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quarta-feira, 10 de julho de 2013

À Sombra de Azinheira

Ontem, dia 09 de Julho, entre as 09:30h e as 10:45 horas, estive dentro do carro, à sombra de umas azinheiras, junto de um jardim de Lisboa. O termómetro do carro, à sombra, marcava 30º C. Eu ia observando as flores lindas dos aloendros, as hortênsias, as bolotas das azinheiras a crescer, a relva regada, as empregadas da escola, em frente, a fazer as limpezas mas, pássaros, nem um!

Apenas via as andorinhas voando muito alto nas suas caçadas aos insectos. Que seria dos meus amigos penudos? Estariam afastados pelo calor? Não é a primeira vez que paro por ali, nem a segunda, nem a terceira, nem, ... por aí fora. Já lá estive parado com temperaturas amenas, com frio e com calor e sempre lá vi pássaros! Rolas turcas, melros, pintassilgos, pardais, ... gaios! Os pais gaios perseguindo os seus filhotes para os manter agrupados e lhes dar de comer. E ontem, nada! Foi uma hora e 15 minutos sem ver nada!

Comecei a pensar na estratégia para o próximo ano, caso atinja temperaturas semelhantes às que nos têm atingido.

Nestes dias de canícula, caminhar pelos grandes Centro Comerciais como o Colombo, o Alegro e outros. Há sempre coisas para comprar e podem ser compradas pela fresca dos ares condicionados. Ontem por exemplo, comprei um disco externo (2TB) para arquivar as minhas novas fotos. Observei tudo, não com muita calma devido à falta de tempo, bebi o meu café e, deixei outras compras de reserva.



Alto da Pedrada -a meta

No próximo dia de canícula, terei, pelo menos, mais uma compra para fazer. Um cartão adequado para a minha máquina! Não sei se comprar um com 32 GB ou com 64 GB! Já sei que, se conseguir ir à Pedrada, no próximo Agosto, esperarei que não chova, terei que pedir ao meu amigo Eolo para tentar colocar as suas ventoinhas a trabalhar com suavidade. Quero subir a minha serra, sempre em posição de disparo.

Quero atravessar o planalto da Naia a clicar em todas as direcções. Direita, sobre os rouceiros, a Peneda, a Gavieira, ... esquerda, sobre o Alto do Lombo, ... frente, sobre o Muranho, a Derrilheira, a Serrinha, ... e rectaguarda, tudo o que for ficando para trás. Quero observar bem as falhas que fazem deslizar o Alto da Derrilheira, deixando-se abater e ficando mais atarracado.



Portela - para lá Peneda, para cá Adrão

Vou tentar abater dois kg para, quando me encontrar lá em cima, trazer até aos meus olhos, pelo visor da minha máquina, as borboletas que esvoaçarem nos socalcos da Veiga, os coelhos que passearem na Chãe do Ruivo ou, as lagartixas que, nas Fontes caminhem sobre a pedra que serve de lápide ao meu Quico. Da Serrinha, quero trazer até aos meus olhos, o Poulo de Adrão, na serra da Peneda e, ver caminhar entre os seus fetos, as almas da minha gente das grandes transumâncias.



Alto da Derrilheira

Quero subir à Pedrada com a máquina pronta a abrir "fogo" de rajada sobre a cobra que me costuma desafiar e fugir para as pedras do "palácio inacabado", gritando: "salvé, Ventor"!

Quero rebocar o buraco do Fojo do Lobo até à ponta do meu nariz. Quero ouvir a mesma algazarra que ouvi na montaria quando o meu pai matou a loba rabicha, quando as mauzers dos guardas fiscais e florestais cuspiam balas sobre o tal lobo ricocheteando nas pedras de granito e ver nas reentrâncias dos muros as pessoas que gritavam com euforia: "eh, cão, eh, cão", enquanto a desgraçada fugia rumo ao boraco!

O nosso Fojo do Lobo

Foi esse o dia que tive perto de mim, a 10-15 metros, o lobo "mau", por duas vezes. Da primeira, fiz tanta algazarra que voltou rumo à corga das Forcadas, depois, sobre o fogo intenso dos que vinham pelo Curral do Pai, voltou a correr em minha direcção, cravou os olhos nos meus e disse: "um de nós vai ficar mal, Ventor"! Foi dessa segunda vez que o Ti Zé Ribeiro, correndo em meu auxílio, apontou a sua espingarda de carregar pela boca e lhe acertou com os pedaços de ferro de um pote velho, no lombo do lobo (depois de morta vimos que era loba), ela desviou-se para a minha direita e iniciou a corrida na direcção que não devia, rumo ao buraco do Fojo. Ela corria por dentro do muro e eu por fora, pedindo a todos os santos para a tirar de lá. Sempre que passo naquele sítio, vejo os olhos da loba cravados nos meus. Se fosse hoje teria arranjado maneira de ela fugir para os lados da Brusca e nunca mais a viam!



No monte da parte superor direita desta foto, de manhã, vimos o primeiro lobo nessa montaria. Pela sua cor, podeira ter sido a loba rabicha, morta mais tarde

Foi tudo isso que me levou a pensar, desde então, que os lobos e os homens devem continuar a caminhar juntos na bela serra de Soajo e ficarmos a recordar tudo aquilo, como um monumentos aos nossos antepassados e aos lobos que tombaram nessas lutas inglórias.

É por isso que eu gosto de ir à Pedrada e levo sempre na minha caixa craniana uma vontade enorme de voltar a ver, por lá, mais um lobo, mais um amigo que, tal como os outros, nunca mais esqueceria.

Continuo a viver essas esperanças! A esperança de voltar à Pedrada e a esperança de voltar a ver mais um lobo por lá.

Tenho esperança que a minha máquina me ajude nessa busca.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

À Conquista de Soajo

À conquista de Soajo, ao redor de Adrão mas, longe da Pedrada!


A Casa do Souto, em Soajo

Longe da Pedrada, longe das minhas fontes, nas alturas. Da Fonte da Naia, da Fonte do Muranho, da Fonte da Corga da Vagem, das minhas alcatifas preferidas!

Sempre achei que as minhas alcatifas preferidas, são aquelas que são constituídas pelas carrascas floridas, pintadas de rosa, pelas carquejas, pelos fetos verdes, pelas ervas que dão ânimo às rainhas das montanhas, pelas urzes ...

Tão perto e tão longe de tudo!



A Casa do Souto, em Soajo

Mas não foi chita!

Estive nas Fontes, na minha Parnaso!

Ali, mais uma vez, só eu, o meu Quico e as Ninfas das Fontes. Ali, como em todos os pontos das minhas Montanhas Lindas, sinto-me sempre acompanhado! Apenas, uma égua garrana e o seu filhote, mais um ou uma companheira das suas caminhadas e duas vacas que rumavam à Cascalheira, comendo e, mais um ou outro pássaro, os meus companheiros chascos, eram os únicos seres vivos que fizeram companhia, naquela jornada, ao Ventor.



Uma bota galega para transportar bebidas, a botelha galega

Vi Adrão da Barreira para baixo, vi Adrão da estrada para a Peneda e depois para Paradela e, no último dia, vi Adrão enquanto descíamos a Quelha da Costa até ao sítio da volta. Olhei os caniços, a velha latada e, lá mais longe, observei a Coroa dos meus amigos Caturnos, o Marco d'Além, o Gondomil, observei a zona da Corga Grande, o Penedo do Osso, o Picoto, a Férrea, cumprimentamos a Teresa do Valente e, sem mais, desisti de atravessar o Cabo do Eido, de olhar a janela dos meus sonhos, atravessar o Eirado, em frente da nossa Capela, dirigir-me para Outeiros ou para a ponte, seguir pelo Carril até ao Portinho d'Além e, observar as libelinhas sobre as águas do rio a dançarem para mim.



Uma cabaça de Soajo, para transportar bebidas. Bem mais frágil que "la botelha galega"

Já passeei por Adrão, de noite, sonhando, numa noite de chumbo com o meu cavalo Antar, sem ver ninguém. Só no fim, num retorno apressado e barulhento desde o Carril, as pessoas, talvez por receio, fizeram ranger as portas nos gonzos e acabei por ver nitidamente o meu pai, a minha mãe e algumas pessoas a caminharem para mim mas que não deu para as identificar! Desta vez, bem acordado, com o coração a pulsar, deixei na Teresa do Valente, a mãe dos filhos do meu primo Diogo, o beijo que partilhará, mesmo que não o saiba, com toda a gente de Adrão. Foi uma mensagem, ... de um sonho. Sim, porque também concretizei um sonho! O sonho de ver uma das suas filhotas, a Rosa, que já não via há muitos anos, devido a andarmos perdidos pelos cantos dos nossos mundos.


Canastros de Soajo ou espigueiros, vistos da casa do Souto

Mas, o fenómeno persiste! Caminhar em redor das minhas Montanhas Lindas e sonhar! Sonhar com realidades passadas, sonhar com possibilidades de realidades futuras, sonhar sempre com a minha gente, com os meus sítios, ...

Mas olhei a Senhora da Peneda, em Soajo, na festa de Nossa Senhora das Dores, vi o Seu casarão, na Peneda, comi o bacalhau com broa, no Miradouro, em Castro Laboreiro.



A mó invertida de um moinho, para servir de mesa, para os grelhados

Continuo a ver Paradela de passagem pela estrada ou de Lindoso, passei pela Várzea, pela Ponte da Barca, pela Senhora da Paz, pelos Arcos, ... ao lado dos Malinos, com o ribombar dos seus bombos, os acordes das suas concertinas, tudo isto porque nos Arcos também havia festa e, tudo terminou depressa!

No regresso, almocei cabrito, em Ponte de Lima, lanchei pão-de-ló, em Arouca, subimos à serra da Freita que atravessamos fazendo passear os nossos olhos pelas suas paisagens deslumbrantes, a perder de vista e, pelos seus céus, sobre as nossas cabeças, passeou uma águia que, procurando lanche, apressadamente, cumprimentou o Ventor. Prosseguimos até ao local da frecha da Mizarela, onde as águas que rolavam, em precipício, lançando-se das alturas, sobre o rio Caima, gritavam, saudando o Ventor.



Uma poupa, companheira de uma caminhada disparatada do Ventor, que pretendia ir a pé para Adrão. A poupa bem avisou o Ventor! Com esta canícula, sem água, sem chapéu, sem caminhos, sem cajado, seria um disparate, porque o Ventor tentou fazer a encosta, frente à Açoreira! A poupa era penteada pelos pinheiros e o Ventor pelas giestas

Mas, desta vez, a beleza de Soajo, permaneceu a meu lado, pelo cair da noite e pela chegada da alvorada, por terras do Souto, com os cânticos dos pássaros. Dali, rolando rumo ao Mesio, a Adrão, os girassóis sorrindo ao sol da manhã, se perfilavam, saudando Apolo e Ventor que, mais uma vez, se encontravam juntos em redor das suas Montanhas Lindas.

Nessa caminhada de seis dias, por Soajo, sob as suas latadas, recordo-me que não "roubei", aos soajeiros, um único bago de uvas para matar saudades. Para mim, foi como se, quando entrei na noite de sábado, na Igreja de Soajo, bem como no domingo de manhã, não tivesse visto perfilados, de ambos os lados, todos os santos que, conjuntamente, com a Senhora das Dores, iriam participar na sua festa.


Mas, depois de um  bacalhau com broa, em Castro Laboreiro, matei a sede, na nascente das Fontes

Eu sei, eu sei! Não precisava de ser tão puritano. Não seria pecado tirar um bago de uvas para provar as uvas das velhas latadas de Soajo. Mas caminhei por Soajo, na sua conquista. Talvez melhor, reconquista!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Como um Lobo Solitário

No dia 12 de Agosto, neste ano de 2010, levantei-me muito cedo no Hotel de Castro Laboreiro. Espreitei pela janela e, grande desilusão, as nuvens, bem negras, voavam no horizonte, bem baixinhas.

Fui tomar duche e, sem esperanças, aperaltar-me para, se o tempo me deixasse, realizar a minha esperada caminhada à Pedrada. Quando tomava duche, pensei na hipótese de, se a chuva caísse, mandasse para casa os bombeiros que exaustos ou não, lutavam contra os fogos que lavravam nas suas fraldas.

Descansadamente, sem pressas, convenci-me que não haveria caminhada mas, depois de tomarmos o pequeno almoço no Hotel e de beber mais um café, junto ao Restaurante Miradouro, tive uma sinfonia de corvos, monte acima, a dizer-me que, fosse como fosse, mais um dia se iria passar.

Já tarde, iniciamos a viagem, rumo à Peneda e, olhava o céu onde farrapos de nuvens dançavam para mim, nos cabeços de Castro Laboreiro. Mas as notícias, na rádio do carro, não eram boas! Soajo continuava a luta contra os incêndios. Mau, mau, mau .... pensava eu, baixinho. Trocava a minha ida à Pedrada por uma valente chuvada que acabasse com estes incêndios. Passamos a Peneda, Rouças, Tibo e atravessamos a Portela de baixo, rumo a Adrão. Chegamos ao Fojo e disse: "fico aqui"!

Seguiram rumo a Arcos de Valdevez mas antes, ainda conversamos com um amigo que nos pareceu esfomeado. A minha companheira, que adora animais, assaltou-me o farnel para dar um quinhãozito dele a esse amigo que, se calhar, alguém terá abandonado por ali. Comeu quase todo o resto à noite. Cego de um olho e com dois buracos na garganta feitos por uma dentada. Ele subiu comigo até à Portela, mas eu desencorajei-o a acompanhar-me porque, lá em cima, andaria o Tomé, o cão do Zé Manel e, possivelmente, haveriam lutas desnecessárias. Junto ao Cruzeiro da Portela de Cima, com vistas para Adrão e para a Senhora da Peneda, ele entendeu e lá ficou para trás.

O Cruzeiro da Portela de Cima, entre Adrão e a Senhora da Peneda

Segui só! Só, tal como um lobo solitário!

Se há coisa neste mundo que eu goste, é ver as rainhas das montanhas a observar-me, firmando a vista, de cabeça levantada, não vá ser o seu dono que as procure.

Quando passei as Lameiras, calculando que só tarde iria encontrar os meus amigos, pois levava três a quatro horas de atraso, troquei o estradão dos jipes por uma caminhada nos horizontes da Corga Grande, até ao Penedo do Osso, sempre com Adrão à vista, pela minha esquerda e os fumos de Cabril, no horizonte oposto e os de Soajo, lá no fundo.

Ao chegar ao Penedo do Osso, das quatro vacas que ali se encontravam, houve uma que caminhou ao meu encontro alguns 100 metros e orneou. Falei com ela e ela serenou. Parecia dizer-me: "já vi que não és o meu dono e que nunca mais os vais apanhar"! 

Uma galanta, nas minhas Montanhas Lindas

Rumei, então, à Fonte da Naia, já cheio de sede, pois o calor era bastante e a pujança da caminhada era fraca. Observava cada pedra, cada moita que, devido ao isolamento, conseguira escapar ao incêndio de 2006. Sempre que caminho nos meus montes, sinto-me rodeado de gente! É essa a minha sensação. Nunca estou só! Ao chegar à Fonte da Naia, saía alguma água por cima da pedra que o Luis e o António estiveram a arranjar o ano passado e, a outra saía por baixo. Mal a olhei, vi saltar um sapo e outro, talvez uma princesa do mundo das fadas, ficou a conversar comigo:

Uma princesa encantada na Fonte da Naia

"que fazes aqui Ventor? Tu não vais beber água porque tens nojo de mim? Podes beber, Ventor, eu não sou tão peçonhenta como tu sempre ouviste dizer. Eu sou um anjo nas tuas montanhas lindas! Eu sabia que tu vinhas aí e sabia que tu irias mudar de rota só para me veres. Tu não estás a ver um sapo, Ventor! Tu estás a ver uma Ninfa das Fontes! Tal como viste nas Fontes, no Sítio do Quico. Aquelas rãzinhas que viste nas fontes eram as ninfas que tu viste quando sonhaste. Elas lá e nós cá, caminhamos sempre acompanhando o Quico. Tu sabes bem, Ventor, porque o trouxeste para cá! Sabes porque decidiste leva-lo para a fonte da tua meninice. Tu conheceste essa fonte de cueiros e bebias água sempre que lá passavas. Por aqui, só mais tarde conseguiste caminhar, olhar-nos e, posso mesmo dizer, aparentemente, adorar-nos! Nós fazemos parte de ti Ventor! Tu, as nossas Montanhas Lindas, as nossas fontes, o Quico e, muito mais, somos os guardiões desta bela serra a que outros, uns asnos, já dão outro nome, mas que para nós, será sempre a serra de Soajo. Tu vais viver sempre aqui, Ventor, connosco. Nós somos quem vela pela fonte da Naia"!

domingo, 11 de outubro de 2009

Uma Caminhada pelas Trevas

Mais um sonho!

Sonhei mais uma vez com o meu gato Quico.

Foi um sonho muito esquisito, maluco, até, mas deve derivar de um conjunto de imagens e brincadeiras que ia tendo com o Quico e não só.

Eu dizia ao Quico que tinha de se portar bem, senão, quando voltássemos a encontrar-nos no Portal do Egipto, não voltaria a entrar comigo no Planeta Terra.

Por ali, pelo Portal do Egipto, onde os Faraós adoravam os gatos, entrávamos, saíamos, entrávamos, saíamos, e ...  por diante. Era sempre por ali, o nosso local de entrada e de saída!

Há tempos, interessei-me por um livro dos Templários, com o título de: "A Grande Aventura dos Templários" (da Origem ao Fim) de Alain Demurger.

Chegava, colocava música e, por vezes, colocava o livro junto do computador para ir lendo aos poucos e (ou) ouvir música. Ia à cozinha buscar uma bebida e, quando chegava, o Quico estava deitado sobre o livro! Ao olhá-lo, ele parecia-me tão bem que eu acabava por fazer qualquer coisa diferente para ele ficar sossegado. Ele gostava de fazer isso com este livro e eu limitava-me a achar-lhe piada. Parecia não querer que eu lesse o livro!

Eu olhava a capa do livro e dizia-lhe a brincar: "vês! Se calhar, seremos eu e o Antar"! Será baseado nessas brincadeiras com o Quico que me levou a mais um sonho?

Os Templários, como será mais que óbvio, já morreram todos (ou mataram-nos) e os cavalos brancos, pretos, castanhos, malhados, ou ... dos Templários, também.

Mas como eu perdi o Quico, o anjo que o Senhor da Esfera mandou ao Planeta Azul sobre a forma de gato, cujo fio de vida foi cortado pela tesoura da Moira Átropos, agora passo o resto da minha vida a sonhar com ele. E, mais uma vez, devido a uns zum-zuns que acabei de ouvir sobre a pretensão de Marduk, aquele meu "amigo" de estimação, tive de voltar a sair pelo Portal do Egipto.

Neste sonho parti sózinho! Penetrei no Universo e fui colocar-me na fronteira entre a Luz e as Trevas, mas do lado das Trevas, local que os homens de Marduk temiam.

Pois foi assim !

Eu caminhava, rumo a sul, num sítio desconhecido, entre lindas árvores verdes, onde predominava o cheiro do láudano dos carvalhos e as nuvens brancas esvoaçavam para leste. Ao meu lado, de entre as árvores,  chegavam vozes que cuscuvelhavam ao verem-me passar. Dos cusculhos que os meus ouvidos registaram só fixei a seguinte frase: "vê lá tu o que aconteceria se o Ventor viesse a saber que o Marduk mandou apanhar o gato Quico para atirar com ele para o lado das Trevas, só para o chatear"!

O cheiro do láudano dos carvalhos ainda parece estar nas minhas pituitárias

Fiquei desaustinado! Dei mais umas passadas apressadas sobre as ervas, por entre as árvores e dirigi-me, correndo, a uma casa isolada no campo onde estava pendurado, numa trave, um equipamento de combate dos Templários. Como adivinhava que o meu combate seria à Porta das Trevas, pintei-o todo de negro e vesti-o! Só havia um local das Trevas por onde o Marduk seria capaz de atirar com o Quico e só o Marduk e eu, além do Senhor da Esfera e mais uns poucos sabíamos onde! Assim, todo vestido de negro e armado com uma poderosa espada reluzente que também escureci, penetrei no tal Portal do Egipto e atravessei todo o Universo colocando-me na fronteira da Luz e das Trevas mas, do lado escuro.

Ali, chegaram seres horrorosos, semelhantes a homens, que me viram entrar. Eram uns escroques que compunham as poderosa forças de Marduk, que com compridas lanças de metal começaram a esfuracar nas trevas para me espetarem no escuro, mas não me viam e eu, das Trevas para a Luz, controlava todos os seus movimentos. Quando a minha espada saía das trevas, só cortava cabeças. Mas eu estava só e os marduquistas, que nunca mais acabavam, estavam aterrorizados. Eles morriam tantos que, os sobreviventes, horrorizados, passaram a  esconder-se por trás de pequenas rochas onduladas que brilhavam na Luz intensa, mesmo à minha frente. De vez em quando perfilavam-se e atacavam ferozmente e eu, sempre a cortar cabeças!

De repente, dentro das próprias Trevas senti que algo se aproximava de mim! Os meus olhos nada viam, mas eu controlava uns ínfimos sopros de vida a aproximarem-se e, de repente, a minha espada virou-se para o local certo. Uma voz, quase surda, informou-me: «está quieto Ventor, já não estás só! Somos nós, o Mitonde e o Antar"!

Foi um momento divino, em que exaltei, mentalmente, o Senhor da Esfera por me proporcionar, uma satisfação imensa pelo facto de passar a ter ali, juntos comigo, dois velhíssimos companheios, das minhas caminhadas, em sonhos.

O Mitonde era ferreiro na Atlântida, e também o ferreiro do Antar, nesse tempo! E eu já não via o Antar desde que acompanhei a minha mãe até às Portas do Paraíso, quando partiu de uma bela visita que me fez, numa altura que eu caminhava, sonhando, pelo Curral das Cabras, rumo à Assureira. Junto às Portas do Paraíso, de uma beleza ímpar, a minha mãe mandava-me ir embora, regressar para onde pertencia e o Antar por trás das belas Muralhas, só me mostrava a cabeça e relinchava, correndo de um lado para o outro. Nunca esqueço este sonho.

E o Mitonde, prosseguiu: "camuflei o Antar de negro e coloquei-lhe umas ferraduras silenciosas, para não ser visto nem ouvido no escuro. Sabemos que há por aí muitos do Marduk"!

Depois o Antar continuou: « ... mas as minhas informações, não confirmadas, é que se trata de uma cilada feita pelas segundas linhas do Marduk, para vos fazerem lutar um com o outro e tornar tudo num desassossego. Seja como fôr, estou, junto de ti, para não permitirmos que o Marduk e (ou) os seus homens, retirem o Quico da Luz e também, se necessário fôr, para glorificarmos, mais uma vez, o combate da Luz sobre as trevas»!.

Eu tinha deixado de tentar pôr os olhos neles, porque não os via e procurava tudo o que se mexia no lado da Luz!

E o Antar continuou ... «A informção que tenho é que o Marduk não sabe nada do que se está a passar. Que o Quico está longe daqui, onde tu o deixaste e que está guardado por lobos que, tiveram a mesma informação que tu e, por isso, prontos para lutar contra todos esses marduquistas».

Podiam ser o Ventor e o Antar a sairem do interior das Trevas

Saltei para cima do Antar, disse ao Mitonde para guardar o Portal das Trevas, e nunca acreditar em nada à sua volta e mal entramos na Luz, eu montando o Antar, escuros como o bréu, só via fugas à nossa volta. Nenhum marduquista procurava defender-se! Eles ficaram todos horrorizados por nos verem juntos e fugiam para esconder-se em qualquer sítio.

Voltei com o Antar pelo Portal do Egipto e, de repente, vi-me a sobrevoar os mapas Google sobre o mar Mediterrâneo e a nossa costa Atântica, só começando a sentir-me com toda a naturalidade quando camihávamos sobre a serra de Arga, rumo à Pedrada, onde o meu Antar reduziu mais a  velocidade para pairarmos sobre a Corga da Vagem e, para me conseguir alegrar, fez uma paragem sobre o Alto da Derrilheira de onde via o meu mundo - o meu Berço!

Daqui, do Alto da Derrilheira, observamos tudo ao redor de Adrão

Lá longe, observei uns pontos minúsculos e o Antar, tão preocupado como eu, acelerou a marcha e levou-me sobre Adrão para os Montes da Assureira, onde, finalmente, lá nas Fontes, confirmei que os lobos guardavam o Quico. Era um circo de lobos com o meu Quico no meio e todos, observavam, a nossa chegada. Mas, a minha alegria foi tão grande que, quando ia dizer ao Antar para irmos buscar o Mitonde, acordei.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

No Sítio do Quico

Voltei a sonhar com o meu Quico, mas não o vi!

Os sonhos podem não ter explicações, mas creio haver sempre uma predisposição psico-somática que nos leva a isso. A sonhar!

Já passaram 5 dias sobre a morte do meu companheirinho de caminhadas lindas e ainda hoje me parece que ele anda aqui comigo. Tal como me aconteceu com o Rafinho, o meu coelhinho anão, está-me a ser terrível, meter na "corneta" que o perdi para sempre. Cada passada que dou, a prioridade é não pisar o Quico, é procurar o seu comer, a sua água e até julgo que nunca mais deixo de o ter à minha volta. É um duelo terrível entre a sua existência passada e a certeza de que o perdi.

Eu sei que adorei este gato, que foi um grande amigo e que tínhamos a nossa maneira habilidosa para falarmos um com o outro. Nós entendíamo-nos perfeitamente. Ainda há pouco tempo eu a brincar com ele lhe dizia que ele iria ecapar à turbulência cá de casa, e que iria resistir a tudo, por isso, eu  iria procurar alguém para ficar com  ele quando a Dona e eu resolvêssemos iniciar a caminhada final.

Ele parecia vender saúde e, de repente, cançou!

Não é por acaso que voltei a sonhar com ele! Dois dias depois, de o levar, dirigi-me às minhas Montanhas Lindas, em sonho, para o procurar. Achei que, se fosse lá, o via! Mas eu cheguei, cansei-me a procurá-lo por uma boa área em volta do seu sítio e, nada!

Estas foram as fontes que eu vi. As minhas Fontes

Já cansado, transpirado, todo sujo, cheguei à nascente das Fontes, onde ia beber água. Ali, encontrei duas mulheres muito lindas vestidas com vestidos pretos que se dirigiram para mim. Ao chegar junto delas, perguntei-lhes o que estavam ali a fazer, pois não me pareciam dos lugares em volta. Pois, por ali, vestidos negros, tão lindos, ninguém lhes dá uso. Elas eram muito bonitas e achei muito esquisito estarem por ali sòzinhas, pois não via mais ninguém.

Uma das duas mulheres chegou junto de mim e disse, sorrindo: "olá Ventor! Nós somos as Ninfas das Fontes, e velamos pelas suas águas e pelo Quico". Observou-me e disse: "estás muito cansado Ventor"!

«Estou! Estou cansado e sujo» - disse eu. «Estou farto de andar por aí às voltas a ver se vejo o Quico, pois estava convencido que o iria ver hoje»! Depois desanimado disse-lhes: «Não me podem mostrar o Quico»?

A mesma Ninfa, aproximou-se de mim, muito triste, e disse: "não, Ventor! Tu és um homem e o Senhor da Esfera não permite que tu vejas o Quico! Só um dia poderás voltar a ver o Quico e a brincar com ele. Mas não te preocupes, porque ele anda por aqui connosco"!

Olhei em volta e vi tudo tão natural como realmente é. Olhei o pequeno tanque de betão para reservar maior quantidade de água para os animais e, disse-lhes: «estou tão sujo! Se vocês não estivessem aqui, entrava naquele pequeno tanque e, se não me lavasse, pelo menos, refrescava-me».

Esta foi a parte moderna que vi no sonho! Queria entrar e refrescar-me!

"Não te preocupes que nós vamos dar-te banho! O Senhor da Esfera, isso não nos proibiu"! E, uma delas, a que permanecia calada, sorrindo, levantou os braços e colocou um biombo e um duche. Eu entrei, despi-me, meti-me debaixo do chuveiro, muito bonito, comecei a mulhar-me e, de repente, faltou a água.

«Então a água já acabou»? - Perguntei eu!

"Não Ventor, vais ter muita água"! - Disse a ninfa faladora.

Ela levantou os braços, apontou-os à Fonte e a água começou a jorrar sobre mim.

Depois de me lavar bem lavado, a que estava sempre calada, só tinha sorrisos, estendeu-me uma toalha muito bonita mas, semelhante àquela onde embrulhei o meu Quico.

«Vocês roubaram a toalha ao Quico»?

"Não, Ventor! Essa toalha é outra! É semelhante àquela onde trazias o Quico embrulhado só para te recordar que nós estivemos presentes, embora tu não nos conseguisses ver"!

«Bom, se não posso ver o Quico, vou-me embora. Obrigado pelo banho».

A sempre sorridente e conversadora, disse: "vai Ventor! Vem aí muita gente visitar o sítio do Quico, mas ninguém o vê e depois vêm todos beber água nesta nascente".

Então, a ninfa muda, pois nunca falou comigo, fez-me uma festa no queixo, sorrindo, e, a sua companheira faladora, levantou o braço, sorriu e acenou-me, desaparecendo as duas ao mesmo tempo, no local da nascente.

Eu comecei a ouvir a algazarra de pessoas que se dirigiam à nascente para beber água, mas só vi uma velhota aproximar-se, tendo todas as outras ficado para trás, junto do sítio do Quico. Olhei a velhota já tão cansada e acordei sem ver as outras pessoas ...

Levantei-me, fui à cozinha beber água com muito cuidado para não pisar o Quico e, como me certifiquei da realidade, não vendo os seus comedouros, nem a sua água, fiquei por ali a limpar as lágrimas, caladinho.