Rojões na serra de Spajo

Rojões na serra de Soajo

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Sonhos de Meus Avós

Caniços (à moda de Adrão), espigueiros (à moda de Soajo) ou canastros, também por ali usado.

Os caniços são locais para guardar o milho, especialmente, as espigas. A cultura do milho foi aquela em que eu nasci. Nasci e, praticamente, era colocado no meio das ervas, ao lado dos medeiros já derrubados para as esfolhadas. As mulheres e os homens arrancavam dos folhatos as espigas para os cestos. Não podiam retirar os folhatos para que a palha do milho viesse a alimentar os animais durante o inverno e os folhatos eram o melhor da palha.


Mas antes disso já o milho tinha dado grandes trabalhos à população de Adrão. Tudo começava por Abril, conforme o ano. Mas, quanto a trabalho, a cultura do milho era muito complicada. Não sei onde está o princípio nem o fim no seu ciclo anual. Por isso, vou começar esse ciclo com a sua sementeira, pelo mês de Maio. Mas, não esqueçamos que, até ali, pelo inverno fora, a cultura continuou durante todos os dias do ano. Senão vejamos:

Era necessário tirar o esterco das cortes para adubar as terras. Transportá-lo, espalhá-lo nos campos, lavrar e gradar as terras. Logo que o milho nascia começava uma segunda fase. Sachar, arrancar as ervas, mondar, desbastar e, depois na continuação do verão, as regas, com as mesmas operações de limpeza das ervas daninhas. Quantas vezes a falta de água era uma dor de cabeça pelo verão fora.

Após o amadurecimento do milho vinha o seu corte e a sua colocação em medeiros onde ia secando para se fazer a desfolhada. Nas desfolhadas, às vezes pela noite dentro, as mulheres cantavam, os homens ouviam e eu também queria ajudar às duas coisas mas, muitas vezes tinha que lutar contra aqueles malfadados bichinhos brancos que nunca maias acabavam. Mas, uma das minhas especialidades, quando pequenino, era colocar as espigas que caiam para dentro do cesto. Depois as espigas do milho, em cestos ou em sacos, eram levadas para os caniços. É aí que entram os nossos monumentos na cultura do milho, como esse, de pedra, em baixo.


O moinho da Ponte em Adrão

 Mas a cultura do milho não termina porque metemos as espigas nos caniços. Com o andar do tempo, ano fora, as espigas são debulhadas, o milho é levado para o moinho e, quando o moinho termina esse trabalho, o milho regressa a casa já como farinha. Com a farinha fazíamos o pão, as papas de milho, para nós e para os porcos. O milho era o combustível da sociedade. Era a energia que movia tudo, gente e animais. Com o farelo do milho alimentávamos os animais: os porcos, as galinhas, etç. Pelo inverno, nas noites longas e agrestes, as vacas comiam a palha. As pessoas cortavam o mato e traziam-no para as cortes, onde se transforma em esterco, fim de abril-maio, tudo recomeçava. Era assim, grosso modo, a vida da gente de Adrão - a minha vida, até aos 15 anos.

Taxa de consumo "per capita" de milho: ██ mais de 100 kg/ano ██ de 50 a 99 kg/ano ██ de 19 a 49 kg/ano ██ de 6 a 18 kg/ano ██ 5 ou menos kg/ano

Mapa dos consumos de milho no mundo. (Um mapa tirado de Wikipédia)

O México terá sido o local onde a humanidade iniciou o consumo do milho. Terá passado de monte em monte, de vale em vale, de barco, ... e espalhou-se pelo mundo. Praticamente por todo o mundo. É um dos cereais a que devemos muito, directa e indirectamente. Creio que li por aí, algures que, em 2009, ainda foi o cereal que mais se produziu no mundo, mais que o arroz e o trigo.

 Um caniço, algures, em Arcos de Valdevez 

Este caniço faz parte da alma da gente. Da gente de Adrão! Alguém disse: "tu não vais ficar em ruínas e cair por aí. Tal como a canção, anos antes, alguém a cantar ou numa linguagem, muito a sério, disse: «vou levar-te comigo, meu irmão»! Eu gostei do que vi. Gostei do caniço e, quem sabe, um dia não guardará milho, outra vez.

Mas hoje quem vai fazer isto? Quem vai recuperar caniços? O ciclo do milho acabou! Tudo indica que os ciclos agora são de incêndios. Não há cortes, não há animais, não é preciso mato. Que fazer ao mato? Deixá-lo secar, apodrecer e esperar que mãos criminosas ou outra coisa qualquer o transforme, como estamos a ver, em ciclos de incêndios. Não vai haver mais o ciclo do milho, por Adrão, a não ser que o mundo descambe. Por isso os caniços, que pomposamente ainda exibem com algum deslumbre as suas cruzes, as irão perdendo. Já não se fazem as cruzes nas grande broas do pão de milho!

Segundo me consta, os nossos governos não têm solução para nada. Preferem deixar acabar as coisas, tudo que ainda possa servir de recordação dos tempos passados. Vai ser assim com os caniços, como está a ser com as belíssimas casas florestais. Uma das últimas, a casa do Areeiro, entre Adrão e Soajo, já afundou o telhado da cozinha. Para quem conheceu essas casas é um dó de alma vê-las cair. Constou-me que homens que se dizem de bem, essas quadrilhas de políticos que se substituam umas às outras, com conivência nossa, e que só servem para sugar o país, as preferem ver cair do que vendê-las a quem as queria.

Por isso nós continuaremos a ser um país adiado. Enquanto houver políticos que só servem para desfazer o que outros tentaram fazer e como sabem isso é um ciclo vicioso em que estamos integrados, ano após ano, ou ciclo político após ciclo político, não haverá caniço que resista, não haverá ponte que resista, não haverá árvore que não arda, ... porque eles continuarão a espanejar o rabo pelos corredores das alcatifas e carpetes vermelhas e continuarão nas tintas para a vida real de todos nós.

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