sábado, 18 de julho de 2026

Montanhas Lindas - Serra de Soajo

Uma parte das Montanhas Lindas do Ventor

 

 

 

 

 

 

 

 

Como eram lindas as minhas montanhas! E como foram transformadas por mãos criminosas em 2006. Mas as vozes dos deuses fizeram tudo para acalmar a mente do Ventor. Esta música representa o choro de todos aqueles que, de entre as estrelas caminharam nelas, espreitam os estragos de gente sem escrúpulos

 

domingo, 31 de maio de 2026

Fotos com legendas

Faleceu a Bonnie Tyler


Mas que grande dor de coração Bonnie Tyler. Vamos sentir a tua falta.
Que Deus te tenha a Seu lado
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Agora, encostei no meu cantinho, de onde vou espreitando por algumas destas janelas, já prontas, da minha Grande Caminhada. Siga por aqui "Ventor Observando o Passado".

Foi em Adrão que tudo começou. Agora a Página Luiz Franqueira


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Nasci em Adrão

O Cantinho do Ventor

Caminho por aí

Caminhei por Moçambique

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Com o meu Quico

Caminho pelo Passado

As Belezas do Ventor

O Azul do Planeta

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Observei a Natureza

Com o Pilantras

Estou entre as músicas

Somos filhos do Sol

terça-feira, 19 de maio de 2026

Rojões na serra de Soajo

Vejam estes golosos a comer rojões assados na serra mais linda do mundo - a serra de Soajo

Assar rojões na serra de Soajo, nos braseiros dos torgos das urzes, é uma tradição de séculos. Os que eles estão a comer em cima, são estes. Eu estou de serviço às fotos.

domingo, 12 de abril de 2026

Olá Primavera

 Vem aí a Primavera.

mimosas, um foco de amarelo

Vamos entrar em mais uma. Sim porque todos os anos têm uma Primavera! Espero que o ano de 2005 também tenha a sua. Houve tempos em que as flores definiam as Primaveras, mas hoje já não é bem assim, pois flores há todo o ano. No entanto, na Primavera há mais! Mas as Primaveras costumam, para além de irradiar flores, serem radiantes de vida e isso eu já estou a ver este ano.

Já vi a primeira andorinha de 2005, já vi as borboletas bailarem à minha frente, já assisti às minhas sinfonias mágicas com abelhas e besouros num belo palco amarelo, pintado com uma tinta especial - a flor do tojo. Também já vi as rolas, os melros, os gaios e demais passarada, nos seus namoriscos. Enfim, já vi tudo que dá para poder definir uma Primavera. O que eu não vi foi o Inverno e já não vale a pena procura-lo. Vi apenas alguns dias frios! Não vi chuva, não vi tempestades a virar guarda-chuvas, não vi nada a não ser descontentamento. Mas vi o chão gretado pela seca, com autênticas cavernas e vi a aflição das flores e das plantas a tentarem sobreviver devido à seca.

chapim real

Agora vem aí a Primavera e com ela o dia da Árvore. As pessoas, comandadas por grupos cheios de boa vontade, vão plantar árvores em locais homenageando assim uma das belezas que a Natureza nos oferece. A árvore é bela e útil para a humanidade e seus companheiros de caminhada e aqueles que já passaram por desertos, sabem avaliar o quanto vale uma árvore.

Para mim as árvores são belas companheiras de caminhada. Tenho bastantes árvores cinquentenárias, plantadas por mim quando pequeno. Algumas já foram úteis para a família. Já deram madeiras e lenha pelos anos fora, outras já morreram queimadas por indivíduos trôpegos de mente. Mas hoje recordo, vivamente, o carinho com que plantava uma árvore. Com que a agarrava e a prendia à vida. À vida dela e à nossa.


Um salgueiro

Recordo como as limpava, como as replantava em locais mais adequados e como ficava fulo quando os meus pais entendiam que a árvore não podia estar ali. Aí ainda era pequeno de mais e o sítio não era realmente o adequado, mas eu tratava a árvore como o ser vivo que é. Pegava nela e dava-lhe o local adequado e a minha mãe ficava toda encantada. Havia um velhote, o ti Dafonte, que dizia que eu iria ser um grande jardineiro. Quem me dera! Afinal nasci para mexer em muita coisa, mas não em jardins. No entanto, sei aprecia-los! Dói-me a alma quando vejo os jardins mal tratados por vândalos da sociedade! As pessoas, normalmente, embora não perceba porquê, são mais inspiradas a fazer mal.


Os "gatos" dos salgueiros uma beleza deste mundo

Em Massamá, plantei 6 árvores nos largos canteiros do passeio abandonados por todos. Foi o meu trabalho ao comprar ali casa. Árvores bonitas, das quais três eram palmeiras. Tinha uma sempre noiva que estava sempre florida e a malandragem partia-lhe os galhitos e depois partiu-a a ela. Quantas vezes eu ia a Massamá, de propósito, só para as regar a ver se resistiam aos calores dos Verãos. Ninguém ligava aos canteiros e eu até me permiti, enterrar o meu Rafinho (coelhinho anão) entre duas dessas pequenas árvores.

Um dia alguém se lembrou de ajardinar os canteiros, em Massamá. Chegaram e cortaram as árvores para colocarem lá outras, por sinal de mau gosto. Foi um grande choque porque tinha ali investido uma "pequena fortuna" em árvores e trabalho, devido ao abandono que se verificava. As minhas palmeiras eram bem mais bonitas do que as que as substituíram. Enfim, negócios!

A beleza das borboletas

Agora, espero que as árvores que vão ser plantadas neste Dia da Árvore, tenham água para sobreviver ao verão seco que se avizinha e que não pensem nas árvores apenas neste dia. Claro que não vos vou pedir para passarem a vida a plantar árvores, e depois aparecerem outros e corta-las, mas peço-vos para as olharem, as respeitarem e agradecer-lhes a sua presença na nossa caminhada.


As florestas do nosso consolo

Uma janela deve servir para alguma coisa. Por ela podemos observar de tudo um pouco, como florestas e prestar nossa homenagem às matas selvagens onde, por vezes, tropeçamos, com os olhos ou com grandes caminhadas. Foco duas em homenagem a todas as outras. Uma é a mata de carvalhos de Albergaria no Gerês, acessível a todos, outra é a mata de carvalhos no Ramiscal, nos contrafortes da serra de Soajo, ecossistemas primitivos protegidos no Parque Nacional Peneda-Gerês. A mata do Ramiscal é apenas acessível a privilegiados (gente com capacidade de fazer pedaladas) e só a vejo a escassos intervalos do meu tempo mas está sempre no meu coração.

sábado, 11 de abril de 2026

A Caminhada do Ventor por Adrão

 Foi há 75 anos!

Foi por lá, na bela serra de Soajo, pelas suas fraldas, que eu aprendi a caminhar e a observar as belezas que a sua bela Natureza nos oferece. Foram 15 anos dos quais não me esqueço.

Hoje, ao caminhar pela serra de Soajo, vivo, em sonhos, mais de meio século depois, os primeiros 15 anos da minha vida.

Como já tenho dito, por aqui, recordo, sonhando, aquelas pequeninas passadas que ia dando agarrado às saias da minha mãe para não beijar as pedras que, "estoicamente" me ameaçavam, numa espera permanente, aguardando mais um tropeção.


As rochas graníticas metamorfizadas no Alto da Pedrada, resultado de milhões de anos da accão dos gelos, das alterações térmicas e não só, foto de 12.10.2010

Ainda hoje vivo, em sonhos, as passadas que dava agarrado à mão de meu pai, especialmente, ao atravessar as águas que lenta ou rapidamente desciam as encostas, seguindo sempre as descidas da gravidade apontando rumo ao rio Lima, lá em baixo.

Vivo, em sonhos, o caminhar atrás das vacas, alargando sempre a passada, tão larga, quanto possível, até um dia atingir o Alto da Pedrada.

A Pedrada!

Sim! Aquele amontoado de pedras que a filha de um rei qualquer das Astúrias teria juntado para construir o tal palácio.

A lenda é bonita. Muito bonita!

Mas ... temos agora o assentamento romano ... !


As mesmas rochas vistas, cá de baixo, quando subia do Fojo do Lobo do lado de Travanca, foto de 12.08.2010

A lenda é bonita porque nos fala de valores humanos e de beleza.

Essa filha desse tal rei, uma bela princesa, sentia-se infeliz na sua terra de nascimento. Andava sempre triste e seu pai, o rei, estava preocupado com ela e achou que a filha precisava de conhecer mundo. Os dois acordaram no seguinte: a princesa iria caminhar na direção que quisesse procurando uma terra onde se sentisse feliz ou encontrar um local que lhe agradasse para aí construir um palácio.

Assim foi. Depois de percorrer várias terras, atravessar rios, vales e serras, foi dar com uma montanha linda. Olhou em volta e, tudo o que via lhe agradava. Só via serranias e vales profundos e, depois de tanto observar o que a rodeava, apressou-se a informar o seu séquito que era ali que construiria o seu palácio. Por isso, enquanto iria às Astúrias informar o seu pai podiam começar a transportar as pedras para a construção.

Regressou e chegando junto do seu pai, informou-o de que a sua vida iria mudar radicalmente. Tinha encontrado o seu local desejado para a construção do seu futuro palácio e já deixara lá parte dos seus acompanhantes para darem início aos trabalhos. Já começavam a juntar as pedras para a construção.

Pegou nas mãos do pai esfregando-as e disse-lhe: «pai, não haverá local mais bonito no mundo. Todo o horizonte em redor daquele sítio é fabuloso. Montanhas e mais montanhas a perder de vista e por cima dos cabeços das montanhas somos acariciados por uma brisa marítima carregada de iodo. Por lá, pelos seus vales e encostas há muitos lobos, javalis, veados, ursos, ... e muita floresta de carvalhos e demais árvores como as nossas aqui. Vou construir naquele local um palácio lindo e ....»».


Subindo do Fojo do Lobo de Travanca, rumo à Pedrada, foto de 12.08.2010

O rei não passava de um homem e, foi contagiado pelo entusiasmo da filha, pensando que exagerou ao dar-lhe a possibilidade de se tornar uma princesa feliz.

Sisudo, tentando observar o vácuo diz: "não minha filha, se esse sítio é como tu dizes, só pode ser digno de um rei".

Ele matou o sonho da sua filha, a sua princesa. Assim, ainda hoje lá estão aqueles pedregulhos de granito à espera de uma outra princesa que dê andamento à obra.

Quando hoje caminho pela Pedrada e observo aquela gigante cascalheira de pedras recordo a bonita lenda e recordo também como ela foi bonita para mim. Quem melhor a contava era o ti Manuel Ramos ao me explicar como tinha ficado sem a sua mão ao manipular um petardo dos foguetes lançados na romaria da Peneda e que lhe rebentou na mão.

«Luiz, nunca mexas nessas coisas. Não te esqueças que ainda podes vir a casar com uma princesa que vá acabar de construir o vosso palácio na Pedrada».


Foi uma grande subida, no calor de 12.08.2010, com a zona do Mezio, para trás, cheia de fumo, de um incêndio rumo ao monte Gião

Mas hoje, caminhando sobre os granitos da Pedrada, eu tento esquecer a lenda. Esqueço a princesa da Pedrada e o seu pai, um rei sem palavra.

Recorro à Geologia, à Morfologia das Rochas e vejo que o rei é o Tempo e que a princesa é a filha do tempo. Caminhando sobre a serra de Soajo, caminho sobre o tempo geológico e sou informado pelos especialistas que as suas rochas graníticas, tal como as dos planaltos de Castro Laboreiro são muito antigas pois têm mais de 300 milhões de anos.

Dizem-me também que todos os vales em U já foram glaciares. Estou a lembrar-me da Seida. A Seida é um vale quase em U e os gelos desciam da velha Pedrada rumo à montanha de Santo António de Vale de Poldros, desviando-se à esquerda rumando pelo vale do rio Vez. Também os especialistas me dizem que os granitos da Pedrada são resultado das intrusões das águas e dos gelos sobre os granitos e das grandes alterações das temperaturas térmicas, na caminhada dos milénios, delapidando-os.


Esta foto, tirada de Arcos de Valdevez para a Pedrada, em 29.08.2016, péssima, devido às circunstâncias, foi por ela, ainda na máquina que eu soube que a Pedrada tinha ardido. Mas eu não acreditava, porque a foto era pequenina e eu fiquei com dúvidas. Pensei contudo fazer uma caminhada à Pedrada e só quando caminhava do Alto da Derrilheira para a Corga da Vagem, já com a Pedrada em frente do nariz, verifiquei, sem dúvida que tinha ardido mesmo. O muro, em cima, à esquerda, é o muro do Fojo do lobo pendurado sobre o Mezio

A Pedrada terá sido, então, através de milhões de anos e das várias eras geológicas um centro de gelos que desceram em seu redor em todas as direcões. Ela faz parte da cordilheira Central Ibérica o Massiço Hispérico que se estende rumo à serra da Estrela e por diante, nomeada Cordilheira Hercínica ou Varisca. É uma cadeia rochosa onde as forças compressivas se iniciaram no Devónico, por volta dos 380 milhões de anos e se prolongou até ao Pérmico por cerca de 100 milhões de anos. As rochas graníticas da Peneda, entre a Pedrada e o planalto de Castro Laboreiro, como a Meadinha, a fraga da Nédia e parte leste da serra do Gerês são milhões de anos mais novas que os granitos da serra de Soajo.

A cadeia Hercínica ou Varisca é constituída por rochas muito deformadas com predominância de rochas graníticas e muito metamorfizadas. São estas, grosso modo, os "madeirames" do berço da nossa serra de Soajo. Voltarei!

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Rosa Martins


Rosa Martins Cortez 

Deus chegou à conclusão que estava na hora de a levar para junto d’Ele. Temos de aceitar, pois é assim que está escrito (mesmo que a gente não leia) nas leis da Natureza. Vamos uns atrás dos outros. Mas todos nós deixamos pegada. 

Ela foi minha madrinha quando tinha 18 anos. Quando eu era pequeno e se zangava comigo, dizia-me: “e levei-te eu ao colo para Soajo sem deixar que ninguém te pegasse”! 

Mas a nossa zanga era sempre curtinha. Apagávamos a candeia, mas acendíamos logo a luz. Quando eu tinha quatro-cinco anos, já eu queria montar a rola, uma égua que seu pai tinha. Fazia-me a vontade e quando eu caía da égua, parecia que o mundo acabava ali para os dois. Ela gritava e eu limpava o pó das roupas. Como tenho dito, nossa Senhora da Peneda esteve sempre junto de mim. Vamos ver até quando. 

Ainda hoje sinto as mãos dela quentinhas a aquecer as minhas! Naqueles tempos em que os frios galegos, muito secos, quase nos faziam cair as orelhas e o nariz. Ela metia as mãos nos bolsos e aquecia-as e eu, que nunca parava, parecia que desafiava os frios à bofetada. Agarrava-me as mãos e dizia: “ai meu filho que tu gelas”! Pegava-me nas mãos com as dela e parecia-me que as metia numa fornalha. 

Quantas histórias eu teria para contar dos nossos primeiros 15 anos de Adrão! 

Agora, só peço à Senhora da Peneda que me ajude a chegar até ela e segui-la até à sua última morada. A morada que ela escolheu para que o seu corpo fosse ali colocado junto do seu marido, do seu pai e da sua mãe. 

Que Deus a tenha a seu lado madrinha.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tojo-Gatunho

Tojo-gatunho uma flor amarela pouco sociável para as gentes mas que, quando florido, veste de amarelo as minhas montanhas lindas, na serra de Soajo, participando no seu embelezamento.

Nas moitas dos tojos escondem-se os coelhos e também nelas fazem as suas camas, onde dormem na sombra. O tojo mantém-se florido quase todo o ano e tal como a giesta e a carqueja, vestem de amarelo as montanhas da serra de Soajo. Escusado será dizer que, para mim, o tojo foi um dos meus inimigos vegetais até aos meus 15 anos. Quando via nascer o tojo em zonas proibidas cortava-o, tal como fazia às silvas. Se olharem bem esses espinhos (acúleos), eles metem respeito a toda a gente. E eu não esqueço na minha ida à Pedrada em 2013, com os meus amigos Eira-Velha, Luiz Perricho e António Branco, dia em que sofri um ataque de coluna que me pós a coxa direita a "ferver" como uma panela, ao descermos a Férrea, caí e fui aprisionado por moitas de tojo das quais só depois de me levantar e cair, só à terceira vez me consegui libertar delas e senti a pele gelada de uma cobra castanha a roçar nas minhas costas. Foi a segunda maior tormenta na serra de Soajo, esta devida ao tojo e, ainda hoje, olhando o tojo, julgo que ele se ri de mim.


Linda flor amarela mas "mázinha" devido à sua protecção pelos acúleos do arbusto que lhe dá vida

Antigamente, pela bela serra de Soajo, os tojos não tinham a sorte que têm hoje. Muitos deles eram comidos, quando à nascença, ainda tenrinhos, pelos animais que eram pastoreados em redor dos lugares. Vacas, cavalos, cabras e ovelhas, davam-lhe um grande desbaste. Também as populações o cortavam, a força de pulso, para, quando seco, servir para fazer as camas dos gados nas cortes. Em Maio os estrumes eram levados para os campos para fazer as sementeiras.

Amostra de moita de tojo-gatunho

Mas hoje, para tristeza minha, vejo tojos enormes que pintam em demasia as nossas montanhas lindas com a cor amarela e, à falta de melhores circunstâncias, eles tentam deslumbrar-me com as suas cores ao mesmo tempo que as abelhas me preparam as melodias mais lindas.

Ainda há dias, junto ao cemitério de Adrão assisti a isso. Olhava o monte que desce do cemitério até ao rio, monte que há cerca de 38 anos eu subi com 40º (quarenta graus) à sombra num ápice, vindo da Assureira, até à casa do meu amigo Joaquim da "Chica" nas minas do Miguel. O calor não teve força para me fazer cancelar a caminhada mas os tojos de hoje têm! Acredito que se o tentasse, não sairia dos arredores do moinho de pedra que existe no rio.

Apesar das suas propriedades negativas os "ulex europaeus" e todas as espécies "ulex", como o tojo-gatunho (ulex densus) ainda são capazes de me encantar com a sua floração amarela nos meus belos montes.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

rio adrão

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Aqui nasce o rio Adrão

Das melhores coisas da minha vida, foi caminhar no rio de Adrão. Até aos 15 anos e depois, à medida que por lá ia passando. Nesses tempos eu caminhava no meu rio como caminho hoje por muitos trilhos limpos. Hoje sim! Mas hoje já não dá para caminhar assim pelo rio de Adrão. O rio Adrão nasce aqui e vai perder-se enleado em matagais sem fim, até se encontrar com o rio Lima, entre Soajo e Cunhas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Eu nasci na serra de Soajo

Foi por lá, na bela serra de Soajo, pelas suas fraldas que eu aprendi a caminhar.

Hoje, ao caminhar pela serra de Soajo, vivo, em sonhos, mais de meio século depois, os primeiros 15 anos da minha vida.

Como já tenho dito, por aqui, recordo, sonhando, aquelas pequeninas passadas que ia dando agarrado às saias da minha mãe para não beijar as pedras que, "estoicamente" me ameaçavam, numa espera permanente, aguardando mais um tropeção.


As rochas graníticas metamorfizadas no Alto da Pedrada, resultado de milhões de anos de acão dos gelos, das alterações térmicas e não só, foto de 12.10.2010

Ainda hoje vivo, em sonhos, as passadas que dava agarrado à mão de meu pai, especialmente, ao atravessar as águas que lenta ou rapidamente desciam as encostas, seguindo sempre as descidas da gravidade apontando sempre rumo ao rio Lima, lá em baixo.

Vivo, em sonhos, o caminhar atrás das vacas, alargando sempre a passada, tão larga quanto possível até um dia atingir o Alto da Pedrada.

A Pedrada!

Sim! Aquele amontoado de pedras que a filha de um rei qualquer das Astúrias teria juntado para construir o tal palácio.

A lenda é bonita. Muito bonita!


As mesmas rochas vistas, cá de baixo, quando subo do Fojo do Lobo de Travanca, foto de 12.08.2010

É bonita porque nos fala de valores humanos e de beleza

Essa filha desse tal rei, uma bela princesa, sentia-se infeliz na sua terra de nascimento. Andava sempre triste e seu pai o rei estava preocupado com ela e achou que a filha precisava de conhecer mundo. Os dois acordaram no seguinte: a princesa iria caminhar na direção que quisesse procurando uma terra onde se sentisse feliz, ou encontrar um local que lhe agradasse para aí construir um palácio.

Assim foi. Depois de percorrer várias terras, atravessar vales e serras, foi dar com uma montanha linda. Olhou em volta e, tudo o que via lhe agradava. Só via serranias e vales profundos e, depois de tanto observar o que a rodeava, apressou-se a informar o seu séquito que era ali que construiria o seu palácio. Por isso, enquanto iria às Astúrias informar o seu pai podiam começar a transportar as pedras para a construção.

Regressou e chegando junto do seu pai, informou-o de que a sua vida iria mudar radicalmente. Tinha encontrado o seu local desejado para a construção do seu futuro palácio e já deixara lá parte dos seus acompanhantes para darem início aos trabalhos. Já começavam a juntar as pedras para a construção.

Pegou nas mãos do pai esfregando-as e disse-lhe: «pai, não haverá local mais bonito no mundo. Todo o horizonte em redor daquele sítio é fabuloso. Montanhas e mais montanhas a perder de vista e por cima dos cabeços das montanhas somos acariciados por uma brisa marítima. Por lá, pelos seus vales e encostas há muitos lobos, javalis, veados, ursos, ... e muita floresta de carvalhos e demais árvores como as nossas aqui. Vou construir naquele local um palácio lindo e ....»».

 



Subindo do Fojo do Lobo de Travanca, rumo à Pedrada, foto de 12.08.2010

O rei não passava de um homem e, foi contagiado pelo entusiasmo da filha, pensando que exagerou ao dar-lhe a possibilidade de se tornar uma princesa feliz.

Sisudo, tentando observar o vácuo diz: "não minha filha, se esse sítio é como tu dizes, só pode ser digno de um rei".

Ele matou o sonho da sua filha, a sua princesa. Assim, ainda hoje lá estão aqueles pedregulhos de granito à espera de uma outra princesa que dê andamento à obra.

Quando hoje caminho pela Pedrada e observo aquela gigante cascalheira de pedras recordo a bonita lenda e recordo também como ela foi bonita para mim. Quem melhor ma contava era o ti Manuel Ramos ao me explicar como tinha ficado sem a sua mão ao manipular um petardo dos foguetes que lhe rebentou na mão.

«Luiz, nunca mexas nessas coisas. Não te esqueças que ainda podes vir a casar com uma princesa que vá acabar de construir o palácio à Pedrada».


Foi uma grande subida, no calor de 12.08.2010, com a zona do Mezio, para trás, cheia de fumo, rumo ao Gião

Mas hoje, caminhando sobre os granitos da Pedrada, eu tento esquecer a lenda. Esqueço a princesa da Pedrada e o seu pai, um rei sem palavra.

Recorro à Geologia, à Morfologia das Rochas e vejo que o rei é o Tempo e que a princesa é a filha do tempo. Caminhando sobre a serra de Soajo, caminho sobre o tempo geológico e sou informado pelos especialistas que as suas rochas graníticas, tal como as dos planaltos de Castro Laboreiro são muito antigas pois têm mais de 300 milhões de anos.

Dizem-me também que todos os vales em U já foram glaciares. Estou a lembrar-me da Seida. A Seida é um vale quase em U e os gelos desciam da velha Pedrada rumo à montanha de Santo António de Vale de Poldros, desviando-se à esquerda rumando pelo vale do rio Vez. Também os especialistas me dizem que os granitos da Pedrada são resultado das intrusões das águas e dos gelos sobre os granitos e das grandes alterações das temperaturas térmicas, na caminhada dos milénios, delapidando-os.


Esta foto, tirada de Arcos de Valdevez para a Pedrada, em 29.08.2016, péssima, devido às circunstâncias, foi por ela, ainda na máquina que eu soube que a Pedrada tinha ardido. Mas eu não acreditava, porque a foto era pequenina e eu fiquei com dúvidas. Pensei contudo fazer uma caminhada à Pedrada e só quando caminhava da Derrilheira para a Corga da Vagem, já com a Pedrada em frente do nariz, verifiquei, sem dúvida que tinha ardido mesmo

A Pedrada terá sido, então, através de milhões de anos e das várias eras geológicas um centro de gelos que desceram em seu redor em todas as direções. Ela faz parte da cordilheira Central Ibérica o Massiço Hispérico que se estende rumo à serra da Estrela e por diante, nomeada Cordilheira Hercínica ou Varisca. É uma cadeia rochosa onde as forças compressivas se iniciaram no Devónico, por volta dos 380 milhões de anos e se prolongou até ao Pérmico por cerca de 100 milhões de anos. As rochas graníticas da serra da Peneda, entre a serra de Soajo e o planalto de Castro Laboreiro, como a Meadinha, a fraga da Nédia e parte leste da serra do Gerês são milhões de anos mais novas que os granitos da serra de Soajo.

A cadeia Hercínica ou Varisca é constituída por rochas muito deformadas com predominância de rochas graníticas e muito metamorfizadas. São estas, grosso modo, os "madeirames" do berço da nossa serra de Soajo.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Paradela

Vamos caminhar por Paradela de Soajo.

Paradela é a outra terra do Ventor. É desta terra que vos falo hoje, e vos conto um pouco da minha vida de criança. Aqui tive uma semana de escola!

Esta foi a segunda aldeia onde passei uma boa parte dos meus tempos de criança. Foi em Paradela que tive a minha primeira escola, embora não mais que cerca de uma semana. Fiz a minha primeira grande birra, travei a minha primeira grande batalha e usufruí da minha primeira grande vitória! Isto deu-se no ano de 1952, exactamente na abertura das aulas, pelo S. Miguel (mês de Outubro). A minha primeira professora, era de Bragança e foi-o por sete dias. Para me sossegar, deu-me uma boneca a ver se eu acalmava. Dei-lhe um grito para lhe dizer que as bonecas eram para as meninas e atirei com ela contra a parede. Ao fim de alguns dias, depois de tudo tentar, a professora que seria pouco mais que uma menina, chamou minha mãe e aconselhou-a a levar-me para Adrão, a aldeia onde nasci e a terra onde passava mais tempo e, por isso, onde estava a minha gente. Assim foi! Cheguei a Adrão, e integrei-me com toda a amabilidade deste mundo na sua escolinha do Senhor da Paz, nome do Santo que a gente de Adrão homenageia nesse local, pelo mês de Maio. Pelo menos era assim.

Este lugar aqui, é Paradela. Era a terra do meu pai por onde eu caminhei até aos 15 anos e demais visitas posteriores

A rapaziada dessa escola era quase toda mais velha que eu e havia bastante juventude para o tamanho da aldeia, além disso, não havia o sentido da escola, pois as gentes da aldeia precisavam dos miúdos para pastorear o gado e para andar à frente das juntas durante o acarretar do esterco e o lavrar das terras nos tempos das sementeiras, que eram tempos de aula. Eram eles parte activa nas lides das lavouras, na guarda dos gados e enfim, também não tinham o apoio necessário uma vez que, em casa, normalmente, ninguém sabia ler ou escrever. Em poucas casas haveria alguém que lesse. Eu tive o privilégio de ter um pai que sabia ler e escrever. Mas muito pouca gente estava nesse rol.

A partir daí, pelo menos durante o tempo de escola, deixei de ir a Paradela. Passei a fazer as minhas visitas mais espaçadas e só nas férias grandes, do Natal e da Páscoa, comecei a visitar aquela terra com maior permanência. Como aos sábados e domingos também tinha de se andar atrás dos gados, eu ia até aos Poços com as vacas desde a Assureira, rapar as ervas das lavouras de Paradela e por vezes, tinham de ficar por lá mais tempo a fim de transformarem em estercos (adubos) os estrumes levados para as cortes.

Desta janela, do lado de cá, do lado de Paradela, eu olhava Lindoso do lado de lá e os carros, que passavam na estrada, o mais peculiar era a carrinha do peixe que, ao chegar aos locais buzinava que se fartava

Por isso, todos os tempos eram selectivamente aproveitados. Era absolutamente necessário viver, durante o ano, em Adrão e em Paradela e, portanto, praticar um certo nomadismo entre as duas aldeias. Praticávamos uma agricultura de subsistência, com produção de milho, batata, feijão, algum centeio, umas frutas e vinho e, no nosso caso, este seria repartido por Paradela e pela Assureira, talvez 50% por 50%. Era difícil a vida na época!

Para Paradela também tenho reservado o meu quinhão de saudade! O lavrar das terras e fundamentalmente dos Poços, com meu pai, o ti "Vilanova" e o ti Domingues e mais família. Carrego em mim as saudades da minha nespereira dos Poços, que nunca esqueço. Também arrasto sempre comigo, as saudades dos bons figos das leiras do Baltazar, em Paradela.

Algures por aqui, nesta foto, haviam figueiras que davam figos maravilhosos. Há 58 anos que não voltei a comer figos daquelas leiras, nem de lado nenhum de Paradela

Mas nunca esqueço quão difícil era fazer a junção dos trabalhos nas duas aldeias. Era preciso levar o pão e outros coisas de Adrão para Paradela ou de Paradela para Adrão. Uma vez, quando eu ainda era muito pequeno, tocou-me trazer uma grande broa de milho, monte acima, a caminho de Adrão. A minha irmã, mais velhinha, vinha carregada, mas tinha torcido um pé e eu tinha mesmo que trazer a broa, pois ela não podia devido a já estar muito carregada. Eu não podia com a broa e não era nada fácil acarreta-la monte acima. Ela diz-me que se não chegamos com dia a casa, o lobo pode apanhar-nos, de noite, na Chãe da Porca. Eu comecei a fazer contas de cabeça e de repente pensei, se transportando a broa chegaria de noite à Chãe da Porca, onde o lobo nos podia apanhar, valia mais chegar com dia a casa e sem a broa. Mandei a broa montanha abaixo direita à aldeia da Várzea onde eu pensava que chegaria intacta e alguém a apanharia. Foi o melhor que pude arranjar. A minha irmã coxa, apanhou os bocados e meteu-os num saco e teve de ser ela a transportar tudo. Eu não queria nada com o lobo nem que ficasse sempre sem pão.

Esta é a capelinha de Paradela. Não fui grande assíduo dela mas porque não se proporcionou. Talvez volte a falar dela

Deixemos Paradela e venham comigo, ver como são estes bichos horrorosos que sempre me meteram medo. Vejam como são os Bichos da Peçonha. Venham comigo e com o Quico ou não gostam da Índia? Se não gostam vão até ao Ventor em África e prossigam por outros trilhos.

O Cão de Castro Laboreiro ...

 

... ou sabujo de Soajo?

Como são lindas as minhas Montanhas Lindas, na companhia destes primos dos cães do meu amigo Nemrod!

Tinha escrito por aqui, uns aninhos atrás, uma história sobre um cão de Castro Laboreiro, no meu site "A Caminhada do Ventor". Há cerca de um ano, mais ou menos, o meu amigo NetSapinho, decidiu acabar com os Sites e, eu que tenho a mania de esquecer as coisas, não tirei as páginas todas a tempo e horas.

Claro que vou ter de reescrever o que o meu pai me contou sobre o cão e, o que me leva a isso é, sòmente, falar do cão de Castro Laboreiro ou do tal cão "sabujo" de Soajo.

O cão de Castro Laboreiro ou ... sabujo de Soajo

O meu pai nunca me falou dos cães "sabujos" de Soajo porque, com certeza, nada saberia sobre eles e, quando as pessoas nada sabem, nada devem dizer. Foi assim que o meu pai me ensinou e é assim que eu procedo.

Vim a saber, pelos anos fora, que o cão "Sabujo" de Soajo e o cão de Castro Laboreiro são uma e a mesma coisa! E porque não haveria de ser se as serras de Soajo e da Peneda estão ali tão enleadas uma na outra e também são uma e a mesma coisa! São a serra de Soajo! Sabemos da transumância dos gados de Soajo e de Adrão para a serra da Peneda, pelos planaltos de castro Laboreiro e, sabemos também que, em tempos de lobos, nada como ter por parceiro de caminhadas, cães possantes como os sabujos de Soajo, os actuais cães a que outros deram o nome de "cães de Castro Laboreiro".

 

Quando eu nasci, e nos primeiros 2 ou 3 anos da minha vida, meu pai tinha um cão desses. Eu sempre dediquei parte da minha vida a esses fiéis companheiros - os cães - e, muito pequenino, pendurei-me nesse belo cão que, não estaria pelos ajustes, meteu-me aquela bocarra enorme no antebraço e rosnou valentemente. «O cão estrafegou o braço ao moço, eu mato-o", terão gritado meu pai e minha mãe. Mas não! Ele apenas me terá avisado que não fosse tão impetuoso pois haveria regras para cumprir. O meu pai pegou-me no braço e verificou que o cão nem uma marquinha deixou.

 

O cão "sabujo" de Soajo

Em tempos ele lutava com os ursos, com os javalis, com os lobos, com as corsas. Esta estátua ou outra semelhante, estava num jardim privado, junto à igreja de Soajo, creio que, de um Sr. Jorge Lage. Se a estátua é a mesma ou não, não sei, mas sei que fica muito bem no local onde a encontrei, junto aos espigueiros e à Escola de Soajo no espaço onde se realiza a feira (1º de Soajo)

Por isso ele me contava a história de um amigo de Castro Laboreiro que chorou por um cão desses. O homem, nos fins de um Outono qualquer, terá ido tirar as ovelhas da corte e, quando elas iniciaram a subida do monte, foram atacadas por lobos, mais que um. O Tal cão "sabujo" de Soajo actual Castro Laboreiro, mandou-se aos lobos e persegui-os monte acima e o dono viu-o atravessar o horizonte do cabeço. O cão não voltou. O dono do cão procurou-o pelos montes de Castro Laboreiro e pensou que os lobos o mataram. Arranjou um rafeiro para o substituir e lhe fazer companhia no monte quando guardava as ovelhas.

Num inverno seguinte, quando as ovelhas iniciavam a subida, desce o monte uma alcateia de lobos, em correria, para atacarem as ovelhas. Um dos lobos faz grande corrida, direito ao homem que se tentava defender de cajado na mão. De repente, esse lobo, põe-se à sua frente e, dentes arreganhados, ameaçou os outros lobos que meteram o rabo entre as pernas e iniciaram a fuga no sentido inverso. Esse cão fez festas ao dono, endireitou-se por ele fora, lambeu-o todo. De repente, olhou-o fixamente, deu ao rabo e iniciou a caminhada atrás dos outros, passando o cabeço para trás. Era o seu cão que tinha acasalado com uma loba e tinham filhos que estavam a preparar para as caçadas, porque a vida custa a todos e também custa aos lobos.

... o cão "sabujo" de Soajo? Tem toda a lógica que seja o mesmo cão. Porque não?!

Meu pai gostava de me contar esta história para me lembrar que o cão que não me estrafegou o braço não era um cão qualquer e me reconhecia como seu dono, assim como o cão de Castro Laboreiro, sabia que os seus filhos nunca atacariam o seu velho dono, porque ele não deixaria. São assim os animais quando são bem tratados. Não só tratados com alimentação, não só matar-lhes a fome e a sede mas sim tratados com o respeito merecido, sejam eles que cães forem. O cão reflete aquilo que o dono é. Se o dono respeita os outros animais ou pessoas, o cão também respeita. Se o dono se revelar como o maior, o mandão, o esventrado dos miolos, qualquer que seja o cão, também o será.

Sonhos de Meus Avós

Caniços (à moda de Adrão), espigueiros (à moda de Soajo) ou canastros, também por ali usado.

Os caniços são locais para guardar o milho, especialmente, as espigas. A cultura do milho foi aquela em que eu nasci. Nasci e, praticamente, era colocado no meio das ervas, ao lado dos medeiros já derrubados para as esfolhadas. As mulheres e os homens arrancavam dos folhatos as espigas para os cestos. Não podiam retirar os folhatos para que a palha do milho viesse a alimentar os animais durante o inverno e os folhatos eram o melhor da palha.


Mas antes disso já o milho tinha dado grandes trabalhos à população de Adrão. Tudo começava por Abril, conforme o ano. Mas, quanto a trabalho, a cultura do milho era muito complicada. Não sei onde está o princípio nem o fim no seu ciclo anual. Por isso, vou começar esse ciclo com a sua sementeira, pelo mês de Maio. Mas, não esqueçamos que, até ali, pelo inverno fora, a cultura continuou durante todos os dias do ano. Senão vejamos:

Era necessário tirar o esterco das cortes para adubar as terras. Transportá-lo, espalhá-lo nos campos, lavrar e gradar as terras. Logo que o milho nascia começava uma segunda fase. Sachar, arrancar as ervas, mondar, desbastar e, depois na continuação do verão, as regas, com as mesmas operações de limpeza das ervas daninhas. Quantas vezes a falta de água era uma dor de cabeça pelo verão fora.

Após o amadurecimento do milho vinha o seu corte e a sua colocação em medeiros onde ia secando para se fazer a desfolhada. Nas desfolhadas, às vezes pela noite dentro, as mulheres cantavam, os homens ouviam e eu também queria ajudar às duas coisas mas, muitas vezes tinha que lutar contra aqueles malfadados bichinhos brancos que nunca maias acabavam. Mas, uma das minhas especialidades, quando pequenino, era colocar as espigas que caiam para dentro do cesto. Depois as espigas do milho, em cestos ou em sacos, eram levadas para os caniços. É aí que entram os nossos monumentos na cultura do milho, como esse, de pedra, em baixo.


O moinho da Ponte em Adrão

 Mas a cultura do milho não termina porque metemos as espigas nos caniços. Com o andar do tempo, ano fora, as espigas são debulhadas, o milho é levado para o moinho e, quando o moinho termina esse trabalho, o milho regressa a casa já como farinha. Com a farinha fazíamos o pão, as papas de milho, para nós e para os porcos. O milho era o combustível da sociedade. Era a energia que movia tudo, gente e animais. Com o farelo do milho alimentávamos os animais: os porcos, as galinhas, etç. Pelo inverno, nas noites longas e agrestes, as vacas comiam a palha. As pessoas cortavam o mato e traziam-no para as cortes, onde se transforma em esterco, fim de abril-maio, tudo recomeçava. Era assim, grosso modo, a vida da gente de Adrão - a minha vida, até aos 15 anos.

Taxa de consumo "per capita" de milho: ██ mais de 100 kg/ano ██ de 50 a 99 kg/ano ██ de 19 a 49 kg/ano ██ de 6 a 18 kg/ano ██ 5 ou menos kg/ano

Mapa dos consumos de milho no mundo. (Um mapa tirado de Wikipédia)

O México terá sido o local onde a humanidade iniciou o consumo do milho. Terá passado de monte em monte, de vale em vale, de barco, ... e espalhou-se pelo mundo. Praticamente por todo o mundo. É um dos cereais a que devemos muito, directa e indirectamente. Creio que li por aí, algures que, em 2009, ainda foi o cereal que mais se produziu no mundo, mais que o arroz e o trigo.

 Um caniço, algures, em Arcos de Valdevez 

Este caniço faz parte da alma da gente. Da gente de Adrão! Alguém disse: "tu não vais ficar em ruínas e cair por aí. Tal como a canção, anos antes, alguém a cantar ou numa linguagem, muito a sério, disse: «vou levar-te comigo, meu irmão»! Eu gostei do que vi. Gostei do caniço e, quem sabe, um dia não guardará milho, outra vez.

Mas hoje quem vai fazer isto? Quem vai recuperar caniços? O ciclo do milho acabou! Tudo indica que os ciclos agora são de incêndios. Não há cortes, não há animais, não é preciso mato. Que fazer ao mato? Deixá-lo secar, apodrecer e esperar que mãos criminosas ou outra coisa qualquer o transforme, como estamos a ver, em ciclos de incêndios. Não vai haver mais o ciclo do milho, por Adrão, a não ser que o mundo descambe. Por isso os caniços, que pomposamente ainda exibem com algum deslumbre as suas cruzes, as irão perdendo. Já não se fazem as cruzes nas grande broas do pão de milho!

Segundo me consta, os nossos governos não têm solução para nada. Preferem deixar acabar as coisas, tudo que ainda possa servir de recordação dos tempos passados. Vai ser assim com os caniços, como está a ser com as belíssimas casas florestais. Uma das últimas, a casa do Areeiro, entre Adrão e Soajo, já afundou o telhado da cozinha. Para quem conheceu essas casas é um dó de alma vê-las cair. Constou-me que homens que se dizem de bem, essas quadrilhas de políticos que se substituam umas às outras, com conivência nossa, e que só servem para sugar o país, as preferem ver cair do que vendê-las a quem as queria.

Por isso nós continuaremos a ser um país adiado. Enquanto houver políticos que só servem para desfazer o que outros tentaram fazer e como sabem isso é um ciclo vicioso em que estamos integrados, ano após ano, ou ciclo político após ciclo político, não haverá caniço que resista, não haverá ponte que resista, não haverá árvore que não arda, ... porque eles continuarão a espanejar o rabo pelos corredores das alcatifas e carpetes vermelhas e continuarão nas tintas para a vida real de todos nós.