em baixo, um grande sardão verde, com parte do peito e do pescoço azuis, muito sereno, sobre a rocha meio molhada ao lado da qual caminha um insecto a que chamam escaravelho. A este o lagarto tenta enganar fazendo que, naquele momento, só os raios de Apolo lhe interessam. O escaravelho entretido a ouvir o cantarolar da água, no instante que a Sonhadora lhe grita "cuidado", deixa-se apanhar pelo lagarto que louva os seus deuses por mais aquele petisco que lhe vai dar energias para continuar a sua caminhada junto com Apolo.

Mais em baixo outras águas se vão juntando. As que nascem na Chãe do Boi, e na Charneca, na margem esquerda, e as que nascem na margem direita ao fundo do Alto do Lombo, pelos lados de Fontoura.

A gotinha continua a caminhar e, depois, entra num sítio onde os raios de sol se perdem durante algum tempo. É um troço terrível onde ninguém se lhe chega e a que chamam o Rio da Fraga! Foi ali que existiram as últimas corsas das montanhas de Adrão. Ali houve corsas segundo me diziam ainda nos tempos de puto do Ventor e por ali as águias se mantinham sossegadas sem que ninguém as martirizasse quando queriam descansar. Chamam-lhe o Rio da Fraga, eu chamar-lhe-ia a Garganta Negra.



Uma foto do rio da Fraga tirada da Corga da Naia

Ali, eu tenho a certeza que, ninguém, a não ser corsas, águias e falcões, pouco mais, ninguém se atrevia a pôr os pés junto ao troço do rio, depois do nosso poço de banhos, mais abaixo. Eu bem tentei e nunca consegui e sítio onde o Ventor tentasse e não conseguisse, acredito que não valeria a pena alguém tentar.

Mas, continuando a receber amigas, a nossa Sonhadora sai da sombra e volta a exibir-se para todos que fazem o mundo lindo, como o Ventor e seus amigos, as vacas, as cabras, as ovelhas e demais animais, sem os quais o cantarolar das águas não teria qualquer interesse. A Sonhadora voltou a gritar: "o mundo é lindo"! E é!

A nossa gotinha, na sua caminhada, procurava não ser ingerida pelos animais que se aproximavam da água onde procuravam matar a sede e só pensava prosseguir o seu sonho - descer rio abaixo e chegar ao mar!

Ao entrar no troço do rio a que chamam Rio da Leira, além das gotinhas ingeridas pelos animais, a gotinha perdeu muitas outras amigas, que foram desviadas para regarem as terras. Mas sempre no princípio de sorte de uns e azar de outros, a Sonhadora continua a sua caminhada e, mais abaixo, é desviada, também, para um rego de água, mas este levava a água para fazer rodar a mó do primeiro moinho operacional que aparecia na aldeia. Para trás já tinham ficado as ruínas de outro. Numa leva, muito a pique, ela sentiu cócegas na barriga bojuda e foi atirada a alta velocidade contra aquele rodízio de madeira que fazia rodar, em cima, a mó que esmagava o grão de milho do ano anterior, o predecessor do tal que outras velhas amigas tinham sido chamadas a proteger da sede para que, no ano seguinte, outras gotas levassem a bom caminho outros milhos e outros moinhos. Fazia parte do ciclo.


Uma alvéola, uma das mais belas companheiras das caminhadas do Ventor

Saída do moinho, ela volta ao rio e caminha de mansinho de poço em poço, ao mesmo tempo que ia ficando nos recantos, em remansos de águas apreciando o que se passa em redor. À sombra dos salgueiros um melro desce à água e bebe numa pocinha de outras águas que rodopiam lentamente entre os carriços. Mais ao lado, uma alvéola ou lavandisca, pousa numa pedra húmida ao seu lado, dando ao rabinho de penas negras, movimentos verticais, e ia cirandando rio abaixo e rio acima.

Mas não fica por ali. Uma toupeira de água passa juntinho e ela é empurrada pela força motriz que a toupeira origina à passagem. Por ali a gotinha continua rodopiando lentamente e mais um belo bicho lhe passa por cima e ela, pelas experiências dos ciclos de vida que tem, repara mais uma vez tratar-se de um guarda-rios. O guarda-rios segue rio abaixo e, a seu lado, no remanso de águas originado pelas forças de retenção que a obrigam a permanecer por mais algum tempo naquele local onde havia um belo baile de outros bichos seus conhecidos. Era um baile de cabras-cegas.



 Dança das cabras-cegas

Por fim, a Sonhadora segue viagem. Desce o rio com a lentidão proporcionada pelas securas do verão. Num poço uns putos tomam banho e mergulham nas águas mais profundas e a Sonhadora, embora sempre alerta, entra na boca de um deles e pensa que é o seu fim. Mas não, o puto deita a água fora e a Sonhadora acabou por se desenvencilhar de um possível martírio. Prossegue viagem até à ponte, mas antes, há mais um rego e a passagem por mais um moinho.

Porém, desta vez, a Sonhadora continua pelo rio e outras amigas encaminharam-se para as águas que vão dar a força motriz ao moinho da Ponte. Enquanto elas passam por cima para depois caírem a pique com as cócegas na barriga, a nossa amiga Sonhadora foi-se meter em mais uma alhada.



O moinho e o poço da Ponte, onde termina a primeira etapa da bolhinha sonhadora

Ao lado do moinho, no leito do rio, estavam duas mulheres do Lugar (uma era a mãe do Ventor) a lavar roupa e a Sonhadora ia asfixiando no meio do sabão azul e branco. Mas por entre camisas, lençóis e mãos que a tentaram esfarelar contra a rocha, a Sonhadora escapou-se, por entre os dedos, para o poço de baixo. Ali andavam amigos do Ventor a apanhar girinos (os nossos velhos carrapatos - futuras rãs) para aprisionar em charquinhos de água à margem do poço. A gotinha esteve quase cercada num desses charquinhos, mas escapuliu-se para o poço, junto à ponte, onde haveria mais uma divisão de águas e onde a Sonhadora poderia ter perdido o seu sonho.