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Rojões na serra de Soajo

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sábado, 27 de outubro de 2007

Ainda o Outono ...

... acompanhado de sonhos e realidades.

Uma noite destas, estive, mais uma vez, em vias de inspirar a última molécula de oxigénio.

A dona do meu Quico quis chamar o 112, e eu fiz-lhe sinal que não!

Consigo raciocinar com muita simplicidade e das duas uma:

 - ou o 112 chega e eu já estou do lado de lá;

 - ou o 112 chega e eu já estou sem vontade nenhuma de ir até ao hospital;

Por isso, deixo andar ao sabor do Senhor da Esfera. Ele lá sabe como resolver este meu problema!

Mas depois deitei-me, medricas como sempre, à espera da eventualidade de que as coisas corram bem, mas não esquecendo a hipótese de uma possível continuidade, no mal.

No entanto adormeci e sonhei.

Sonhei imenso! E sonhei com coisas do passado, revivendo-as!

Sonhei que era muito novo, um cassapinho de tempos que já não voltam e sonhei com coisas do meu amigo Outono. Andava pela minha Assureira, num dia de sol, lindo, à procura de água na mina. A poça, cá fora, estava toda lamacenta e a mina era tão escura que não deixava ver nada lá para dentro. Eu perguntava-me como era possível que com um dia tão lindo, não conseguia enxergar nada, mesmo ali na entrada.

Arrepiei-me todo a tentar observar o que se passsava dentro da mina, olhei o vidoeiro que está à entrada com as suas folhas amarelas e o carvalho, em frente, junto ao muro, com as folhas outonais todas castanhas-avermelhadas. Olhei a casa da Assureira (o palheiro) de porta aberta. Ao meu redor tudo brilhava, apenas a entrada para a mina e a porta da casa estavam escuras como o breu.

Mas eu precisava de água! Voltei a olhar a mina e, do meio da sua escuridão, veio uma voz estrondosa. Era a voz do Senhor da Esfera!

«Vai-te embora Ventor! Vai Ventor! Não poderás mais entrar nesta mina»!

"Mas eu preciso de água"!

«Não beberás mais água desta mina, Ventor»!

Tirei a cabeça da entrada da mina, voltei a olhar em volta e tudo era lindo. As folhas das videiras de outros tempos, estavam amarelas. Nas lavouras de feno, observei os cagordos (cogumelos) grandes, "larápios", era asim que lhes chamávamos, quando eram enormes!

Voltei a olhar as videiras e voltei a vista para a porta escura da casa. Lembrei-me do lagar, da pia que junto ao lagar recebia a parte do vinho que escorria pelo buraco, mal fechado. Comecei a imaginar como matar a sede. Seria com o vinho novo!

Assim foi! Corri pela lage da Assureira, sem água e, tal como antigamente, ao entrar na porta que, vista da mina, era negra, cheia de escuridão, lá estava tudo claro, com lenha para o burralho, o feno, ao fundo, encostado à parede e, a seu lado, um montão de espigas de milho à espera de serem transportadas para o caniço, e junto ao lagar, os garrafões vazios, esperando a vez para serem enchidos com a bela água pé, feita com as uvas brancas do Colado.

Sobre o lagar, na sua horizontal, o grande madeiro de nogueira por onde, junto a uma ponta, entrava, na vertical, a rosca também de nogueira na base da qual ficava uma espécie de caixote com uns paus onde se fazia força para a rosca fazer descer aquele madeirame sobre as tábuas que espremiam o mosto até ao máximo possível. 

Mas tudo isto, tão banal como a própria vida, para vos dizer que, após a tormenta anterior em que o ar não queria entrar nos meus pulmões, a alegria de reviver momentos de uma vida que nunca consigo esquecer, não só inspirando o ar precioso, mas também o cheiro característico do mosto que num lagar fervilha enquanto eu, sedento, me delicio com o cheiro e com o copo que me preparava para encher daquele elixir fantástico. Infelizmente é aqui que tudo acaba!

Não cheguei a encher o copo mas, ao acordar, ainda continuava impregnado daquele cheiro do vinho novo pelas minhas narinas e, para mal dos meus pecados, bem tentei transformar tudo aquilo num momento realista, mas não deu. Mas deu para voltar a adormecer e repegar no sonho encontrando-me no cimo da Portelinha a ver todo aquele vale até ao fundo de Soajo, e os carvalhos da Assureira como a mais bela amostra de Outono que jamais vi. Mas as coisas nem sempre são bonitas. Do meio dos carvalhos vinham as vozes de todos os meus antepassados que me queriam comunicar algo mas que não consegui identificar. Desta vez deu para acordar todo encharcado em suor e passar o resto da noite a pensar em tudo aquilo que vi o ano passado em 28 de Agosto, mas que, em sonhos, coloquei no Outono.

Foi uma noite cheia de tudo! A senhora da gadanha que espreitou, as minhas imagens do passado, as belezas impregnadas de alegrias e tristezas, a presença do Senhor da Esfera a me dizer que não e do meio dos carvalhos as vozes de todos aqueles que, tenho a certeza, me querem bem.

5 comentários:

  1. Bom dia, amigo!... isso é que é madrugar...
    Não sei que maleitas te afligem mas a verdade é que senti, neste post, o cheiro característico do Outono - da Estação e da Vida. Mas tem calma, esperemos o Inverno, é a melhor altura para partir.
    Entretanto ainda havemos de ouvir o cuco, na Primavera, na Assureira ou no Outeiro, em Adrão ou em Cavenca, em Soajo ou em Riba de Mouro, ou em qualquer outro lugar.
    Um abraço e as melhoras.

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  2. Olá amigo Ventor. Desejo que o ar esteja pleno em teus pulmões, deixando que saboreies da vida com a intensidade de emoções que há em ti.
    Teu sonho foi fantástico.Certamente inspirado no medo que sentiste de partir e na preocupação que todos temos de estar ou não prontos para isto. Ainda assim, é sempre maravilhoso rever os lugares que amamos, as sensações e cheiros que fizeram parte da nossa vida.
    Um abraço com muito carinho.

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  3. Achei linda a descrição do teu sonho: tudo tão real, tão cheio dos cheiros e cores que, quem viveu, um tempo de Outono no campo, sabe reconhecer mesmo de longe. Mas se para ter um sonho assim é preciso estar doente, então não o quero para mim nem para ti. dá notícias.

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  4. Aqui tudo é magnífico, um prazer para os sentidos humanos, a merecer um olhar extasiado. Boa semana.

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  5. Bom Natal com bom bacalhau e rabandas minhotas, e claro, muita harmonia.

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