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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Canto à Galícia

Caminhando pertinho do céu, pelos cabeços das minhas Montanhas Lindas, eu recordo-me sempre dos tempos em que beijava o solo, em quedas aparatosas, quer em correrias hoje impensáveis, quer quando voava pela garupa dos belos cavalos garranos que, tal como eu, só tinham aquele mundo de urzes, fetos, tojos, carrascas (as belas ericas), ervas, granitos e pouco mais.

Quando isso não acontecia, o que era raro, espreitava por sobre os cabeços das minhas belas montanhas e, observava mais ao longe, as montanhas lindas dos outros - «nuestros irmanos galegos». E, para quem não o sabe, olhem que eles também as têm!

Nesses tempos, eu observava as montanhas dos nossos amigos "manolos", que sabia que também caminhavam entre elas, observando as nossas. Mas eu sabia que, para mim, apenas existia uma terra, em Espanha, que estava sempre frente aos meus olhos - Olelas! Olá, Olelas!

Olelas fica do lado oposto à Várzea e, entre Olelas e a Várzea, corria o rio formado pelos ribeiros que descem de Castro Laboreiro e da Peneda, juntando-se um pouco mais acima da Várzea, mas hoje, esse rio foi afundado e engolido por um braço da belíssima Barragem do Alto Lindoso e, com ele, toda a veiga da Várzea.


A Várzea do lado de cá, ficou sem a sua veiga, afogada em água. Do lado de lá, está Olelas

Durante aqueles tempos, nos primórdios da minha vida, Olelas, lá estava, sempre presente frente à Cascalheira, a cumprimentar-me, lá de longe, com o seu olá especial: «olá Ventor». E, nos tempos de frios de rachar, eu dizia olá, já com as costas das mãos negras e mais negras ficavam quando olhava a veiga da Várzea e o lado galego junto ao rio, matizados de branco da geada e do verde das ervas. E, quando tentava aquecer as orelhas, até julgava que, se fizesse mais uma forcinha elas se autodestruiriam como pedaços de gelo.

Mais tarde, aprendi a observar mais de perto, «nuestros irmanos» e passei a observá-los como tal e, enquanto isso, também aprendi a olhar, do lado de lá, sobre os seus  cabeços, os cabeços do meu berço que, com o tempo, depois de conhecer muitas outras, passei a chamar-lhe as minhas Montanhas Lindas.


A Várzea e Olelas vistas da estrada por baixo da Chãe da Porca. As montanhas rochosas do lado esquerdo, lá em cima, são parte da serra da Peneda, zona de Castro Laboreiro

Hoje, recordo o Júlio Iglesias e tal como ele, canto em sonhos a mesma canção: "tenho morrinha tenha saudades"! E, se tivesse a sua voz, cantaria, bem alto, as saudades que tenho de olhar as terras de meus pais.

Foram apenas 15 anos que me marcaram para a vida toda e olhem que não era nada fácil!

Nada estará mais vivo no meu espírito do que todos os recantos das minhas Montanhas Lindas onde continuo permanentemente a caminhar sobre os seus caminhos pedregosos que nunca esqueço.

É por isso que, tal como o Júlio, cantarei: "tenho morrinha, tenho saudade"!

Um Cantico à Galiza

7 comentários:

  1. Olá Luís! Bonitas as tuas fotos, bonitas as tuas palavras de saudade de "morrinha" e bonito este Portugal que enalteces com tanta eloquência. Foram 15 anos que te marcaram e que perpetuarão, porque te trazem à memória uma parte importante da tua vida, a essência da tua infância, da tua vida, afinal. Sinto grande júbilo sempre que leio algo sobre as tuas "montanhas lindas", pois sinto em ti uma forma prazenteira em nos dares a conhecer, com certo orgulho, esses recantos lindos do nosso país. Um obrigada grande, por me teres dado a conhecer coisas tão lindas do meu Portugal, que tanto amo. Beijo. Tina

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  2. Já há um tempo que não vinha aqui deleciar-me com os teus "contos" e as tuas lindas fotografias. Também gosto do Júlio Iglésias mas os teus escritos sobre a Galiza, os nossos irmãos do outro lado, são mais emocionantes do que a voz dele.

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  3. Amigo Ventor, sou como tu, uma eterna saudosa. Também tenho saudades das terras e rios da minha infância, dos lugares onde vivi, mas que hoje estão completamente diferentes do que conheci. Talvez por isto é que gosto tanto de ler o que escreves, pois sinto que este nosso sentimento é o mesmo. Quanto à música, lembro-me bem da época que ela fez sucesso. Sempre gostei do Júlio, pela voz maravilhosa e a forma de interpretação. Enfim, o post fez-me muito bem!
    Um abraço

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  4. Prezado companheiro
    Gostei muito de relembrar uma canção que há muito não ouvia.
    Também partilho consigo o gosto pela montanha, pela paisagem agreste, pelos trilhos, por me perder e me encontrar no silêncio da paisagem do miño e da galicia.
    Parabéns
    RRolim

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  5. Caro Amigo Ventor

    É uma maravilha ler os teu cantos.

    Cumprimentos
    Belmiro Xavier

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  6. Venho sempre maravilhado, para ver e apreciar este blogue, o melhor da blogosfera, com fotografias de grande qualidade, uma paixão. Boa semana com tudo de bom.

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