O 28 de Agosto de 2006, foi para mim, um dia diferente de outros Agostos, também diferentes mas, muito triste.
Não posso dizer que tenha sido uma grande surpresa, mas foi uma grande tristeza. Um dia, alguém olhou o local e achou-o maravilhoso. Certamente tanto ou mais que eu, que sempre o achei. Alguém que, caminhando entre verdes carvalhos e gigantescas giestas, tojos e urzes, pensou em estabelecer ali o descanso de outras caminhadas.
Hoje como ontem os matos tragam tudo!
Olhou o vale do rio que lá ao fundo acumulava as águas das suas Montanhas Lindas (mais tarde minhas, também) e fazia-as rolar por entre rochedos graníticos, sempre a descer, umas vezes mais rápidas, outras vezes mais lentas, mas sempre rumo ao mar.
Quando era miúdo adorava aqueles montes selvagens cheios de coelhos, perdizes, raposas, texugos, ratos, ... alguns lobos mas, sobretudo, as vezeiras de cabras, ovelhas e vacas que por lá deambulavam.
Sentia o cheiro do laudano dos carvalhos misturado com outros odores genuínos de arbustos de sonhos. Sentia os cheiros das frutíferas embelezadas por flores de grande luxúria, como as flores das macieiras, das pereiras, das ameixieiras, dos pessegueiros e daquelas flores selvagens que, do meio das ervas verdes dos campos e dos prados de feno do Curral das Cabras, se erguiam e se prostravam ante nós e o nosso amigo Apolo.
Os tojos e as giestas são enormes
Por entre elas os sons genuínos de vários animais como as abelhas, os besouros, muitos pássaros, rolas, pombos, gaios, melros, pintassilgos e tantos outros, alguns dos quais, me faziam pensar duas vezes antes de dar a próxima passada perante o sibilar de uma ou outra cobra que me faziam ficar atarantado no meio de tanta beleza.
Mentes fortes e braços robustos desbravaram todas aquelas belezas virgens dos belos montes e transformaram-nas. Limparam matos, transformaram locais selvagens em campos de beleza ímpar, tratando-os. Levantaram as cortes para os seus gados com os palheiros para guardarem as palhas e os fenos e até, para lá passarem partes importantes das suas vidas. Era uma vida dura, mas era linda! Quando eu, ainda criança, subia todos aqueles fraguedos atrás das minhas vacas, olhava para trás e perguntava a Deus porqque não deu mais alguma coisa que a simples beleza? Porque havia necessidade de todos nascerem a sonhar com uma partida próxima sabia-se lá para onde?
A verdade é que eu, um simples fedelho, também sonhava com a debandada, algures para sul, para lá da serra Amarela! Procurar outras flores, outros mundos! Parti, mas reboquei tudo comigo. Esperanças e sonhos!
A porta fica do lado esquerdo (não a consegui fotografar), recebia os primeiros raios da manhã
As esperanças de uma vida melhor, mas touxe sonhos irrealizáveis! Trouxe na minha bagagem, num cantinho do meu cérebro, um espaço para sonhar sempre. Talvez um dia ... dia sem fim, seria possível ... Não! Só foi possível ir voltando e passando por lá, mas com uma volta sempre na ponta depois de olhar, apreciar e admirar o mundo dos meus sonhos, agora ao contrário!
Fazia-me impressão, quando subia os montes da Assureira e olhava à minha direita duas casas que sempre fumegavam. A casa da tia Luisa e a casa da tia Caridade que continuavam todos os dias a acender as lareiras para dar de comer à família que ia trabalhar. Aquele era o seu Eido! Eu já levava uma boa caminhada e a saca ás costas com o pão e o conduto que durava até chegar às Fontes. Pelo meio das encostas dos nossos montes nós e os nossos gados caminhávamos com os nossos objectivos que eram cumpridos religiosamente. Manel, João, Ferrada, Pêta e demais amigos, o mundo que procuramos tragou-nos. Alguns ainda fui vendo pela vida fora, o João nunca mais vi e o Manel, vi-o uma vez em 45 anos. Se calhar, vós continuais como eu, a caminhar em sonhos pelo Barroco, pelas Fontes, pelo Poulo da Fraga, pela Chãe do Ruivo, pela Centieira, pela Presa do Cabreiro ....
Se assim é, eu continuo sempre a caminhar a vosso lado!
Tudo morre!
Mas neste Agosto quente de 2006, dia 28, aquilo que eu adivinhava como uma hipótese, transformou-se numa realidade. Nesse dia vi a morte caminhar a meu lado! Só, num silêncio atroz, tive apenas a companhia de um ou outro gaio que tiveram a amabilidade de me dizerem que continuavam por lá, aguardando-me sempre!
Mas eu desci a Portela da Assureira, de rocha em rocha, a fugir ao tojo gigante que me tentava bloquear. Não ouvia vozes como antigamente, apenas silêncio! Silêncio e destruição! O palheiro que foi de meus avós estava no chão. Desmoronou-se tudo! Telhado, sobrado, corte, lagar do vinho ... tudo! All Go With the Wind .. tal como no célebre filme. Desde Agosto que, aqui sentado, vejo passar pelos meus olhos, em imagens, a morte de um passado lindo! Passei horas aqui a reviver o passado, em imagens.
os mais resistentes também morrem
Aqui sentado, ao som das minhas músicas, eu ouço as ventanias esbarrar nos carvalhos da Assureira, cheias de fúria derrubando tudo à sua passagem. Carvalhos, muros, côrtes .... Enquanto os meus olhos vão afogando em piscinas de lágrimas, eu vou desafiando o vento! E, ao mesmo tempo, reganhando forças para voltar á Assureira, sempre, sem saber quando será a última vez..





Olá.Esta tua fala, apesar da dor ou por causa dela está maravilhosa.Sinto pela tua tristeza, mas me fizeste viajar por esse teu mundo.Um grande abraço e fica bem!
ResponderEliminarOlá amigo. As viagens ao passado têm sempre destas coisas.. as alegrias ficam esmagadas pela tristeza e saudade do que não se pode mais recuperar. Sei bem o que sentes. A maioria de nós verte lágrimas idênticas. Um forte abraço e um beijinho
ResponderEliminarAna Ramon
Através das tuas palavras, viajei até esses locais, desconhecidos para mim, mas imaginados no meu sonho de partir para uma vida simples, em plena Natureza.
ResponderEliminarObrigada
Paula
Olá Ventor as tuas letras foram tão sinceras que me comoveste mesmo também eu fiquei emocionada com as tuas lágrimas, de ver tudo sem vida o palheiro no chão tudo acabado, mas tens paisagens lindas e lugares, para fechares os olhos e recordares, eu recordações de lugares bonitos só se for o pátio da minha avó caiado e cheio de vasos de flores.
ResponderEliminarGraças a ti vou conhecendo estas serras e estes lugares talvez um dia os visite, não não será possivel certamente pois devem ser lugares por estradas por onde só quem conhece.
Boa Pascoa se não comentar antes
Beijinho
Aldora
Ao ler os teus textos fica-se com a sensação que tudo aquilo que vês ou lembras também era nosso. E por isso choramos contigo.
ResponderEliminarQuanto ao comentário que deixaste no meu blog temposantigos, respondo que não conheci a minha bisavó Quitéria mas a minha Avó falava tanto da sua Máe que acho que posso dizer que afinal a conheci. E guardo as recordações dela, essas pequenas coisas que a minha Avó gurdou com todo o carinho numa pequena caixa, Tu, guardas montanhas!!!!