Rojões na serra de Spajo

Rojões na serra de Soajo

Vejam estes golosos a comer rojões assados na serra mais linda do mundo - a serra de Soajo Assar rojões na serra de Soajo, nos braseiros dos...

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Viver com a Beleza

Sonhei!

Sonhei com a Primavera nas minhas Montanhas Lindas ....

Sonhei com o tempo em que o cheiro a esterco das vacas passava por ser um perfume.


As ruínas de outros sonhos

Sonhei, acordei e "chorei"!

Sonhei que tive uma alvorada muito cedo, lá em Adrão, no primeiro cantar do galo. Que ia descendo rumo à Assureira e ainda com a Veiga escondida na escuridão matinal. Mas eu não tinha as pressas de outros tempos. Descia por Arriba dos Moinhos lentamente e notava no alvorecer do dia, os montículos dos cestos de esterco espalhados por algumas lavouras. Lá no fundo, corriam cantando as águas do rio.

Ao entrar nos carvalhos do Grilo, o escuro ainda estava presente e, à minha frente, seguiam vozes de gente (que nunca cheguei a ver) mais apressada que eu, enquanto eu ia tropeçando em pedras inertes no chão escuro. Continuei pelo caminho do Grilo e ouvia, lá no fundo as águas do rio e, junto delas via, o vulto, mais escuro, do moinho do ti Dafonte.

Os fetos, tal como antigamente, lá estavam nas margens do caminho como que a quererem dizer-me "olá"!

Ao chegar à Portelinha, olhava, lá em baixo, a Assureira ainda semi-escurecida mas, quando levantei a cabeça para olhar a Derrilheira, notei que o meu amigo Apolo ia iniciar a grande descida do dia. Tudo se começava a transformar!

Lá em cima Apolo mostrava o seu belo robe e lá em baixo, por baixo dos meus olhos, tinha a beleza da antiga Assureira, numa alvorada de Maio.

Desci até ao Campo onde também já haviam lavouras com os tais montículos de esterco prontos a serem espalhados no terreno para adubar aquela bela terra dos deuses, num belíssimo mês de Maio.

Concluí que iriam começar as grandes lavras!

Mas eu perdi-me no meio da "erva da cemeia"! A partir duma altura, no início da Primavera, as pessoas deixavam sempre crescer a erva numa ou outra lavoura para arranjar cementes de ervas para semear no verão, entre o milho e, também, para dar de comer às vacas que nos iam ajudar a fazer o Maio. Os animais trabalhavam e tinham de ser bem tratados e, para eles, nada como uma boa ração.



Belezas de sempre

Aquele cheiro de ervas e flores enebriava-me. Nos sucalcos cresciam dedaleiras cheias de força e, no muro junto às lavouras do Colado, estava estendida à espera dos raios de Apolo uma cobra esverdeada.

A minha alegria era esfusiante. Na Bouça, em cima, o meu amigo Apolo beijava os carvalhos e as giestas e, em meu redor, já esvoaçavam as borboletas de outrora. Mas, de repente, senti uma vontade enorme de descer até ao rio para voltar a olhar as libelinhas e os tira-olhos a esvoaçar entre os salgiueiros.

Eu espreitava o rio por entre os carvalhos. Esqueci a cobra o que noutros tempos não teria feito e comecei, tal como antigamente, a ver o melhor local para descer até ao rio mas, a folhagem de um arbusto batia-me na cara. Quanto melhor eu me posicionava para espreitar, mais a folhagem, movida por uma brisa matinal de Maio, me dava no nariz.

Voltei a olhar para o muro do portal de entrada nas lavouras e já não vi a cobra e, para meu mal, a persistência do arbusto, quando voltei a espreitar o rio, acordou-me.

O arbusto que me batia no nariz, afinal, eram os bigodes do meu Quico que, como sempre, tentando saber o que se passava comigo, me arrancou às belezas do passado que já só vivo em sonhos.

Ao acordar, já perante a realidade e, pensando na minha última caminhada pela Assureira, em 2006, pensei que nunca mais essas imagems dos sonhos se voltarão a repetir.

Mas tenho-me apercebido que, a única coisa clara e concreta nos meus sonhos é que, normalmente, é o meu Quico que, preocupado com o que me estará a acontecer, acaba por me acordar, arrancando-me de um sonho entre a beleza e me transporta para a realidade. E, como sempre, salvo raríssimas excepções, continuo a fazer as minhas belas caminhadas, sempre só, durante os meus sonhos.

Sonhos, para mim, inesquecíveis.

sábado, 27 de outubro de 2007

Ainda o Outono ...

... acompanhado de sonhos e realidades.

Uma noite destas, estive, mais uma vez, em vias de inspirar a última molécula de oxigénio.

A dona do meu Quico quis chamar o 112, e eu fiz-lhe sinal que não!

Consigo raciocinar com muita simplicidade e das duas uma:

 - ou o 112 chega e eu já estou do lado de lá;

 - ou o 112 chega e eu já estou sem vontade nenhuma de ir até ao hospital;

Por isso, deixo andar ao sabor do Senhor da Esfera. Ele lá sabe como resolver este meu problema!

Mas depois deitei-me, medricas como sempre, à espera da eventualidade de que as coisas corram bem, mas não esquecendo a hipótese de uma possível continuidade, no mal.

No entanto adormeci e sonhei.

Sonhei imenso! E sonhei com coisas do passado, revivendo-as!

Sonhei que era muito novo, um cassapinho de tempos que já não voltam e sonhei com coisas do meu amigo Outono. Andava pela minha Assureira, num dia de sol, lindo, à procura de água na mina. A poça, cá fora, estava toda lamacenta e a mina era tão escura que não deixava ver nada lá para dentro. Eu perguntava-me como era possível que com um dia tão lindo, não conseguia enxergar nada, mesmo ali na entrada.

Arrepiei-me todo a tentar observar o que se passsava dentro da mina, olhei o vidoeiro que está à entrada com as suas folhas amarelas e o carvalho, em frente, junto ao muro, com as folhas outonais todas castanhas-avermelhadas. Olhei a casa da Assureira (o palheiro) de porta aberta. Ao meu redor tudo brilhava, apenas a entrada para a mina e a porta da casa estavam escuras como o breu.

Mas eu precisava de água! Voltei a olhar a mina e, do meio da sua escuridão, veio uma voz estrondosa. Era a voz do Senhor da Esfera!

«Vai-te embora Ventor! Vai Ventor! Não poderás mais entrar nesta mina»!

"Mas eu preciso de água"!

«Não beberás mais água desta mina, Ventor»!

Tirei a cabeça da entrada da mina, voltei a olhar em volta e tudo era lindo. As folhas das videiras de outros tempos, estavam amarelas. Nas lavouras de feno, observei os cagordos (cogumelos) grandes, "larápios", era asim que lhes chamávamos, quando eram enormes!

Voltei a olhar as videiras e voltei a vista para a porta escura da casa. Lembrei-me do lagar, da pia que junto ao lagar recebia a parte do vinho que escorria pelo buraco, mal fechado. Comecei a imaginar como matar a sede. Seria com o vinho novo!

Assim foi! Corri pela lage da Assureira, sem água e, tal como antigamente, ao entrar na porta que, vista da mina, era negra, cheia de escuridão, lá estava tudo claro, com lenha para o burralho, o feno, ao fundo, encostado à parede e, a seu lado, um montão de espigas de milho à espera de serem transportadas para o caniço, e junto ao lagar, os garrafões vazios, esperando a vez para serem enchidos com a bela água pé, feita com as uvas brancas do Colado.

Sobre o lagar, na sua horizontal, o grande madeiro de nogueira por onde, junto a uma ponta, entrava, na vertical, a rosca também de nogueira na base da qual ficava uma espécie de caixote com uns paus onde se fazia força para a rosca fazer descer aquele madeirame sobre as tábuas que espremiam o mosto até ao máximo possível. 

Mas tudo isto, tão banal como a própria vida, para vos dizer que, após a tormenta anterior em que o ar não queria entrar nos meus pulmões, a alegria de reviver momentos de uma vida que nunca consigo esquecer, não só inspirando o ar precioso, mas também o cheiro característico do mosto que num lagar fervilha enquanto eu, sedento, me delicio com o cheiro e com o copo que me preparava para encher daquele elixir fantástico. Infelizmente é aqui que tudo acaba!

Não cheguei a encher o copo mas, ao acordar, ainda continuava impregnado daquele cheiro do vinho novo pelas minhas narinas e, para mal dos meus pecados, bem tentei transformar tudo aquilo num momento realista, mas não deu. Mas deu para voltar a adormecer e repegar no sonho encontrando-me no cimo da Portelinha a ver todo aquele vale até ao fundo de Soajo, e os carvalhos da Assureira como a mais bela amostra de Outono que jamais vi. Mas as coisas nem sempre são bonitas. Do meio dos carvalhos vinham as vozes de todos os meus antepassados que me queriam comunicar algo mas que não consegui identificar. Desta vez deu para acordar todo encharcado em suor e passar o resto da noite a pensar em tudo aquilo que vi o ano passado em 28 de Agosto, mas que, em sonhos, coloquei no Outono.

Foi uma noite cheia de tudo! A senhora da gadanha que espreitou, as minhas imagens do passado, as belezas impregnadas de alegrias e tristezas, a presença do Senhor da Esfera a me dizer que não e do meio dos carvalhos as vozes de todos aqueles que, tenho a certeza, me querem bem.

domingo, 29 de abril de 2007

Um Maio, na Assureira

Trabalhar à Formiga

Quando eu era pequeno, virava-me pelo mundo que me calhou em sorte e, posso garantir-vos, que era um mundo duro mas belo.

Uma coisa que me recordo bem de que não gostava quando era pequeno, era o cacarejar solitário de uma galinha no lugar de Adrão, por esta altura do ano. Isto significava que a aldeia parecia ser um ermo sem vida, mas a galinha dava sinal de que tudo continuava rolando. Todas as pessoas encontravam-se nas lavouras a preparar o Maio. Não era o som do cacarejar da galinha que me preocupava. Eu não tinha era ninguém para brincar!

De qualquer modo, era um destes o despertador que dava o pontapé de saída, logo de manhãzinha..


Este podia ser um dos muitos galos de Adrão, que nos despertava

Mas eu vou falar-vos do primeiro Maio que recordo nesta minha caminhada pela Assureira!

Neste primeiro dealbar dos meus Maios, fui com a família para a Assureira, para "fazer o Maio". Eu era muito pequeno e não percebia nada daquilo, mas lá ia atrás dos meus pais que tinham de acelerar para fazer render o dia enquanto eu ficava para trás a mandar pedrinhas sobre os alvos escolhidos, como via fazer aos mais velhos. Acertar com a pedra num alvo era um privilégio de todos e eu fiz disso um dos meus privilégios, noutros tempos.

Depois das minhas escaramuças solitárias, seria do tamanho do Tomás, lá atingi o objectivo e o objectivo era esta nossa casa na Assureira, onde guardávamos o feno e a palha do milho para as vacas, onde tínhamos o lagar para fazer o vinho e um burralho onde, por estas alturas, se fazia o caldo para todos os que trabalhavam ou que, como eu, não faziam nada.


Esta casa era a base de todos os trabalhos na Assureira

Ao chegar, encontrei o meu pai todo transpirado! Já tinha tirado o esterco quase todo da corte para fora e estava a encher um cesto. Entretanto, chegou uma mulher, daquelas que, nesse dia, trabalhavam para nós e atirou o seu cesto vazio para o chão, junto de meu pai e ele ajudou-a a carregar o que já tinha cheio. Ela ao ver-me disse-me: "anda comigo Ventor, a tua mãe deve estar nas lavouras tola da cabeça por tu não teres chegado".  


Portal da Bouça que deixei aberto em Agosto. Por aqui passava tudo rumo ao Campo e ao Colado. Hoje só passa a saudade!

Os trabalhos, em Adrão, eram feitos aos dias! Isto é, não havia dinheiro e o trabalho era pago com trabalho. As pessoas combinavam  e davam-se as mãos, umas às outras, para se amanharem naquelas trabalheiras que era o "deitar o Maio"! Isto significava fazer as sementeiras, e isso era uma trabalheira. Nesse dia tínhamos gente a trabalhar para nós e outros dias, minha mãe iria trabalhar com elas. Era uma forma de tirar rendimento do esforço colectivo numa determinada tarefa.

 A bouça

 A bouça


Descendo a nossa Bouça, era esta a paisagem em Agosto mas, nos meus tempos de criança, o caminho estava limpo, as folhas dos carvalhos (austrálias não havia, fui eu que plantei a primeira) não matavam as ervas 

Lá fui atrás dessa mulher que até podia ser uma das minhas tias, não me recordo e, segui-a até encontrarmos a outra que regressaria com o cesto vazio. Num determinado sítio de encontro no meio dos carvalhos da Bouça, uma entregava a estafeta (o cesto cheio) e a outra entregava o cesto vazio, voltando a primeira até ao curral, junto do meu pai, para voltar a carregar outro cheio e deixar o vazio. Eram umas quatro, ou talvez cinco, a levarem os cestos de esterco até ao Colado. E, no último espaço da estafeta estava a minha mãe que se encarregava de esvaziar o cesto no local pretendido, deixando os montinhos de esterco devidamente espalhados pelas duas lavouras e mais pareciam montinhos de terra levantados pelas formigas, vistos cá de cima.


Dedaleiras de Sintra que hoje me mataram as saudades de outros tempos 

Depois, enquanto elas continuavam a sua tarefa, eu entretinha-me a apreciar as flores e, entre elas, nos sucalcos do campo, aqui ou ali, lá estava uma dedaleira, bem vistosa a desafiar-me a mim e às abelhas, para a olharmos bem e, de preferência, com amor, coisa que eu nessa época não sentia pois um dos meus entretimentos era arrancar-lhe as flores, soprar e fazer um estalido, (troque)! Por isso, lá no Norte, nas nossas aldeias bem como na Galiza, lhe chamam «estroques», mas hoje, em Sintra, ouvi, pela primeira vez, chamar-lhe "cucos".

(Um senhor que me viu quase incendiar a máquina a tirar tantas fotos às dedaleiras, disse-me logo que a mulher era do Norte chamava-lhe "estroques" e eles ali chamavam-lhe "cucos"! De facto, elas chegam com os cucos, ou os cucos com elas)!

Quando se aproximava a hora do almoço a minha mãe chamou-me para regressar com ela pois ia subir até à casa da Assureira para fazer a sopa e assar peixe, creio que eram sardinhas que a tia Pedreira, de Soajo, levara até Adrão. Se não eram sardinhas, seriam carapaus ou xixarros, os peixes que então apareciam na bandeja de zinco da tia Pedreira.


A Lage. Em fins de Agosto de 2006 estava seca, como em quase todos os Agostos de outros tempos

Subi a Bouça atrás dela mas, mais uma vez, fui o último a chegar e, quando cheguei, já ela tinha acendido o lume no burralho, colocado o pote de ferro (teria sido dos meus avós) ao lume para ferver a água para a sopa e estava a descascar batatas. Mal cheguei, pediu-me para lhe ir buscar água, numa caneca esmaltada, para as suas necessidades de cozinha e eu, que mal poderia com a caneca vazia, lá trouxe alguma água que, por esta época do ano ainda corria aqui, neste local a que chamavam a "a Lage".

Numa determinada altura, encontrei a minha mãe a deitar o sal para uma mão com muito cuidado e a fazer cálculos para deitar o sal na sopa mas, acrescentando, por fim, mais um pouquinho. Desceu para ir perguntar algo ao meu pai e eu que a achei demasiado poupada, pensei um pouco e resovi acrescentar bastante mais, pois como as pessoas trabalhavam muio teriam de ter sal que bastasse! Claro que estraguei a sopa e depois foi o diabo! Tiveram de ir à outra Assureira, a Assureira das Portas, onde duas famílias viviam a sua vida permanente e não tinham a preocupação de ir para o Eido todos os dias como nós. A "matriarca" duma dessas famílias era a tia Luisa, minha grande amiga, que logo se prontificou a ajudar e fazendo para mim para as outras pessoas, um caldo de leite como eu gostava.

Mais à frente, a mina, em Agosto de 2006 que, noutros tempos, seria a minha tormenta, quando a Lage secava. A Lage e a mina ficavam mesmo em frente da nossa porta, talvez uns 100 metros

A minha mãe, nessa altura, se pudesse, tinha-me atirado às cobras mas as senhoras que sairam prejudicadas daquela minha amabilidade de oferecer sal que chegasse para fazer uma sopa robusta não se chatearam nada, comeram o peixe e, depois, o caldo de leite da tia Luisa. À porta dessa corte, quando o meu avô desempenhava o trabalho que o meu pai fazia nesse dia, tinha eu, quando ainda não caminhava, ficado ali a dormir e quando o meu avô foi ver a razão porque eu não me calava, deu com uma cobra enroladinha nos "fatelos" deste vosso amigo, toda invejosa a querer partilhar a minha cama. Como vêm já tive, pelo menos, uma cobra minha amiga!

terça-feira, 27 de março de 2007

Um Agosto Diferente

O 28 de Agosto de 2006, foi para mim, um dia diferente de outros Agostos, também diferentes mas, muito triste.

Não posso dizer que tenha sido uma grande surpresa, mas foi uma grande tristeza. Um dia, alguém olhou o local e achou-o maravilhoso. Certamente tanto ou mais que eu, que sempre o achei. Alguém que, caminhando entre verdes carvalhos e gigantescas giestas, tojos e urzes, pensou em estabelecer ali o descanso de outras caminhadas.


Hoje como ontem os matos tragam tudo!

Olhou o vale do rio que lá ao fundo acumulava as águas das suas Montanhas Lindas (mais tarde minhas, também) e fazia-as rolar por entre rochedos graníticos, sempre a descer, umas vezes mais rápidas, outras vezes mais lentas, mas sempre rumo ao mar.

Quando era miúdo adorava aqueles montes selvagens cheios de coelhos, perdizes, raposas, texugos, ratos, ... alguns lobos mas, sobretudo, as vezeiras de cabras, ovelhas e vacas que por lá deambulavam.

Sentia o cheiro do laudano dos carvalhos misturado com outros odores genuínos de arbustos de sonhos. Sentia os cheiros das frutíferas embelezadas por flores de grande luxúria, como as flores das macieiras, das pereiras, das ameixieiras, dos pessegueiros e daquelas flores selvagens que, do meio das ervas verdes dos campos e dos prados de feno do Curral das Cabras, se erguiam e se prostravam ante nós e o nosso amigo Apolo.


Os tojos e as giestas são enormes

Por entre elas os sons genuínos de vários animais como as abelhas, os besouros, muitos pássaros, rolas, pombos, gaios, melros, pintassilgos e tantos outros, alguns dos quais, me faziam pensar duas vezes antes de dar a próxima passada perante o sibilar de uma ou outra cobra que me faziam ficar atarantado no meio de tanta beleza.

Mentes fortes e braços robustos desbravaram todas aquelas belezas virgens dos belos montes e transformaram-nas. Limparam matos, transformaram locais selvagens em campos de beleza ímpar, tratando-os. Levantaram as cortes para os seus gados com os palheiros para guardarem as palhas e os fenos e até, para lá passarem partes importantes das suas vidas. Era uma vida dura, mas era linda! Quando eu, ainda criança, subia todos aqueles fraguedos atrás das minhas vacas, olhava para trás e perguntava a Deus porqque não deu mais alguma coisa que a simples beleza? Porque havia necessidade de todos nascerem a sonhar com uma partida próxima sabia-se lá para onde?

A verdade é que eu, um simples fedelho, também sonhava com a debandada, algures para sul, para lá da serra Amarela! Procurar outras flores, outros mundos! Parti, mas reboquei tudo comigo. Esperanças e sonhos!



A porta fica do lado esquerdo (não a consegui fotografar), recebia os primeiros raios da manhã

As esperanças de uma vida melhor, mas touxe sonhos irrealizáveis! Trouxe na minha bagagem, num cantinho do meu cérebro, um espaço para sonhar sempre. Talvez um dia ... dia sem fim, seria possível ...  Não! Só foi possível ir voltando e passando por lá, mas com uma volta sempre na ponta depois de olhar, apreciar e admirar o mundo dos meus sonhos, agora ao contrário!

Fazia-me impressão, quando subia os montes da Assureira e olhava à minha direita duas casas que sempre fumegavam. A casa da tia Luisa e a casa da tia Caridade que continuavam todos os dias a acender as lareiras para dar de comer à família que ia trabalhar. Aquele era o seu Eido! Eu já levava uma boa caminhada e a saca ás costas com o pão e o conduto que durava até chegar às Fontes. Pelo meio das encostas dos nossos montes nós e os nossos gados caminhávamos com os nossos objectivos que eram cumpridos religiosamente. Manel, João, Ferrada, Pêta e demais amigos, o mundo que procuramos tragou-nos. Alguns ainda fui vendo pela vida fora, o João nunca mais vi e o Manel, vi-o uma vez em 45 anos. Se calhar, vós continuais como eu, a caminhar em sonhos pelo Barroco, pelas Fontes, pelo Poulo da Fraga, pela Chãe do Ruivo, pela Centieira, pela Presa do Cabreiro ....

Se assim é, eu continuo sempre a caminhar a vosso lado!


Tudo morre!

Mas neste Agosto quente de 2006, dia 28, aquilo que eu adivinhava como uma hipótese, transformou-se numa realidade. Nesse dia vi a morte caminhar a meu lado! Só, num silêncio atroz, tive apenas a companhia de um ou outro gaio que tiveram a amabilidade de me dizerem que continuavam por lá, aguardando-me sempre!

Mas eu desci a Portela da Assureira, de rocha em rocha, a fugir ao tojo gigante que me tentava bloquear. Não ouvia vozes como antigamente, apenas silêncio! Silêncio e destruição! O palheiro que foi de meus avós estava no chão. Desmoronou-se tudo! Telhado, sobrado, corte, lagar do vinho ... tudo! All Go With the Wind .. tal como no célebre filme. Desde Agosto que, aqui sentado, vejo passar pelos meus olhos, em imagens, a morte de um passado lindo! Passei horas aqui a reviver o passado, em imagens.


os mais resistentes também morrem

Aqui sentado, ao som das minhas músicas, eu ouço as ventanias esbarrar nos carvalhos da Assureira, cheias de fúria derrubando tudo à sua passagem. Carvalhos, muros, côrtes .... Enquanto os meus olhos vão afogando em piscinas de lágrimas, eu vou desafiando o vento! E, ao mesmo tempo, reganhando forças para voltar á Assureira, sempre, sem saber quando será a última vez..