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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Bicho da Peçonha

  Ventor 19.10.20

Mais uma história verdadeira que aqui vos deixo. Estes bichos sempre me meteram respeito. Em plena caminhada de fins de uma Primavera linda, dia cheio de sol, de flores, de pássaros de um ano qualquer do tempo que já passou, as gentes de Adrão faziam os seus trabalhos nos campos, atrás das vacas, das cabras, das ovelhas, das galinhas, dos porcos ... Uns sachavam o milho, outros regavam-no, outros tratavam das hortas. Na aldeia, à sombra das latadas ou das casas, um velho aqui outro ali, conversando com outro e, chateados pelo silêncio da aldeia, as galinhas cacarejavam ou cantavam a plenos pulmões enquanto um ou outro galo a solo, replicavam pelos cantos da aldeia. Nestas circunstâncias, muitas vezes a solidão era derrubada pelos cânticos das galinhas, dos galos e do latir de um ou outro cão que se estiravam à porta da casa.

Mais aqui ou mais ali, alguém chegava de uma missão e alguém partia para outra mas o grosso das gentes estava pelos campos.

Era um bicho semelhante a este, o terror da aldeia, para muita gente

Maria, era já uma mulher e partiu para a sua azáfama do momento. Descalça, desce o caminho da Veiga, juntamente com a água da rega que vai saindo do rego, num ou outro buraco aberto pelas toupeiras, ou pelos danos causados pelas passagens das pessoas, aqui ou ali. Ela ia cortar erva para o vitelo. Nesse tempo, o calçado era utilizado conforme os caminhos. Em zonas de tojo, de silvas, de cobras, isto é, caminhar nos matos ou nas bouças, era necessário calçar qualquer coisa, nem que fossem umas alpergatas espanholas. Havia umas alpergatas todas de borracha adequadas para esses caminhos molhados mas não tinha importância, porque era moda as mulheres andarem descalças. Era moda e era poupança, pois era difícil ir buscar o calçado onde quer que fosse, quer dentro de Portugal quer a Espanha e isso obrigava a grande zelo para que esses bens se tornassem muito duradouros.

Para ir a Espanha, onde havia quase tudo, os riscos eram enormes pois a Guarda-Fiscal podia arrestar as mercadorias, depois de um carrego por carreiros de montanhas e atravessar o rio da Várzea, num local terrível a que chamavam o Salto e, cá dentro, a camioneta para Arcos de Valdevez ou para a Ponte da Barca, em dias de feira, apanhava-se em Soajo, hora e meia a pé a andar bem. Nas feiras dos Arcos ou da Barca, comprar as coisas e guarda-las em sítios de confiança, normalmente nas lojas ou alguma casa de gente amiga para não se andar carregado. Depois, ao cair da tarde, juntar tudo e ala que se faz tarde.

Retornados a Soajo, era hora de alombar! Carga às costas ou à cabeça, às vezes já de noite, sempre a subir, com hora e meia de retorno, desta vez muito mais comprida e mais custosa, devido ao carrego e ao cansaço do dia, numa azáfama física e intelectual, pois era necessário guardar na memória o que não era possível colocar no papel, devido ao analfabetismo.

Maria, tal como outras Marias, Rosas, Teresas … lá da aldeia, por falta de dinheiro e também para não passarem por isto, faziam tudo para só, no mínimo de vezes possível, e por grande necessidade, fazerem essa deslocação. Daí, por essas razões e também por hábito, o caminharem descalças em sítios que hoje me faz estarrecer o físico, o espírito e a alma, quando percebo como sítios tão belos instigaram tanto sofrimento.

Peludos ou carecas, metem respeito

Mas eu ia falar do Bicho da Peçonha! Como puderam ver atrás, este bicho era de estaleca, pois a "peçonha" estava sempre presente em todos os momentos da vida da nossa aldeia. No entanto, eu queria falar mesmo do bicho! O bicho da peçonha era um bicho peludo, muito grande, maior que o meu dedo do meio hoje e eu julgo que poderá ser o “catarpilar” de uma mariposa. Para mim era feio, feio a valer, e dava-se bem no meio das ervas pelo fim da Primavera, princípios do Verão.

Como o tempo era sempre curto, Maria apanhou a erva para o bezerro, à pressa e enfeixou-a numa verga de salgueiro, carregou-a à cabeça e subiu pelo caminho, até casa, a ouvir cantarolar a água da rega que saía do rego e escorria pelos caminhos, por entre pedras e tufos de ervas. Ao chegar debaixo da latada do Ti Cortez, junto à fontinha do Cabo do Eido, atirou o molho de ervas para o chão e deu um grande grito! Sentiu uma picada na testa, ficou com uma bolha e começou a avermelhar. Os velhotes que ali estavam sentados à sombra, gritaram: “que tens Maria”? “Tenho uma dor na testa, algum bicho me mordeu”! Todos acorreram a ajudar e no meio da erva toda, apenas apareceu o grande bicho peludo! Dizem que os bichos de onde provêm as borboletas não têm apetite por carnes (terá sido uma vespa?) e eu lembrei-me de muita coisa e dessa pequena história de uma Maria da minha aldeia que era e penso que ainda é Maria. Na verdade eu fugia desses bichos a sete pés e todos que via matava. Hoje, tenho saudades desses bichos, gostava de ver um e não consigo!  E tenho a certeza que não o mataria!

Neste Inverno, início de 2006, observei muitos bichos semelhantes a esses da minha meninice. Cheguei a encontrar alguns desses bichos juntos e outros mais afastados. Não são tão grossos como aqueles grandes bicharocos da minha meninice que colocavam a minha pobre mãe em estado de alerta geral e com pele de galinha por bastante tempo e eu, entre fugir e nunca mais parar ou ir à luta, escolhia esta última e era uma luta de morte para os bichos, porque me diziam que eram bichos da peçonha! Mas tal como então, ao deparar-me com estes velhos companheiros, arrepio-me todo mas, agora, não sinto vontade de lutar. Sinto vontade de apreciar a beleza»!

Agora que já ouviram mais esta história da minha vida, podem reparar nesta outra. Vamos beber uma Rodada à moda de Adrão, o Cão de Castro Laboreiro ou então, passar por Moçambique parando em Nova Freixo.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Continuo a Sonhar ...

... com as urzes rosas ou roxas, com as urzes brancas, com as flores azuis (do S. João), jesione montana_l., por entre os fetos, com as carrascas (as nossas ericas rosadas) uma das mais belas alcatifas do mundo, ...

Sonho com as minhas caminhadas nos mais belos chãos do mundo.

Mas os mais belos chãos do mundo, são, também, para mim, os chãos do medo. O medo de ficar encostado à sombra de uma rocha, à sombra de uma urze, ou à sombra de fetos, sem hipótese de me levantar e caminhar, mesmo que lentamente, rumo à fonte mais próxima.



jesione montana_ l. ou botão azul (as nossas flores do S. João)



Jesione montana, quando as vejo por aqui, quase me sinto em casa mas, nada como quando as via a embandeirar os socalcos das lavouras de Adrão

Como é simples o meu querer!

Não peço o euromilhões, não peço uma vida de luxúria, tal como ela é entendida pelo egoísmo das pessoas. Tudo o que eu peço é simples! Caminhar nas minhas montanhas sob o tecto do meu amigo Apolo, ao lado das rainhas das montanhas, ao lado dos garranos, os cavalos semi-selvagens ou selvagens se é que ainda os há. Caminhar pelos trilhos dos lobos, ver saltar os gafanhotos, ver esvoaçar as lindas borboletas azuis e a pousarem nas flores rosadas das carrascas, beber a água cristalina das minhas fontes, das fontes da minha serra.



Fonte da Corga da Vagem



Fonte do Muranho

Como é belo saber que ainda existe um sítio onde nos sentimos felizes quando crianças. Estou-me a lembrar de milhões de crianças que, neste mundo só bebem água que mata, especialmente, das crianças africanas que têm de caminhar quilómetros para beberem uma água barrenta que lhe mata a sede mas que também lhe pode matar a alma. Caminhar quilómetros de cântaros à cabeça para conseguirem água para matar a sede. E dizemos nós mal da terra que nos deu força para nos expandirmos para o mundo.

Por isso, tenho saudades dos meus primórdios porque não sou pobre e mal agradecido. Agradeço ao Senhor da Esfera tudo o que me tem dado e agradeço-lhe, especialmente, o que me deu nos primeiros anos da minha vida.



Como são belos os chascos na serra de Soajo

É natural que lhe continue a pedir para me deixar subir a minha serra, que me deixe caminhar nos trilhos dos meus antepassados, que me deixe falar com as suas belezas. Eu apercebo-me da alegria dos chascos quando lá me vêm e sei que ela será igualzinha à minha. Eles têm tantas saudades minhas como eu tenho deles.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Soajo, o Desastre dos Incêndios

Os incêndios, são uma tormenta para as pessoas e seus bens;


Os incêndios, são uma tormenta para os animais domésticos, para os animais selvagens, para a flora, para ...

(Deixo-vos algumas fotos, dos fogos de Soajo, aqui, no Shutterfly)

Todos sabemos, estamos fartos de o ouvir dizer, que a maioria dos incêndios, pelo menos, muitos incêndios, são fogos postos ou então, as autoridades suspeitam disso. Também sabemos, porque fartamos-nos de o ouvir, nas TV's e companhias, que as autoridades vão apanhando suspeitos desses fogos postos.

As fraldas das minhas Montanhas Lindas, são devoradas por chamas assassinas, há 8 dias. São 8 dias de tristeza, de sofrimento de pessoas, de animais, de tudo que resiste em volta dessa fúria demoníaca.

Como já todos sabemos isso, mais ou menos, até temos um Ministro especialista a fazer as comparações de incêndios, referentes aos últimos anos e para ser franco, por essas comparações tão assíduas e por tantas outras coisas desse e de outros ministros que me vão exaucrinando os ouvidos é que eu tanto lamento pelo futuro deste país. O tal país que todos ouvimos falar que foi, porque eu não vejo que o seja, talvez na Idade Média ou no tempo da Idade da Pedra, à beira mar plantado!

Por isso, por sabermos já de tudo ou quase, sobre incêndios, eu vou falar aqui dos que me tocaram mais de perto, aqueles que, tão tristemente, vão destruindo tudo, pelas minhas Montanhas Lindas.

Quando, no sábado,  chegamos a Soajo, vindos de Castro Laboreiro, para rumarmos a Lisboa, encontramos a continuação da acção destruidora deste fogo que durava há oito dias. Saímos de Lisboa numa 2ª feira e ele tinha começado no sábado anterior e partimos com ele em plena fúria, após actos contínuos de reacendimento segundo ouvimos às autoridades

Quando saí da minha casa, caminhando rumo a Norte, levava na minha bagagem as tormentas dos incêndios, que preocupam todos mas, dois deles, preocuparam-me por todo o caminho: "o incêndio de Soajo e o incêndio da Mata de Cabril".

Quando, pela tarde, chegamos a Soajo, embora que, em lume brando, as fumarolas, os cheiros a queimado, a escuridão da área ardida ainda lá estavam. Era segunda-feira, à tarde, e nós seguimos rumo ao Hotel da Peneda.

Nos cinco dias que se seguiram, sempre que me deslocava, em redor das minhas montanhas Lindas e por terras da Galiza, não perdia de vista as fumarolas de Soajo e da Mata de Cabril. Mesmo quando não as via, aquelas zonas do céu, nas suas verticais, mostravam-me as terríficas negridões das fumarolas que subiam, como lá estariam as coisas e como tais incêndios causam tanto mal.

Enquanto os meus olhos reparavam nessa escuridão do horizonte elevado, rodando rumo a Caminha, a Baiona, na Galiza, e mais tarde rumando para Melgaço, em direcção a Castro Laboreiro, a minha alma ouvia lá longe, os gritos de tudo o que morria à passagem das terríficas labaredas. As flores dos montes de Cabril, na serra Amarela (eu gosto de tratar os bois pelos nomes) e das fraldas das minhas Montanhas Lindas, no lado oposto, gritavam quanto podiam pelo socorro do Ventor! Junto com os gritos das flores, das árvores, dos matos, chegavam os gritos de todos os outros seres vivos, os pássaros em fuga, os gafanhotos, os besouros, os coelhos, os lagartos, as lagartixas, ... tudo! Mas o Ventor nada podia fazer e nem tinha como ajudar! Ao cair da noite, junto de uma terra chamada Alcobaça, situada, algures, entre Melgaço e Castro Laboreiro, eu via lá longe as labaredas a destruir tudo, enquanto a noite descia.

Na nossa caminhada da Barragem de Lindoso (onde os Canadairs iam abastecer-se de água) para Ponte da Barca, assistimos à azáfama daqueles que se empenhavam nessa luta sem tréguas, para debelar a hidra de cabeças sem fim. Este helicóptero abastecia-se de água na barragem de Touvedo e ia despeja-la, tanto quanto possível, sobre uma das cabeças da hidra que caminhava diabolicamente rumo ao berço do Ventor - a sua Assureira e Adrão

Durante a minha caminhada pela Pedrada, ao chegar ao Muranho, uma ave espavorida, que eu nunca tinha visto, pelas minhas Montanhas Lindas, passou sobre a gente e foi pousar bem cansada sobre uma moita de urze, junto da Celeste. Eu caminhei para lá, com a máquina em posição de fotografar, mas ela, aterrada, levantou voo em direcção do sol e as duas fotos que lhe tirei, não dão para a identificar. Aposto que essa ave sentia que o seu mundo estaria para acabar!

Depois, mais tarde, na Portela de Baixo, frente à Fraga da Nédia, estive a fotografar os Canadairs que passavam sobre os montes de Paradela para se abastecerem de água na barragem de Lindoso, para despejar nas labaredas que teimavam em queimar tudo que existia em volta de Soajo. Mas nada podia deter as chamas! A noite ia cair e os Canadairs iriam deixar de poder operar e tudo iria recomeçar. Na sexta-feira tudo continuava como na véspera. Saídos de Castro Laboreiro, rumando a Arcos de Valdevez, os bichinhos e as flores que o Senhor da Esfera colocou nas minhas Montanhas Lindas, continuavam espavoridos e, muitos deles, a serem devorados pelas chamas.

Os Canadairs, abasteciam-se na Barragem de Lindoso e despejavam as águas, incansàvelmente, nas várias cabeças da hidra 

No sábado, quando estávamos de partida, rumo a Lisboa, sem desprimor para a tarefa árdua dos bombeiros, concluí que não valia a pena lançar os Canadairs e os Helicópteros contra as chamas devoradoras e insaciáveis de matos que tentam sobreviver à morte, morrendo e revivendo, deixando no seu espaço, em tempos de secura, autênticos barris de pólvora.

Pelo menos, um dos Canadairs era francês, creio que a França enviou dois e eles, religiosamente, faziam a sua caminhada de vai-vém entre a Barragem e as zonas dos incêndios, procurando tirar o maior rendimento possível da sua acção sobre a hidra

Tanto quanto me pareceu, os Canadairs, ou outros aviões que haja por aí, para apagar incêndios, ou actuam imediatamente ou, chegando tarde, a sítios como os montes do Parque da Peneda-Gerês, tornam-se, na prática, inúteis. Eles iam carregar água na barragem de Lindoso e descarrega-la, logo ali, ao lado, nos montes de Soajo. Mas, no seu vai-vem, mal despejavam a água, quando regressavam, e olhem que é bem perto, já o fogo devorava a água e tudo onde ela tinha caído.

Eu não percebo nada disso, nunca fui bombeiro embora já tenha apagado incêndios, nos tempos que os matos não eram pólvora, acho que em fogos como os de Soajo e de Cabril, dois Canadairs e helicópteros, nada podem fazer! Como não há mais, ouvi dizer na Rádio que vieram dois de Itália e dois de França, ou então foram notícias confusas, mas sei que um dos dois Canadairs que actuaram, em Soajo, no sábado, era francês. Para um fogo como o de Soajo, para debela-lo logo no primeiro dia, eu penso que só com quatro ou seis Canadairs. Depois, nem uma dúzia. As labaredas levam tudo à frente. Não é por acaso que alguém dizia: "quando julgamos que está tudo apagado ele reacende-se"!

Assim, enquanto na minha caminhada pela Pedrada as rainhas das Montanhas me perguntavam porquê (?), as flores me sorriam, inocentemente, sem se aperceberem do horror que as espreitava lá de longe

Eu pergunto: "reacende-se ou há alguém que não o quer ver apagado"? Pelo que ouvi, é uma pergunta com cabimento! Nós passamos na estrada de Soajo para Arcos de Valdevez e vimos gente de várias corporações de Bombeiros deste país, estacionados na área do Mesio. Outros encontramos pelo caminho, rumo ao mesmo destino.

Mas quando saía de Adrão e vi, lá em baixo, os montes dos dois lados do rio de Adrão a arder, pensei que nada iria escapar. Partindo do fundo de Soajo, já nos arrabaldes do velho moinho da Trapela e de Ramil, as chamas devoravam tudo. O meu pensamento foi que não haveria Canadairs que protegem-se a nossa Assureira. Os carvalhos da Assureira iriam arder todos e, com eles, os melhores tempos da minha vida!

Ainda hoje não sei onde o fogo foi detido e quantos Canadairs foram utilizados, mas olham que, se há matos pólvora, aqueles matos devem ser o mais perfeito que há! 

Estive lá em 28 de Agosto de 2006 e, este ano, a pólvora já estava com mais 4 anos de crescimento e de secura em cima.

Voltarei aqui para vos continuar a falar dos incêndios e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, agora, mais uma Maravilha Natural de Portugal!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Branda da Aveleira

Caminhar em redor das minhas Montanhas Lindas, pela base ou pelas meias encostas, colocar a mão a servir de pala e espreitar os horizontes que nos rodeiam, é já um desopilante, um acumulador de novas vitalidades.

Acredito que, aqueles que vêm de outros mundos, quer nosso, quer mesmo da estranja, se contentam em observar os cabeços dos montes e as rasgadas paisagens que nos alegram a alma, apenas, em duas ou três olhadas.

Mas eu sei, pelo que me dizem, que os turistas que acompanham os programas turísticos do Fabrice na sua "atitude" para com as Montanhas Lindas de seu pai, minhas e certamente, dele também - vejam Outside Atitude - os turistas já não se contentam apenas a dar olhadas.

Eles querem observar, de pé no chão, todas as maravilhas dos locais por onde passam.

Garranos, belezas nas minhas Montanhas Lindas

Quem não se atreve a colocar a "pata" no chão ou, se preferirem, o seu "par de botas", para respirarem perfumes inesquecíveis e partilharem da vida dos utentes das minhas Montanhas Lindas, nunca chegarão a conhecer a verdadeira essência daquilo que os rodeia.

É necessário saber partilhar da existência dos fabulosos companheiros das nossas caminhadas, pelas minhas Montanhas Lindas e, acredito que, vossas também.

Caminhar entre as moitas de urzes, as carquejas, os fetos, os poulos relvados;

caminhar, subindo e descendo as encostas dos montes, deparando a cada instante, com paisagens, em constante mutação.

caminhar, transpirando, e saber apreciar as águas gostosas e frescas que brotam das entranhas da serra;

caminhar por locais onde ainda é provável que lobos se refugiem por ali, da nossa, para eles, nefasta presença e, apenas sabermos da possibilidade de se encontrarem por ali, devido aos dejectos por eles deixados, em alguns dos nossos pecursos;

caminhar entre belos gafanhotos, escaravelhos, lagartixas, lagartos (grandes sardões), cobras, libelinhas, borboletas, coelhos, perdizes, formigas, aranhas e muitos outros, como abelhas, vespas, vespinhas e vespões, caminhamos, sem sombra de dúvidas, num belo pedaço do Paraíso.

Garranos, belezas nas minhas Montanhas Lindas, junto à Branda da Aveleira

Sair fora do carro, partilhar dos espaços dos garranos, das vacas, das ovelhas, das cabras, sentir a frescura da aragem matinal coçar-nos o nariz, são, certamente, para todos que caminham pelas minhas Montanhas Lindas, momentos inesquecíveis.

Caminhar pela Branda da Aveleira, por St. António de Vale de Poldros, observar toda aquela beleza, onde nos inserimos, por momentos, porque não por uns dias e para nunca mais esquecermos?

Ver e ouvir o correr das águas do seu riacho que, tropeçando de pedra em pedra se dirigem, em toda a sua plenitude, rumo ao belíssimo vale do Vez e sem nunca esquecerem de voltar, na primeira oportunidade que possam ser sopradas pelas fadas de Eolo, e se voltarem a transformar nas grandes lágrimas das fadas de Neptuno, voltando assim, a ter oportunidade, de caminharem, elas também, mais uma ou várias vezes, pelas mesmas gargantas, desfiladeiros e vales dos seus sonhos.

Por lá voltarão a refrescar as margens onde esvoaçam libelinhas, tira-olhos, cantam as rãs e se aquecem cobras e lagartos, tornando uma realidade tão bela que, aposto, nunca esquecerão.                              

                                                    
O riacho, rumo ao vale do Vez, na Branda da Aveleira

Olhar de St. Atonio de Vale de Poldros, as encostas que escorregam desde a Pedrada, descendo com mais ânimo desde a Seida, leva-nos a compreender que, o Paraíso, só não vai continuar aqui, neste nosso cantinho do Planeta Azul, se nós não quisermos.

Por isso, deixo aqui uma palavra de conforto e votos de prosperidade, a todos aqueles que não se esquecendo, das minhas Montanhas Lindas, procuram também, mostrá-las a outros.

Uma libelinha azul, no riacho da Branda da Aveleira

Ao Fabrice, filho de Adrão e da França e ao Pedro Alarcão e à Anabela Amendoeira, da Ecotura, os votos de que, as nossaas Montanhas Lindas continuem a ser, para vós, um esteio de felicidade no vosso caminhar. Eu não vos conheço pessoalmente mas, quem sabe, talvez um dia isso se concretize!

Para aqueles que viram o programa do Pedro Alarcão e da Anabela Amendoeira na sua pesquisa sobre os lobos em redor da Branda da Aveleira, eu recordo, estes dois que foram conquistados pelas minhas Montanhas Lindas.

Garranos, junto da Branda da Aveleira, que nos podem levar e trazer, nas nossas caminhadas pelas minhas Montanhas Lindas

E para os que não viram o programa, eles provaram-nos que os lobos, tal como outros animais, lutam intensamente para sobreviverem à pressão humana que se faz sentir em redor de todos os seus habitats.

Deixo-vos aqui um abraço e votos de êxito nas vossas caminhadas, bem como desejo um grande êxito na sobrevivência dos lobos.

sábado, 15 de agosto de 2009

Montanhas com Alma

Adrão, como já todos sabem, é uma aldeia nas montanhas da serra de Soajo. Mas Adrão é mais que isso. Adrão tem alma! Ou melhor, Adrão e as suas montanhas têm uma alma comum.

Against the Wind

Música de Bob Seger

Em Julho de 2009, andei por lá uma semana, mas andei sempre em torno das nossas Montanhas Lindas. Por portas e travessas, não arranjei maneira de subir à Pedrada e, para mim, ir a Adrão sem subir à Pedrada, torna-se uma grande tristeza, pois tudo fica incompleto. Por isso, tinha de lá voltar. Tinha de complementar a minha caminhada. Sinto-me esvaziado de tudo se ando por lá e não consigo pisar os meus montes. Ali sim! Ali sinto-me em solo sagrado!

O Poulo do Muranho, fotografado do Alto da Derrilheira. No centro a beleza de uma rainha das montanhas

Adrão tem alma e a sua alma está impregnada nas suas Montanhas Lindas. Caminharmos nas nossas montanhas é caminharmos, sempre, ao lado da nossa gente. Todos aqueles que nasceram em Adrão e até muitos que nasceram longe, continuam a caminhar nas peugadas dos seus antepassados. Todos nós, que andamos pelo mundo, caminhamos de olhos cravados nos horizontes vastos das nossas Montanhas Lindas.

Todos sabemos que as montanhas existentes no nosso Planeta Azul são lindas mas, algo nos diz que nem tudo está bem e concluímos que nem tudo está bem porque não sentimos nas outras montanhas a nossa alma. Quando eu caminho pelos montes que me viram crescer sinto-me a caminhar ao lado de todos que comigo partilharam a sua beleza. Todos que comigo partilharam as águas frescas das suas fontes, todos que comigo admiraram as suas flores, todos os que comigo partilharam os trilhos dos lobos.

Mãe e filho, no Alto da Derrilheira. Eles embelezam as minhas Montanhas Lindas

Creio, também, que estão presentes na nossa alma colectiva, na alma da nossa gente, todos os animais como as vacas, os garranos, as cabras e as ovelhas, tal como sempre estiveram.

Por isso voltei a Adrão apenas para subir à Pedrada e fi-lo, no domingo, com mais três companheiros de caminhada que tal como eu, partilhamos essa alegria com todos aqueles que, através dos tempos, caminharam, por ali. Hoje nós fazemo-lo por prazer e por amizade para com todos eles que, tal como eu, e todos nós, caminhavam por obrigação e necessidade. Eu também tive necessidade de fazer essas caminhadas e, por vezes com alguns sacrifícios, que acabávamos por levar a brincar. Alguns sacrifícios sim, mas sempre com prazer.

Mas hoje, caminhar, nas minhas Montanhas Lindas, caminhar entre os garranos, caminhar entre  as rainhas das montanhas, é caminhar pela vida, é caminhar no sonho.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Hoje passei por Soajo

Sim! Hoje passei e passeei por Soajo!


Hoje voltei a caminhar entre os espigueiros, a lançar a minha vista sobre aquelas minhas Montanhas Lindas.

Voltei a olhar o lado de lá, aquele lado que, subindo desde o rio Lima, suporta a estrutura norte da serra Amarela.

Eu sei, eu sei!

Os milhos de Soajo estão a crescer, a ser regados, a prepararem-se para poderem encher os espigueiros. Também sei que, hoje os milhos, existem quase só por diversão! Para alimentar o porco, as galinhas e para matar saudades da broa. A broa que nos fazia sonhar! Que nos alimentava os sonhos e a alma!



Este exemplar, cujo nome já não me lembro, procurava-o há muito e já desbravei centenas ou milhares de hastes, deste arbusto, para descobrir um. Estará mau para eles, também!

Hoje, as gentes de Soajo começaram a ir de fora, mas outros foram com elas. Estiveram lá presentes, além de Soajo e arredores, gentes dos Arcos, de Braga, do Porto, e sei lá mais de onde. Todos foram ver Soajo a velha vila recuperada, mas mais que isso, olharam todas aquelas montanhas, em volta, e verificaram que, mesmo com um capacete de nuvens, elas continuam a ser lindas.



Este espantalho não é daqueles que a tia Custódia engendrava lá pela Assureira, mas eu chamei-lhe logo, o guardador de girassóis

De manhã, recebi no meu telemóvel a informação de que a RTP, iria fazer o seu programa para o mundo, a partir de Soajo. Depois recebi algumas chamadas a informarem-me da dita emissão e, cheguei a casa, almocei, mas esqueci-me. Deitei-me sobre a cama e adormeci, mas há sempre alguém que não quer que eu durma e voltaram a acordar-me por causa da RTP a emitir de Soajo (olá Tina).



Cerca do meio dia deparei-me com este campo de girassóis, em Campolide, Lisboa, mas a bateria fintou-me. Deixou-me a falar só



Olhem-me só estas maravilhas!

Depois liguei a televisão e assisti a um programa com a ameaça de chuva até que a ameaça se cumpriu. Eu disse logo, depois de ver as nuvens a esconderem as minhas Montanhas Lindas de mim, que a emissão só poderia continuar debaixo dos espigueiros ou na escola. Não sei se o programa acabou normalmente, se precipitadamente. Raramente a televisão, qualquer delas, é um dos meus passatempos preferidos. Muito raramente! Mas hoje ela, a RTP, trazia-me Soajo e eu, voltando a sonhar com o passado, marquei presença!


Bom dia girassol! ... girassóis!


E todos em conjunto: BOM DIA, VENTOR!

A RTP, aposto, terá feito um belo programa, pelo que vi. Pelo menos para aqueles que foram obrigados a abandonar o berço para procurar outros pedaços de mundo. Tenho a certeza que, a quadra deixada, no fim do programa, pelo meu amigo Manuel da Pedreira, foi um belo remate. Ele deixou os beijinhos das gentes de Soajo, dos soajeiros, para a RTP e eu, que só me posso associar a ele, também deixo aqui os meus agradecimentos a essa mesma RTP por conseguir levar um dos mais belos recantos do nosso país a caminhar mundo fora.


São lindos, não são?



Mais lindos ainda por inesperados em tal local mas, todos gritaram para mim: NÓS SOMOS LINDOS!!!!!

Mas eu, caminho sobre todos os valores possíveis, reais ou virtuais! Caminhei pela manhã, durante uma hora, sobre pedaços de vida que me alimentam a alma, em falta das minhas Montanhas Lindas. Nessa hora dialoguei com esta beleza, além de outras e, para remate, fiz mais uma bela caminhada de uma outra hora, por Algés e Miraflores, onde dialoguei com um coelho bravo num local impensável. Voltei a Lisboa e deparei-me com um belo campo de girassóis num local onde não sonhava que existisse.



Mas este mirone de Miraflores, só pelo rastejar assapado do gajo imaginei logo um coelho. Pensam que fugiu? Dei passos atrás, passos à frente e fui disparando a máquina. Em todas as fotos só vejo um olho do gajo. Sempre um olho por entre os arbustos! A minha máquina de um lado e a dele do outro. Reparem bem no centro da foto!

Depois, regressei a casa cansado, almocei e encostei à box, esperando por melhores tempos. Foi a intervenção telefónica da Tina que me relembrou e me levou a Soajo através da RTP.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Adrão, a Ponte

Já vos falei de alguns locais de Adrão. O cabo do Eido, o Eirado, Outeiros e agora vou falar-vos da Ponte. O forte da Ponte de Adrão ou de outro local qualquer, é o rio!

Como noutros tempos, as galinhas continuam a caminhar na nossa ponte! Mas as aparas da ponte são outras, nem elas nem as pequenas visitas, vindas de outros mundos cairão ao rio.

Para montante temos o rio que desce vindo desde os Surreiros, por baixo do Alto da Derrilheira, onde nasce, descendo as suas águas pela Corga da Naia, entram no rio da Fraga, descem pelo rio da Leira e embatem nas rochas de granito alicerces da nossa ponte.


Para juzante, elas dirigem-se por Outeiros abaixo e recebem o rio da Coroa, que vem desde a Corga Grande e seguem pela Veiga, Arriba dos Moinhos, Curral das Cabras e no fundo da Assureira recebe o rio de Bordença seguindo juntos até ao fundo de Soajo onde abraçam o rio Lima. Aí acaba o rio de Adrão!


Agora há um lavadoiro e, quando a água não desce o rio, vai por este rego, à direita, regar as lavoiras da veiga. Foi por aí que seguiu a minha gotinha Sonhadora e continua no vai-vém da vida a prosseguir um ou outro destino. Rio ou rego.

Mas a história da ponte é feita pelas suas gentes, pelo seu rio e pelo seu Moinho. Era ali que eram lavadas quase todas as roupas de Adrão, na água límpida que descia da nossa serra. Era ali que os miúdos brincavam enquanto as mães lavavam. Eles agarravam os seus "carrapatos" (girinos), prendiam-nos em pocinhas e faziam as suas coutadas. Quem mais girinos tivesse, era o mais poderoso. Essa era uma das nossas brincadeiras, mas elas não acabaram connosco! Filhos de Adrão nascidos na América, vinham e quase tão naturalmente como os seus pais eles brincavam da mesma maneira.


Este bichinhos insignificantes, os girinos, vêm a cantar para nós e enfeitam os nossos olhos e já foram peças valiosas das minhas brincadeiras

Eu vi e fiquei parvo com zangas iguais às nossas. Nunca tinham estado em Adrão mas viram os girinos no rio e fizeram o mesmo que nós fazíamos. Depois zangaram-se. De repente, vi dois miúdos a correr sobre a ponte, como dois cães de fila e o que ia atrás, gritava para o da frente: «I kill you! I Kill you"! Estavam zangados por causa dos girinos. O de trás era o meu sobrinho, o Jack, a dizer que ia matar o outro por estragar a pocinha dos seus girinos. Eram pequeninos mas foi o diabo para os estabilizar!


As mães lavavam aqui à direita do moinho. Esta primeira pedra era e ainda é a preferida das mulheres de Adrão que lavam no rio.

Também era ali que nós colocávamos os carros de bois nas noites de S. João. Mas era ali, especialmente, que as moças tomavam banho forçado e nos forçavam a nós, também, a ir a banhos. Todos se recordarão como era belo o nosso rio e a nossa ponte. Ao lado, o Moinho da ponte não parava. Ele moía o milho para o nosso pão 24 horas sobre 24 horas! Ainda em Agosto a Fátima me foi mostrar como aquilo funciona e é o único que funciona. Explicou-me toda aquela engrenagem e a música daquela tabuinha a bater na mó para fazer estremecer o milho ou o centeio que cai à cadência pretendida, nunca me sai dos ouvidos.


Este é o único moinho que ainda moe milho e centeio, em Adrão. Muito pouco, mas moe! Fui pedir à Fátima para me abrir o moinho, porque acabava por voltar sempre sem ver o moinho e isso ia acontecer outra vez. Ela estava a fazer o seu almoço, e eu vinha todo rebentado da Assureira, cheio  de calor e sem beber nada desdes as 6 da manhã, mas disse-me que nem que estivesse no fim do mundo iria abrir o moinho para mim. Um beijinho Fátima. Alguém chegará primeiro que eu a Adrão e dir-te-á que eu deixei um beijinho para ti, na Net

Quando éramos miúdos corríamos na ponte para trás e para diante atrás dos morcegos para os apanharmos à paulada. Éramos mauzinhos para os morcegos! Felizmente nunca os apanhávamos. Era devido à sua fama de sonaristas ou radaristas que nós os perseguíamos à paulada, mas nada. Ainda hoje quando estou com o Quico junto do seu Miradouro, fico ali a ver os morcegos passar e delicio-mo com os seus voos, tal como se estivesse na ponte de Adrão. Penso muito, também, como foi possível tanta correria naquela ponte sem nenhum de nós cair. Naquela época faltava uma ampara e outras eram muito baixinhas. Hoje é quase impossível cair daquela ponte, mas naquela época só realmente os braços compridos do senhor a Paz!

Ou seria este o guardião do moinho, o nosso guardião também? O senhor da Paz não se zanga, porque ele sabe que nós sabemos que o equilíbrio da Esfera é feito por todos

Depois, a seguir, tínhamos a Eira da tia Saloia, minha querida amiga, quase fazia as vezes da minha avó que me faltou muito cedo. Ali brincávanos em grandes correrias e parecia que o nosso fim era a eternidade. Tudo em Adrão era o princípio e o fim do Mundo. O nosso lar e as nossas montanhas eram tudo que tínhamos. Em África, olhava os pretos e os seus montes de capim e pensava que eles seriam tão felizes como eu tinha sido em Adrão. Eles viam o nosso amigo Apolo nascer e passar além do horizonte todos os dias e ficavam espantados quando eu lhes mostrava as cidades ocidentais como Lourenço Marques, Joanesburgo, Lisboa e outras. Mas eles tinham as suas palhotas ... os seus arranha-céus e eram felizes neles.


Este cão é filho do Lodi (Lodai). Ele está a fugir de mim porque não me conhece. Mas se ele fosse como o Lodi e me conhecesse, perguntava-me logo se queria que fosse comigo à Pedrada! Ficamos logo amigos, não nesta minha sortida a Adrão mas na segunda, em fins de Agosto. Ele está a fazer a minha figura quando eu fugia à frente dos "velhos no carnaval". Só que hoje não há ninguém, mas nessa altura, a eira estava cheia de gente e eu obrigava-os a correr.

Tínhamos também a Eira da Leira, ali junto à ponte com os seus caniços. Em adrão havia caniços por todos os lados. Na Barreira, no cabo do Eido, na Eira da Leira, na Eira da tia saloia, em Outeiros. Creio que hoje ainda existem todos ... mas vazios.

Mas, em Agosto, não estava lá a tia Saloia, estava uma pequena parte da família, como a sua filha Teresa, agora apoiada na velha vara que faz parte da nossa alma. Esta é uma pequena parte da minha gente!