quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Rosa Martins


Rosa Martins Cortez 

Deus chegou à conclusão que estava na hora de a levar para junto d’Ele. Temos de aceitar, pois é assim que está escrito (mesmo que a gente não leia) nas leis da Natureza. Vamos uns atrás dos outros. Mas todos nós deixamos pegada. 

Ela foi minha madrinha quando tinha 18 anos. Quando eu era pequeno e se zangava comigo, dizia-me: “e levei-te eu ao colo para Soajo sem deixar que ninguém te pegasse”! 

Mas a nossa zanga era sempre curtinha. Apagávamos a candeia, mas acendíamos logo a luz. Quando eu tinha quatro-cinco anos, já eu queria montar a rola, uma égua que seu pai tinha. Fazia-me a vontade e quando eu caía da égua, parecia que o mundo acabava ali para os dois. Ela gritava e eu limpava o pó das roupas. Como tenho dito, nossa Senhora da Peneda esteve sempre junto de mim. Vamos ver até quando. 

Ainda hoje sinto as mãos dela quentinhas a aquecer as minhas! Naqueles tempos em que os frios galegos, muito secos, quase nos faziam cair as orelhas e o nariz. Ela metia as mãos nos bolsos e aquecia-as e eu, que nunca parava, parecia que desafiava os frios à bofetada. Agarrava-me as mãos e dizia: “ai meu filho que tu gelas”! Pegava-me nas mãos com as dela e parecia-me que as metia numa fornalha. 

Quantas histórias eu teria para contar dos nossos primeiros 15 anos de Adrão! 

Agora, só peço à Senhora da Peneda que me ajude a chegar até ela e segui-la até à sua última morada. A morada que ela escolheu para que o seu corpo fosse ali colocado junto do seu marido, do seu pai e da sua mãe. 

Que Deus a tenha a seu lado madrinha.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tojo-Gatunho

Tojo-gatunho uma flor amarela pouco sociável para as gentes mas que, quando florido, veste de amarelo as minhas montanhas lindas, na serra de Soajo, participando no seu embelezamento.

Nas moitas dos tojos escondem-se os coelhos e também nelas fazem as suas camas, onde dormem na sombra. O tojo mantém-se florido quase todo o ano e tal como a giesta e a carqueja, vestem de amarelo as montanhas da serra de Soajo. Escusado será dizer que, para mim, o tojo foi um dos meus inimigos vegetais até aos meus 15 anos. Quando via nascer o tojo em zonas proibidas cortava-o, tal como fazia às silvas. Se olharem bem esses espinhos (acúleos), eles metem respeito a toda a gente. E eu não esqueço na minha ida à Pedrada em 2013, com os meus amigos Eira-Velha, Luiz Perricho e António Branco, dia em que sofri um ataque de coluna que me pós a coxa direita a "ferver" como uma panela, ao descermos a Férrea, caí e fui aprisionado por moitas de tojo das quais só depois de me levantar e cair, só à terceira vez me consegui libertar delas e senti a pele gelada de uma cobra castanha a roçar nas minhas costas. Foi a segunda maior tormenta na serra de Soajo, esta devida ao tojo e, ainda hoje, olhando o tojo, julgo que ele se ri de mim.


Linda flor amarela mas "mázinha" devido à sua protecção pelos acúleos do arbusto que lhe dá vida

Antigamente, pela bela serra de Soajo, os tojos não tinham a sorte que têm hoje. Muitos deles eram comidos, quando à nascença, ainda tenrinhos, pelos animais que eram pastoreados em redor dos lugares. Vacas, cavalos, cabras e ovelhas, davam-lhe um grande desbaste. Também as populações o cortavam, a força de pulso, para, quando seco, servir para fazer as camas dos gados nas cortes. Em Maio os estrumes eram levados para os campos para fazer as sementeiras.

Amostra de moita de tojo-gatunho

Mas hoje, para tristeza minha, vejo tojos enormes que pintam em demasia as nossas montanhas lindas com a cor amarela e, à falta de melhores circunstâncias, eles tentam deslumbrar-me com as suas cores ao mesmo tempo que as abelhas me preparam as melodias mais lindas.

Ainda há dias, junto ao cemitério de Adrão assisti a isso. Olhava o monte que desce do cemitério até ao rio, monte que há cerca de 38 anos eu subi com 40º (quarenta graus) à sombra num ápice, vindo da Assureira, até à casa do meu amigo Joaquim da "Chica" nas minas do Miguel. O calor não teve força para me fazer cancelar a caminhada mas os tojos de hoje têm! Acredito que se o tentasse, não sairia dos arredores do moinho de pedra que existe no rio.

Apesar das suas propriedades negativas os "ulex europaeus" e todas as espécies "ulex", como o tojo-gatunho (ulex densus) ainda são capazes de me encantar com a sua floração amarela nos meus belos montes.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

rio adrão

rio adrão.jpeg

Aqui nasce o rio Adrão

Das melhores coisas da minha vida, foi caminhar no rio de Adrão. Até aos 15 anos e depois, à medida que por lá ia passando. Nesses tempos eu caminhava no meu rio como caminho hoje por muitos trilhos limpos. Hoje sim! Mas hoje já não dá para caminhar assim pelo rio de Adrão. O rio Adrão nasce aqui e vai perder-se enleado em matagais sem fim, até se encontrar com o rio Lima, entre Soajo e Cunhas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Eu nasci na serra de Soajo

Foi por lá, na bela serra de Soajo, pelas suas fraldas que eu aprendi a caminhar.

Hoje, ao caminhar pela serra de Soajo, vivo, em sonhos, mais de meio século depois, os primeiros 15 anos da minha vida.

Como já tenho dito, por aqui, recordo, sonhando, aquelas pequeninas passadas que ia dando agarrado às saias da minha mãe para não beijar as pedras que, "estoicamente" me ameaçavam, numa espera permanente, aguardando mais um tropeção.


As rochas graníticas metamorfizadas no Alto da Pedrada, resultado de milhões de anos de acão dos gelos, das alterações térmicas e não só, foto de 12.10.2010

Ainda hoje vivo, em sonhos, as passadas que dava agarrado à mão de meu pai, especialmente, ao atravessar as águas que lenta ou rapidamente desciam as encostas, seguindo sempre as descidas da gravidade apontando sempre rumo ao rio Lima, lá em baixo.

Vivo, em sonhos, o caminhar atrás das vacas, alargando sempre a passada, tão larga quanto possível até um dia atingir o Alto da Pedrada.

A Pedrada!

Sim! Aquele amontoado de pedras que a filha de um rei qualquer das Astúrias teria juntado para construir o tal palácio.

A lenda é bonita. Muito bonita!


As mesmas rochas vistas, cá de baixo, quando subo do Fojo do Lobo de Travanca, foto de 12.08.2010

É bonita porque nos fala de valores humanos e de beleza

Essa filha desse tal rei, uma bela princesa, sentia-se infeliz na sua terra de nascimento. Andava sempre triste e seu pai o rei estava preocupado com ela e achou que a filha precisava de conhecer mundo. Os dois acordaram no seguinte: a princesa iria caminhar na direção que quisesse procurando uma terra onde se sentisse feliz, ou encontrar um local que lhe agradasse para aí construir um palácio.

Assim foi. Depois de percorrer várias terras, atravessar vales e serras, foi dar com uma montanha linda. Olhou em volta e, tudo o que via lhe agradava. Só via serranias e vales profundos e, depois de tanto observar o que a rodeava, apressou-se a informar o seu séquito que era ali que construiria o seu palácio. Por isso, enquanto iria às Astúrias informar o seu pai podiam começar a transportar as pedras para a construção.

Regressou e chegando junto do seu pai, informou-o de que a sua vida iria mudar radicalmente. Tinha encontrado o seu local desejado para a construção do seu futuro palácio e já deixara lá parte dos seus acompanhantes para darem início aos trabalhos. Já começavam a juntar as pedras para a construção.

Pegou nas mãos do pai esfregando-as e disse-lhe: «pai, não haverá local mais bonito no mundo. Todo o horizonte em redor daquele sítio é fabuloso. Montanhas e mais montanhas a perder de vista e por cima dos cabeços das montanhas somos acariciados por uma brisa marítima. Por lá, pelos seus vales e encostas há muitos lobos, javalis, veados, ursos, ... e muita floresta de carvalhos e demais árvores como as nossas aqui. Vou construir naquele local um palácio lindo e ....»».

 



Subindo do Fojo do Lobo de Travanca, rumo à Pedrada, foto de 12.08.2010

O rei não passava de um homem e, foi contagiado pelo entusiasmo da filha, pensando que exagerou ao dar-lhe a possibilidade de se tornar uma princesa feliz.

Sisudo, tentando observar o vácuo diz: "não minha filha, se esse sítio é como tu dizes, só pode ser digno de um rei".

Ele matou o sonho da sua filha, a sua princesa. Assim, ainda hoje lá estão aqueles pedregulhos de granito à espera de uma outra princesa que dê andamento à obra.

Quando hoje caminho pela Pedrada e observo aquela gigante cascalheira de pedras recordo a bonita lenda e recordo também como ela foi bonita para mim. Quem melhor ma contava era o ti Manuel Ramos ao me explicar como tinha ficado sem a sua mão ao manipular um petardo dos foguetes que lhe rebentou na mão.

«Luiz, nunca mexas nessas coisas. Não te esqueças que ainda podes vir a casar com uma princesa que vá acabar de construir o palácio à Pedrada».


Foi uma grande subida, no calor de 12.08.2010, com a zona do Mezio, para trás, cheia de fumo, rumo ao Gião

Mas hoje, caminhando sobre os granitos da Pedrada, eu tento esquecer a lenda. Esqueço a princesa da Pedrada e o seu pai, um rei sem palavra.

Recorro à Geologia, à Morfologia das Rochas e vejo que o rei é o Tempo e que a princesa é a filha do tempo. Caminhando sobre a serra de Soajo, caminho sobre o tempo geológico e sou informado pelos especialistas que as suas rochas graníticas, tal como as dos planaltos de Castro Laboreiro são muito antigas pois têm mais de 300 milhões de anos.

Dizem-me também que todos os vales em U já foram glaciares. Estou a lembrar-me da Seida. A Seida é um vale quase em U e os gelos desciam da velha Pedrada rumo à montanha de Santo António de Vale de Poldros, desviando-se à esquerda rumando pelo vale do rio Vez. Também os especialistas me dizem que os granitos da Pedrada são resultado das intrusões das águas e dos gelos sobre os granitos e das grandes alterações das temperaturas térmicas, na caminhada dos milénios, delapidando-os.


Esta foto, tirada de Arcos de Valdevez para a Pedrada, em 29.08.2016, péssima, devido às circunstâncias, foi por ela, ainda na máquina que eu soube que a Pedrada tinha ardido. Mas eu não acreditava, porque a foto era pequenina e eu fiquei com dúvidas. Pensei contudo fazer uma caminhada à Pedrada e só quando caminhava da Derrilheira para a Corga da Vagem, já com a Pedrada em frente do nariz, verifiquei, sem dúvida que tinha ardido mesmo

A Pedrada terá sido, então, através de milhões de anos e das várias eras geológicas um centro de gelos que desceram em seu redor em todas as direções. Ela faz parte da cordilheira Central Ibérica o Massiço Hispérico que se estende rumo à serra da Estrela e por diante, nomeada Cordilheira Hercínica ou Varisca. É uma cadeia rochosa onde as forças compressivas se iniciaram no Devónico, por volta dos 380 milhões de anos e se prolongou até ao Pérmico por cerca de 100 milhões de anos. As rochas graníticas da serra da Peneda, entre a serra de Soajo e o planalto de Castro Laboreiro, como a Meadinha, a fraga da Nédia e parte leste da serra do Gerês são milhões de anos mais novas que os granitos da serra de Soajo.

A cadeia Hercínica ou Varisca é constituída por rochas muito deformadas com predominância de rochas graníticas e muito metamorfizadas. São estas, grosso modo, os "madeirames" do berço da nossa serra de Soajo.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Paradela

Vamos caminhar por Paradela de Soajo.

Paradela é a outra terra do Ventor. É desta terra que vos falo hoje, e vos conto um pouco da minha vida de criança. Aqui tive uma semana de escola!

Esta foi a segunda aldeia onde passei uma boa parte dos meus tempos de criança. Foi em Paradela que tive a minha primeira escola, embora não mais que cerca de uma semana. Fiz a minha primeira grande birra, travei a minha primeira grande batalha e usufruí da minha primeira grande vitória! Isto deu-se no ano de 1952, exactamente na abertura das aulas, pelo S. Miguel (mês de Outubro). A minha primeira professora, era de Bragança e foi-o por sete dias. Para me sossegar, deu-me uma boneca a ver se eu acalmava. Dei-lhe um grito para lhe dizer que as bonecas eram para as meninas e atirei com ela contra a parede. Ao fim de alguns dias, depois de tudo tentar, a professora que seria pouco mais que uma menina, chamou minha mãe e aconselhou-a a levar-me para Adrão, a aldeia onde nasci e a terra onde passava mais tempo e, por isso, onde estava a minha gente. Assim foi! Cheguei a Adrão, e integrei-me com toda a amabilidade deste mundo na sua escolinha do Senhor da Paz, nome do Santo que a gente de Adrão homenageia nesse local, pelo mês de Maio. Pelo menos era assim.

Este lugar aqui, é Paradela. Era a terra do meu pai por onde eu caminhei até aos 15 anos e demais visitas posteriores

A rapaziada dessa escola era quase toda mais velha que eu e havia bastante juventude para o tamanho da aldeia, além disso, não havia o sentido da escola, pois as gentes da aldeia precisavam dos miúdos para pastorear o gado e para andar à frente das juntas durante o acarretar do esterco e o lavrar das terras nos tempos das sementeiras, que eram tempos de aula. Eram eles parte activa nas lides das lavouras, na guarda dos gados e enfim, também não tinham o apoio necessário uma vez que, em casa, normalmente, ninguém sabia ler ou escrever. Em poucas casas haveria alguém que lesse. Eu tive o privilégio de ter um pai que sabia ler e escrever. Mas muito pouca gente estava nesse rol.

A partir daí, pelo menos durante o tempo de escola, deixei de ir a Paradela. Passei a fazer as minhas visitas mais espaçadas e só nas férias grandes, do Natal e da Páscoa, comecei a visitar aquela terra com maior permanência. Como aos sábados e domingos também tinha de se andar atrás dos gados, eu ia até aos Poços com as vacas desde a Assureira, rapar as ervas das lavouras de Paradela e por vezes, tinham de ficar por lá mais tempo a fim de transformarem em estercos (adubos) os estrumes levados para as cortes.

Desta janela, do lado de cá, do lado de Paradela, eu olhava Lindoso do lado de lá e os carros, que passavam na estrada, o mais peculiar era a carrinha do peixe que, ao chegar aos locais buzinava que se fartava

Por isso, todos os tempos eram selectivamente aproveitados. Era absolutamente necessário viver, durante o ano, em Adrão e em Paradela e, portanto, praticar um certo nomadismo entre as duas aldeias. Praticávamos uma agricultura de subsistência, com produção de milho, batata, feijão, algum centeio, umas frutas e vinho e, no nosso caso, este seria repartido por Paradela e pela Assureira, talvez 50% por 50%. Era difícil a vida na época!

Para Paradela também tenho reservado o meu quinhão de saudade! O lavrar das terras e fundamentalmente dos Poços, com meu pai, o ti "Vilanova" e o ti Domingues e mais família. Carrego em mim as saudades da minha nespereira dos Poços, que nunca esqueço. Também arrasto sempre comigo, as saudades dos bons figos das leiras do Baltazar, em Paradela.

Algures por aqui, nesta foto, haviam figueiras que davam figos maravilhosos. Há 58 anos que não voltei a comer figos daquelas leiras, nem de lado nenhum de Paradela

Mas nunca esqueço quão difícil era fazer a junção dos trabalhos nas duas aldeias. Era preciso levar o pão e outros coisas de Adrão para Paradela ou de Paradela para Adrão. Uma vez, quando eu ainda era muito pequeno, tocou-me trazer uma grande broa de milho, monte acima, a caminho de Adrão. A minha irmã, mais velhinha, vinha carregada, mas tinha torcido um pé e eu tinha mesmo que trazer a broa, pois ela não podia devido a já estar muito carregada. Eu não podia com a broa e não era nada fácil acarreta-la monte acima. Ela diz-me que se não chegamos com dia a casa, o lobo pode apanhar-nos, de noite, na Chãe da Porca. Eu comecei a fazer contas de cabeça e de repente pensei, se transportando a broa chegaria de noite à Chãe da Porca, onde o lobo nos podia apanhar, valia mais chegar com dia a casa e sem a broa. Mandei a broa montanha abaixo direita à aldeia da Várzea onde eu pensava que chegaria intacta e alguém a apanharia. Foi o melhor que pude arranjar. A minha irmã coxa, apanhou os bocados e meteu-os num saco e teve de ser ela a transportar tudo. Eu não queria nada com o lobo nem que ficasse sempre sem pão.

Esta é a capelinha de Paradela. Não fui grande assíduo dela mas porque não se proporcionou. Talvez volte a falar dela

Deixemos Paradela e venham comigo, ver como são estes bichos horrorosos que sempre me meteram medo. Vejam como são os Bichos da Peçonha. Venham comigo e com o Quico ou não gostam da Índia? Se não gostam vão até ao Ventor em África e prossigam por outros trilhos.