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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Bicho da Peçonha

  Ventor 19.10.20

Mais uma história verdadeira que aqui vos deixo. Estes bichos sempre me meteram respeito. Em plena caminhada de fins de uma Primavera linda, dia cheio de sol, de flores, de pássaros de um ano qualquer do tempo que já passou, as gentes de Adrão faziam os seus trabalhos nos campos, atrás das vacas, das cabras, das ovelhas, das galinhas, dos porcos ... Uns sachavam o milho, outros regavam-no, outros tratavam das hortas. Na aldeia, à sombra das latadas ou das casas, um velho aqui outro ali, conversando com outro e, chateados pelo silêncio da aldeia, as galinhas cacarejavam ou cantavam a plenos pulmões enquanto um ou outro galo a solo, replicavam pelos cantos da aldeia. Nestas circunstâncias, muitas vezes a solidão era derrubada pelos cânticos das galinhas, dos galos e do latir de um ou outro cão que se estiravam à porta da casa.

Mais aqui ou mais ali, alguém chegava de uma missão e alguém partia para outra mas o grosso das gentes estava pelos campos.

Era um bicho semelhante a este, o terror da aldeia, para muita gente

Maria, era já uma mulher e partiu para a sua azáfama do momento. Descalça, desce o caminho da Veiga, juntamente com a água da rega que vai saindo do rego, num ou outro buraco aberto pelas toupeiras, ou pelos danos causados pelas passagens das pessoas, aqui ou ali. Ela ia cortar erva para o vitelo. Nesse tempo, o calçado era utilizado conforme os caminhos. Em zonas de tojo, de silvas, de cobras, isto é, caminhar nos matos ou nas bouças, era necessário calçar qualquer coisa, nem que fossem umas alpergatas espanholas. Havia umas alpergatas todas de borracha adequadas para esses caminhos molhados mas não tinha importância, porque era moda as mulheres andarem descalças. Era moda e era poupança, pois era difícil ir buscar o calçado onde quer que fosse, quer dentro de Portugal quer a Espanha e isso obrigava a grande zelo para que esses bens se tornassem muito duradouros.

Para ir a Espanha, onde havia quase tudo, os riscos eram enormes pois a Guarda-Fiscal podia arrestar as mercadorias, depois de um carrego por carreiros de montanhas e atravessar o rio da Várzea, num local terrível a que chamavam o Salto e, cá dentro, a camioneta para Arcos de Valdevez ou para a Ponte da Barca, em dias de feira, apanhava-se em Soajo, hora e meia a pé a andar bem. Nas feiras dos Arcos ou da Barca, comprar as coisas e guarda-las em sítios de confiança, normalmente nas lojas ou alguma casa de gente amiga para não se andar carregado. Depois, ao cair da tarde, juntar tudo e ala que se faz tarde.

Retornados a Soajo, era hora de alombar! Carga às costas ou à cabeça, às vezes já de noite, sempre a subir, com hora e meia de retorno, desta vez muito mais comprida e mais custosa, devido ao carrego e ao cansaço do dia, numa azáfama física e intelectual, pois era necessário guardar na memória o que não era possível colocar no papel, devido ao analfabetismo.

Maria, tal como outras Marias, Rosas, Teresas … lá da aldeia, por falta de dinheiro e também para não passarem por isto, faziam tudo para só, no mínimo de vezes possível, e por grande necessidade, fazerem essa deslocação. Daí, por essas razões e também por hábito, o caminharem descalças em sítios que hoje me faz estarrecer o físico, o espírito e a alma, quando percebo como sítios tão belos instigaram tanto sofrimento.

Peludos ou carecas, metem respeito

Mas eu ia falar do Bicho da Peçonha! Como puderam ver atrás, este bicho era de estaleca, pois a "peçonha" estava sempre presente em todos os momentos da vida da nossa aldeia. No entanto, eu queria falar mesmo do bicho! O bicho da peçonha era um bicho peludo, muito grande, maior que o meu dedo do meio hoje e eu julgo que poderá ser o “catarpilar” de uma mariposa. Para mim era feio, feio a valer, e dava-se bem no meio das ervas pelo fim da Primavera, princípios do Verão.

Como o tempo era sempre curto, Maria apanhou a erva para o bezerro, à pressa e enfeixou-a numa verga de salgueiro, carregou-a à cabeça e subiu pelo caminho, até casa, a ouvir cantarolar a água da rega que saía do rego e escorria pelos caminhos, por entre pedras e tufos de ervas. Ao chegar debaixo da latada do Ti Cortez, junto à fontinha do Cabo do Eido, atirou o molho de ervas para o chão e deu um grande grito! Sentiu uma picada na testa, ficou com uma bolha e começou a avermelhar. Os velhotes que ali estavam sentados à sombra, gritaram: “que tens Maria”? “Tenho uma dor na testa, algum bicho me mordeu”! Todos acorreram a ajudar e no meio da erva toda, apenas apareceu o grande bicho peludo! Dizem que os bichos de onde provêm as borboletas não têm apetite por carnes (terá sido uma vespa?) e eu lembrei-me de muita coisa e dessa pequena história de uma Maria da minha aldeia que era e penso que ainda é Maria. Na verdade eu fugia desses bichos a sete pés e todos que via matava. Hoje, tenho saudades desses bichos, gostava de ver um e não consigo!  E tenho a certeza que não o mataria!

Neste Inverno, início de 2006, observei muitos bichos semelhantes a esses da minha meninice. Cheguei a encontrar alguns desses bichos juntos e outros mais afastados. Não são tão grossos como aqueles grandes bicharocos da minha meninice que colocavam a minha pobre mãe em estado de alerta geral e com pele de galinha por bastante tempo e eu, entre fugir e nunca mais parar ou ir à luta, escolhia esta última e era uma luta de morte para os bichos, porque me diziam que eram bichos da peçonha! Mas tal como então, ao deparar-me com estes velhos companheiros, arrepio-me todo mas, agora, não sinto vontade de lutar. Sinto vontade de apreciar a beleza»!

Agora que já ouviram mais esta história da minha vida, podem reparar nesta outra. Vamos beber uma Rodada à moda de Adrão, o Cão de Castro Laboreiro ou então, passar por Moçambique parando em Nova Freixo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mês de Maio ...

 ... em Adrão.

Os meus meses de Maio, em Adrão e também em Paradela, agora só fechando os olhos e olhar no meu interior as lápides gravadas nos cantos do meu cérebro. Na prática é assim com tudo.


Um dos meus símbolos de Adrão - a Giesta. As nossas maias

Por Adrão, dependia do tempo, pelos fins de Abril e Maio dentro, havia um perfume intenso! Os cheiros, penetravam pelo nosso nariz, dando origem a um "must", que nenhuma perfumaria consegue apresentar. Desde os "estercos" originados pela fermentação dos estrumes, originada pelas dormidas dos animais e que, pela noite dentro, iam depositando o resultado das suas necessidades fisiológicas, catalisadas pelos calores dos seus corpos, até ao cheiro da terra originado pela evaporação das águas da chuva, especialmente trovoadas e, pela passagem dos cheiros intensos que saíam das belas flores que cresciam por todo o lado, misturado com aquele cheiro que resultava da erva da semeia que se deixava crescer para alimentar as vacas que puxavam os carros de bois e os arados que depois, rasgavam as terras.

Era assim por todo o lado. O Eido, as Brandas de Bordença e da Açoreira, retribuíam-nos, com belos perfumes, aligeirando o cansaço originado pelo trabalho. A maior alegria que eu tinha, nesses tempos, era conseguir dar às vacas que trabalhavam, uma boa ração da erva de semeia ainda verdinha e levá-las beber ao rio e, o maior problema que eu tinha, quando era puto, era o meu pai ralhar comigo quando eu retirava os grilos do rego deixado pelo arado, para as vacas não os pisarem.

Recordo-me perfeitamente do meu pai me gritar, dizendo: "as vacas ainda te pisam por causa dos grilos, Ventor"!

Hoje, recordo tudo o que o trabalho e as brincadeiras me proporcionavam. As alegrias, o cansaço, os cheiros, o chiar dos eixos dos carros de bois pela Veiga abaixo, os aros de ferro que protegiam as rodas a bater contra os caminhos pedregosos, os esforços que os animais faziam a segurar o carro nos sítios íngremes, ou a puxá-lo nas grandes subidas dos caminhos.

Recordo-me bem como, então, os putos de Adrão gostavam de pedir boleia sem levantar o polegar, como se faz hoje por essas estradas. Seria uma das coisas melhores da nossa vida de crianças andar à boleia, nos carros de bois. "Podes vir comigo, rapaz, para cá, vens no carro". Estou a recordar-me do ti Manuel Rego que sempre me dava boleia. Uma vez, no Carril, ele vinha para casa, com as vacas pela soga e o carro e eu vinha do Lume da Leira. Aproximei-me do carro, por trás e, confiante que dali não viria nenhuma nega, saltei para o carro, muito caladinho, para o surpreender quando ele chegasse ao Eirado. O pior foi que as vacas assustaram-se com o meu salto e iniciaram uma corrida doida e o ti Manel, Deus o tenha no céu, também assustado, saltou para o lado para o carro e as vacas não o atropelarem mas, era no sítio mais estreito do caminho e o eixo, de passagem, ainda lhe raspou uma canela.

Toda a gente de Adrão me queria crucificar, até a minha mãe mas o ti Manel Rego, foi a única pessoa que me defendeu. Ele e eu, julgamos que as vacas não fugiram por minha causa mas, talvez, por causa da mosca. Pode ter havido coincidência com o meu salto e com a ferradela da mosca numa das vacas. Elas eram muito mansinhas. 

Mas nunca me esqueço que, a única pessoa prejudicada pela minha acção, se fui eu, foi a única pessoa a defender-me.



O arado egípcio. Tal como em Adrão, já os egípcios, milhares de anos atrás, aravam a terra para deitar as sementeira. Outro arado

Os estercos transportados nos carros de bois, eram colocados em montinhos espalhados nas lavouras. Depois, eram espalhados com uma forquilha e, por fim, lá ia o arado rasgar a terra. Enxadas no ar, a despedaçar os grandes torrões deixados pelo arado, grilos em fuga e as sementeiras iniciavam-se.

Era aí que eu começava a estudar o problema! Quando via a minha mãe com o milho no avental, metia a mão, enchia-a e espalhava o milho o melhor que podia. Então eu pensava que, poupar o milho, não era boa ideia. No espaço de cinco grãos de milho, seria melhor meter 10 ou 15, pois assim, poderíamos obter muitas mais espigas. Mas, com a caminhada do seu crescimento, vinha a monda, o desbaste, o arranjar do espaço e eu danava-me de não me deixarem realizar a minha experincia de criança.

Recordando os meus maios, meti aqui um arado egípcio tentando assim, mentalmente, prestar uma pequena homenagem ao Germano. O Germano era o nome de guerra de um elemento do PCP, esquecido pelos seus camaradas, segundo ele me disse, após a queda do Muro de Berlim e das lutas intestinas desencadeadas no partido de Álvaro Cunhal.

Não me esqueço do que o Germano me disse numa pequena conversa que se tornou bem grande, onde me falou do seu tempo de criança, quando só calçou os pés aos sete anos e, aos 12 anos se pirou da sua "Adrão", ali para os lados da serra da Estrela, de onde veio para Lisboa, passando a partilhar, desde então, dos ideais comunistas.


Porquê o arado egípcio, então? Porque o Germano que já tinha tido problemas cardíacos, disse-me que tinha dois sonhos na sua vida! Agora, arredado dos problemas do PCP (Partido Comunista Português) e ter adiado, no Hospital de Santa Maria, o final da sua caminhada, tinha agora de vencer o tempo que os médicos lhe deram de vida, cinco anos de que só sobravam quatro. Só pensava dedicar-se a estudos demográficos sobre a margem sul do Tejo e,  sobre o Egipto, especialmente, a agricultura e, já teria pesquisado o suficiente para dar uma varridela em tudo o que nos contavam do Egipto, especialmente, da sua agricultura e do seu sistema de regas a partir do rio Nilo e demonstrar ao mundo que os egípcios não tinham sido esclavagistas.

Quem me dera estar enganado mas julgo que o Gemano já terá sido levado à presença do Senhor da Esfera. Se estiver enganado, assim espero, ainda terei oportunidade de um dia, ver por aí um estudo, sobre a agricultura dos grandes Faraós.

Talvez assim, observando os arados egípcios e os lagos artificiais, junto às margens do rio Nilo, me ajude a esquecer dos nossos Maios e dos nossos regos, como o da Açoreira.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O Salto

Era uma vez ...

Todas as histórias, normalmente, começam assim! Ou "once upon a time" ... ou ...

Mas esta minha história é verdadeira e, certamente, perpassam pela minha mente, muitos saltos mas, todos eles, baseados apenas num ... o Salto!

O salto, nos meus tempos de menino e moço, criado com muitos outros, como lobos, pelos trilhos das minhas belas montanhas, tem aqui dois significados que nunca irei esquecer. Na minha região, bem dentro das minhas montanhas lindas, há poucos anos, esse Salto terminou para sempre! A Barragem do Alto Lindoso extirpou definitivamente o primeiro Salto. Agora, o outro Salto, depende da vontade dos homens.

Claro que, num e noutro, falo-vos de "contrabando". Mas apenas num contrabandito que fazia, então, parte da luta pela sobrevivência das gentes das aldeias que me viram crescer.

Vou falar-vos aqui do Salto que tinha de se dar no rio da Várzea.

O Salto ficava, algures, no centro desse braço da Barragem do Alto Lindoso. Devo ter, algures, uma foto ou slide por aí, mas não sei ao certo se ainda existe. Quem me dera!

No rio da Várzea havia um local de passagem - o Salto - para se passar para o lado de Olelas, lugar do lado da Galiza e onde a minha gente se ia abastecer, além de outros sítios galegos por ali perto, com produtos fundamentais como bacalhau e outros que, por razões várias não havia do nosso lado ou porque não havia mesmo ou porque se tornava muito caro para as gentes que viviam sem dinheiro ou com muito pouco ou então porque existiam muito mais longe que esses locais da Galiza. De Adrão aos Arcos de Valdevez eram um pouco mais de 4 horas e mais 4 para voltar carregados. De Adrão a Olelas eram duas horas e isso siginificava mais duas de retorno com carrego. Isso dizia tudo, mas havia também o valor do câmbio de cerca de um escudo para duas pesetas. Dependia.

Por isso vou contar-vos a história que a minha mãe me contava da única vez que por lá passou e em que posso utilizar a forma dos tais dois em um, porque eu também lá estava!

- Numa determinada altura, antes de eu nascer, era preciso ir ao bacalhau à Galiza, mais precisamente, a Olelas. O meu avô falou com um amigo de Olelas e perguntou-lhe se lhe arranjava determinados produtos que alguém os iria lá buscar à primeira oportunidade. O meu avô tinha 7 filhos, dos quais, uma filha estava casada na Várzea e como era preciso fazer pela vida, era ela que, normalmente, dava os "saltos" pela família! A âncora era em Olelas.

A minha mãe dizia-me que ficava aterrada por saber que a irmã tinha de dar o grande salto no rio da Várzea, tantas vezes com o rio cheio, transformado num dilúvio e ela dar o tal salto com as coisas à cabeça, sempre a pensar que o salto era demasiado longo para as suas pernas já cansadas da descida da montanha ou da ida e da volta até Entrimo. Mas essa minha tia, a minha tia Florinda, era dura e fazia essas caminhadas, junto com outras, pela família.

Um dia, por portas e travessas, a minha mãe teve de se deslocar a Olelas buscar as tais coisas que o meu avô tinha pedido. Claro que "este menino" foi com ela! Lá fui embaladinho naquele "oceano" que vocês conhecem e que serve como nossa primeira cubata.

Ora, nos lugares da Várzea, de Paradela, de Tibo, da Peneda, etç., haviam Postos da Guarda Fiscal que, como muito bem sabiam e podiam, tentavam controlar todos os saltos dados pelas minhas gentes. Mas, tanto quanto sei o Salto da Várzea, em certos momentos do ano, eram controlados exasperadamente, e por isso, para leigos como era a minha mãe e eu, claro, instalado na minha bela cubata, fomos a Piece of kake para a Guarda Fiscal.

Havia sobre a beleza nocturna do rio da Várzea uma luz de luar sumido que a minha amiga Diana teve o cuidado de pôr no nosso caminho e que permitiria dar o salto com alguma à vontade, mas era preciso deixar que os guardas se distraíssem ou dormitassem. Claro que a minha mãe, que não percebia nada daquilo, avançou "à trouxe mouxe" e tentou o seu 2º salto. O salto do regresso ao lado da Luz. Entre as rochas desse local chamado Salto, havia um sítio em que a água parecia uma panela a ferver e era sobre essa panela, em sentido figurado, que era preciso saltar. Mas com a barriga cheia por um fedelhinho como eu, com o bacalhau à cabeça, o cansaço da caminhada e sei lá que mais, começou a tagarelice de uma pessoa que denuncia ao mundo a "desgraça" em que se meteu!

"Alto"! ... "Alto ou atiro"!

A minha mãe conheceu aquela voz!

Era a voz de um amigo! Era a voz de um guarda que não recordo o nome, mas conheci em pequeno um pouco mais tarde e tive uma pequena guerra, em Paradela, com os filhos dele. Eram três contra mim. Eu fiquei com a cabeça a sangrar e o filho mais velho dele também, e meteu o rabo entre as pernas e foi a correr para casa fazer queixa ao pai. Eu ia limpando o sangue com as mãos infestadas e não fui para casa só para não ouvir a minha mãe. Depois, do meio de uma horta vi o guarda dirigir-se para a nossa casa e ir falar com o meu pai e dizer-lhe a peste que eu era. Enchi-me de coragem e dirigi-me a casa. Olhei o grande loureiro, (pensando como era bom ser grande) que existia junto à casa e desci umas escadas da porta de trás. Fiquei a olhar os dois e mostrei a minha cabeça. Disse-lhe: "ele partiu a minha cabeça e eu tive de partir a dele. Não parti a dos irmãos mas estive quase para parti-las todas, porque eles atiravam para não falhar"!

A conversa acabou ali e o guarda foi ensinar o filho a ser homem.

Mas, voltando ao Salto, a minha mãe gritou a dizer-lhe que não queria cair ao rio, mas que ia lançar tudo fora e que a deixasse ir para casa, porque estava cheia de frio e não queria saber do bacalhau para nada nem que nunca mais comesse bacalhau pelos Natais!

O guarda sorriu e perguntou-lhe se era a Teresa de Adrão. Ela disse-lhe que sim. "Que raio fazes aqui moça"? - Perguntou-lhe ele. Fui buscar as coisas que o meu pai encomendou. É bem mais perto do que ir aos Arcos e eu vim busca-las. Mas nunca mais passarei este rio!

O guarda e o seu companheiro foram até meio do rio e pegaram nas coisas da minha mãe e passaram-nas para o lado de cá, ao mesmo tempo que a ajudaram a dar o Salto.

"Vais dormir a casa da tua irmã"? Perguntou-lhe o guarda.

Sim!

"Então amanhã, bem cedo, pega nas tuas coisas e vai devagar, montanha acima, pois tens um bom carrego para levar até Adrão. Quando chegares à Cascalheira, tudo será mais fácil".

O Guarda Fiscal olhou-a bem cheia de medo e disse-lhe: "agora vai. Nós não vimos nada! Dá cumprimentos ao teu pai".

Esta é a história do medo que a minha mãe me contou, algumas vezes e dizia-me como esse guarda tinha sido bom.

Esta é uma pequena história semelhante a tantas outras muito mais complicadas. Houve tempos em que algumas mulheres das minhas aldeias dormiam com as suas trouxas entre as urzes, como os lobos, à espera que os GF's se retirassem, para conseguirem levar a água aos seus moinhos que é o mesmo que dizer: "levar o pão e o bacalhau para a família".

Claro que ali ninguém fazia contrabando a sério, como seria, segundo diziam, nas regiões com mais população, como Monção, Melgaço e outras em que o contrabando tinha objectivos de maior significado económico - o lucro.

Ouvi então a história de um homem que foi abatido pela Guarda Fiscal para os lados da Peneda, segundo penso, porque lhes terá fugido e, desde então, sempre tenho pensado na vida que essas gentes levavam para sobreviver e no dilema da luta entre o gato e o rato ou, então, entre os contrabandistas de meia tigela e os guardas fiscais de então.

Mas, o mais importante desta história, foi a minha amiga Diana ter-me contado que, inculcou na cabeça do Guarda a vontade de ir ajudar a minha mãe para sobrevivência do seu amigo Ventor.

quinta-feira, 24 de março de 2005

A Sonhadora e o Rio de Adrão

O Rio

É o melhor rio do mundo para o Ventor.

É um rio em que todas as pedrinhas, todas as cachoeiras, todos os poços, todos os salgueiros, todas as silvas, todos os tufos de carriço e os carvalhos que sobre ele se debruçam para espreitar o movimento das águas e escutar as suas melodias, estão registados em forma de imagens que não há foto alguma que consiga captar! 

Aqui nasce o rio de Adrão. Estas são as primeiras gotas a sair da terra, num qualquer mês de Agosto

O Rio!

É verdade que já foi o maior rio do vosso amigo Ventor, quando ele com um pé sobre uma pedra, media a distância com o olhar para a outra a ver se conseguia dar mais uma das suas firmes e célebres passadas e seguir em frente. Tantas vezes, numa dessas passadas, o Ventor tinha de pôr a roupa a enxugar para não andar molhado!

Mas o rio nasce lá no alto da montanha por debaixo do pico máximo que se vê da aldeia, o Alto da Derrilheira, num local que se chama Sorreiros. Esse local, há muitos anos atrás, era um grande matagal de urzes compactas por entre as quais subiam e desciam as cabras da aldeia enfrentando os lobos esfomeados.

Pelo cerro da montanha abaixo fica o Alto do Lombo! As primeiras águas dos Sorreiros, no verão, correm devagarinho perante ervas, fetos e urzes e dirigem-se lentamente para a Corga da Naia.



Um troço da Corga da Naia, escondida nesses montes. Por ela correm as primeiras águas do rio de Adrão. Foto tirada do Penedo do Osso


Aqui, a Corga da Naia, fotografia tirada das Fontes

O rio nasce à esquerda da foto, na zona verde, em cima. A água desce para a nossa direita e depois desce pela corga da Naia e ruma ao Lugar de Adrão

Do lado oposto há outra nascente que debita as águas para o rio de Bordença onde existe uma ponte rudimentar que dizem poder ter sido romana mas, nem só os romanos faziam pontes. Por ali se caminhava rumo à Galiza, mais um dos Caminhos de Santiago.

Agora vou-vos contar a história de uma minha amiga. Uma gotinha de água a que chamo Sonhadora, que nasceu e desceu o rio durante um mês de Julho.

A Sonhadora nasceu ali pelos Sorreiros.

De dentro do monte brotam as gotas de água e a Sonhadora, uma dessas gotas que corre ao lado de muitas outras, tal como o Ventor, rola apreciando a paisagem. Ela sai das entranhas da terra, olha Apolo caminhando no céu azul e começa a apreciar tudo, desde o mais simples ao mais complexo obstáculo.

A gotinha respira fundo e o seu primeiro encontro é com a areia que se desvia à passagem rocambolesca do seu grupo. De frente encontra um tufo de ervas e ela topa uma ervinha mais isolada e entra na base do seu eixo correndo em todo o seu comprimento e depois, já na ponta, espreguiça-se um pouco e forma o seu primeiro salto perigoso.

Enrola-se toda e, sem largar o grupo, vai de encontro à primeira pedra, para ela uma grande rocha, onde faz ricochete e é atirada contra outra. Depois, ela e as suas companheiras, prosseguem nos seus trilhos onde se vão juntando a mais gotas, muitas gotas provenientes de outras fontes e vão-se misturando umas com as outras formando já um belo corpo líquido. Mais abaixo, mais um encontro. As gotas que descem da Fonte da Naia encontram-se com as que descem dos Sorreiros e engrossam o grupo que já canta laudas aos belos montes por onde caminham e por onde também caminhava o Ventor - no nosso Locus Amoenos.

Em cima de uma pedra molhada está uma rã cantarolando ladainhas à água e, mais ao lado, uma cobra fazendo que canta parecendo entreter a água e tentando enganar a rã. Mas esta, quando a cobra forma a estucada, salta para a água atropelando a Sonhadora.

 

Uma rã

Ali começa logo a guerra dos mundos!

Mais em baixo, um grande sardão verde, com parte do peito e do pescoço azuis, muito sereno, sobre a rocha meio molhada ao lado da qual caminha um insecto a que chamam escaravelho. A este o lagarto tenta enganar fazendo que, naquele momento, só os raios de Apolo lhe interessam. O escaravelho entretido a ouvir o cantarolar da água, no instante que a Sonhadora lhe grita "cuidado", deixa-se apanhar pelo lagarto que louva os seus deuses por mais aquele petisco que lhe vai dar energias para continuar a sua caminhada junto com Apolo.

Mais em baixo outras águas se vão juntando. As que nascem na Chãe do Boi, e na Charneca, na margem esquerda, e as que nascem na margem direita ao fundo do Alto do Lombo, pelos lados de Fontoura.

A gotinha continua a caminhar e, depois, entra num sítio onde os raios de sol se perdem durante algum tempo. É um troço terrível onde ninguém se lhe chega e a que chamam o Rio da Fraga! Foi ali que existiram as últimas corsas das montanhas de Adrão. Ali houve corsas segundo me diziam ainda nos tempos de puto do Ventor e por ali as águias se mantinham sossegadas sem que ninguém as martirizasse quando queriam descansar. Chamam-lhe o Rio da Fraga, eu chamar-lhe-ia a Garganta Negra.



Uma foto do rio da Fraga tirada da Corga da Naia

Ali, eu tenho a certeza que, ninguém, a não ser corsas, águias e falcões, pouco mais, ninguém se atrevia a pôr os pés junto ao troço do rio, depois do nosso poço de banhos, mais abaixo. Eu bem tentei e nunca consegui e sítio onde o Ventor tentasse e não conseguisse, acredito que não valeria a pena alguém tentar.

Mas, continuando a receber amigas, a nossa Sonhadora sai da sombra e volta a exibir-se para todos que fazem o mundo lindo, como o Ventor e seus amigos, as vacas, as cabras, as ovelhas e demais animais, sem os quais o cantarolar das águas não teria qualquer interesse. A Sonhadora voltou a gritar: "o mundo é lindo"! E é!

A nossa gotinha, na sua caminhada, procurava não ser ingerida pelos animais que se aproximavam da água onde procuravam matar a sede e só pensava prosseguir o seu sonho - descer rio abaixo e chegar ao mar!

Ao entrar no troço do rio a que chamam Rio da Leira, além das gotinhas ingeridas pelos animais, a gotinha perdeu muitas outras amigas, que foram desviadas para regarem as terras. Mas sempre no princípio de sorte de uns e azar de outros, a Sonhadora continua a sua caminhada e, mais abaixo, é desviada, também, para um rego de água, mas este levava a água para fazer rodar a mó do primeiro moinho operacional que aparecia na aldeia. Para trás já tinham ficado as ruínas de outro. Numa leva, muito a pique, ela sentiu cócegas na barriga bojuda e foi atirada a alta velocidade contra aquele rodízio de madeira que fazia rodar, em cima, a mó que esmagava o grão de milho do ano anterior, o predecessor do tal que outras velhas amigas tinham sido chamadas a proteger da sede para que, no ano seguinte, outras gotas levassem a bom caminho outros milhos e outros moinhos. Fazia parte do ciclo.


Uma alvéola, uma das mais belas companheiras das caminhadas do Ventor

Saída do moinho, ela volta ao rio e caminha de mansinho de poço em poço, ao mesmo tempo que ia ficando nos recantos, em remansos de águas apreciando o que se passa em redor. À sombra dos salgueiros um melro desce à água e bebe numa pocinha de outras águas que rodopiam lentamente entre os carriços. Mais ao lado, uma alvéola ou lavandisca, pousa numa pedra húmida ao seu lado, dando ao rabinho de penas negras, movimentos verticais, e ia cirandando rio abaixo e rio acima.

Mas não fica por ali. Uma toupeira de água passa juntinho e ela é empurrada pela força motriz que a toupeira origina à passagem. Por ali a gotinha continua rodopiando lentamente e mais um belo bicho lhe passa por cima e ela, pelas experiências dos ciclos de vida que tem, repara mais uma vez tratar-se de um guarda-rios. O guarda-rios segue rio abaixo e, a seu lado, no remanso de águas originado pelas forças de retenção que a obrigam a permanecer por mais algum tempo naquele local onde havia um belo baile de outros bichos seus conhecidos. Era um baile de cabras-cegas.



 Dança das cabras-cegas

Por fim, a Sonhadora segue viagem. Desce o rio com a lentidão proporcionada pelas securas do verão. Num poço uns putos tomam banho e mergulham nas águas mais profundas e a Sonhadora, embora sempre alerta, entra na boca de um deles e pensa que é o seu fim. Mas não, o puto deita a água fora e a Sonhadora acabou por se desenvencilhar de um possível martírio. Prossegue viagem até à ponte, mas antes, há mais um rego e a passagem por mais um moinho.

Porém, desta vez, a Sonhadora continua pelo rio e outras amigas encaminharam-se para as águas que vão dar a força motriz ao moinho da Ponte. Enquanto elas passam por cima para depois caírem a pique com as cócegas na barriga, a nossa amiga Sonhadora foi-se meter em mais uma alhada.



O moinho e o poço da Ponte, onde termina a primeira etapa da bolhinha sonhadora

Ao lado do moinho, no leito do rio, estavam duas mulheres do Lugar (uma era a mãe do Ventor) a lavar roupa e a Sonhadora ia asfixiando no meio do sabão azul e branco. Mas por entre camisas, lençóis e mãos que a tentaram esfarelar contra a rocha, a Sonhadora escapou-se, por entre os dedos, para o poço de baixo. Ali andavam amigos do Ventor a apanhar girinos (os nossos velhos carrapatos - futuras rãs) para aprisionar em charquinhos de água à margem do poço. A gotinha esteve quase cercada num desses charquinhos, mas escapuliu-se para o poço, junto à ponte, onde haveria mais uma divisão de águas e onde a Sonhadora poderia ter perdido o seu sonho.